O que aconteceu com Leila Lopes?

Postado em TV, artes, comportamento, crime, suicídio, teatro, violência com as tags , , , , , , em Dezembro 13, 2009 por Luciano Pillar

Leila Lopes se matou.

O que sabemos de Leila é sobre sua vida profissional. Neste aspecto, Leila foi uma atriz que fez sucesso através de novelas televisivas na década de 1990, não conseguiu manter esses empregos e o sucesso anterior, pousou para a Playboy e foi para o mercado de filmes pornográficos. Foi pela perda do sucesso que ela deu um fim em sua vida? Não sabemos, mas sobre o suicídio e uma carta que ela deixou antes deste ato podemos nos expressar.

Neste dezembro de 2009 ela resolveu se matar. Segundo foi divulgado, ela deixou uma carta de despedida onde afirmou: “Não chorem, não sofram, eu estou ABSOLUTAMENTE FELIZ! Era tudo o que eu queria: ter paz eterna com meu Deus e, se possível, com minha mãe. Eu não me suicidei, eu parti para junto de Deus… não sou covarde não, fui uma guerreira, mas cansei. É preciso coragem para deixar esta vida… acontece que eu não quero mais morar em lugar nenhum. Eu não quero envelhecer e sofrer… Eu quero paz! Estou cansada, cansada de cabeça! Não aguento mais pensar, pagar contas, resolver problemas… eu decidi que posso parar com isso, ser feliz, porque sei que Deus me perdoará e me aceitará como uma filha bondosa e generosa que sempre fui“.

Não é possível julgar alguém, pois não conhecemos todas as circunstâncias da vida do julgado, todas as emoções e provações de sua vida e, mesmo que tivéssemos toda esta visão, carecemos da suficiente inteligência e maturidade para julgar. Entretanto, podemos expressar algumas considerações sobre a vida dos outros no sentido de ver o que é bom para todos e o que não é.

Em primeiro lugar, Leila teve sucesso e o perdeu depois. Entenda-se por sucesso o ser famoso, ter um status social superior ao da média das pessoas e ganhar um bom dinheiro. Esta definição comum de sucesso, em si, já é um erro. O verdadeiro sucesso implica evoluirmos, melhorando e enfrentando os desafios do crescimento humano. E isso não tem nada a ver com circunstâncias sociais e culturais, como estas descritas. E o julgamento do sucesso não é, como visto, possível de ser feito completamente por nós. Mas, Leila deve ter se deprimido com esta queda do pedestal onde subiu. Ainda sobre o sucesso, considere que o poder que ele aufere à pessoa fascina e vicia. E que a sua perda deprime, geralmente bastante. Mas, isso já acontece entre chimpanzés e bonobos. Seria correto nos comportarmos exatamente como eles sem reagir a isso?

E o suicídio? O que dizer dele? É um direito nosso?

Em primeiro lugar, não se fala em suicídio. Não se divulga. Esse assunto é tão sério que, mesmo no nosso mercado jornalístico, que nos mostra todo tipo de barbaridades e atrocidades sem o menor constrangimento, inclusive ressaltando mais as coisas erradas do que as corretas, o suicídio não é permitido. Dizem que é para não incentivá-lo naqueles potenciais suicidas. Mentira. Se assim fosse, não mostrariam também cenas de crimes impunes. A razão é muito mais profunda, mas nunca discutida a sério.

Temos o direito de tirar nossas próprias vidas? Eu perguntaria, antes, se nossa vida é nossa propriedade. Ora, nossa vida é algo muito superior a nossa capacidade de criação. Ela é uma dádiva que nos foi dada por algo inimaginavelmente superior a nós. Ela tem propósitos acima de nossa capacidade de julgamento ou opinião. Ela somos nós. E nós estamos aqui para quê? Para quê realmente vivemos? Tivemos o direito de decidir entre existir ou não? E de decidir nosso sexo e o formato de nosso corpo?  E onde nascemos? Não decidimos sobre nada disso e não somos donos da vida de ninguém e de nenhum ser. Inclusive da nossa. Não temos a nossa vida, nós somos ela.

Uma vez vivos, nós temos opções. Estas dizem respeito as nossas ações, a direção que damos à vida, com quem convivemos, no que trabalhamos, etc. As opções principais, entretanto, têm a ver com nossas verdadeiras atitudes e sentimentos na vivência de todas as situações, boas ou ruins, pelas quais passamos. Estas atitudes, que podem ser melhoradas pela vontade nos pontos que descobrimos serem importantes, através do estudo e do exemplo das pessoas certas, é que vão sendo gravadas em nós como acréscimo de maturidade e evolução no caminho do que vem depois de nós. E essa gravação, usando este modelo como analogia, são feitas em uma essência de nós que não nos pertence. Eu diria, e muitas filosofias e crenças, assim como muitos de nós o sabem de alguma forma, que essa essência de vida e consciência é divina. E isso nos pertence?

Não posso julgar, mas me parece que quando Leila afirmou que estava “ABSOLUTAMENTE FELIZ”, fica um pouco estranho, pois, pessoas felizes não sentem a menor vontade de se matar. Seguindo, a respeito das afirmações pré-suicídio dela, eu diria:

  • É preciso coragem para deixar esta vida
    • É preciso ter coragem para fazer nosso dever, que é viver esta vida e aprender.
  • Eu não quero envelhecer e sofrer
    • Essa é uma opção que não está disponível para nós. Existe o sofrimento e nós o enfrentamos e aprendemos com ele. A consciência da direção correta da vida e a vivência disso não é sofrimento. As circunstâncias podem ser sofríveis, mas a vida e nós somos muito mais amplos do que elas. O puro apego ao mundo e as regras de nossa parte animal, como o sucesso em relação aos outros que não o possuem (vaidade) gera sofrimento, pois não está na direção correta dos verdadeiros propósitos da vida.
  • eu decidi que posso parar com isso, ser feliz, porque sei que Deus me perdoará“.
    • Essa decisão não está disponível. Provavelmente há um custo alto para ela. Muito possivelmente superior  aos possíveis “problemas” dos quais o suicida quer fugir. Mas, isso são suposições. Serão mesmo?
    • Leila fala muito em Deus. Por quê? O que ela entende por Deus? O que será que ela, que tanto falou nele nesta carta, entendia sobre o propósito dele para com ela e do presente maior que ele teria lhe dado, a própria vida dela?
  • Obrigado Jesus, Nossa Senhora e meu Deus, perdoem-me e recebem-me como a filha honesta e bondosa que sempre procurei ser!
    • Leila refere-se ao Deus cristão, que enviou seu espírito (Cristo) em um homem e deu a ele uma missão certamente mais sofrível que a dela. Se esse Deus não o livrou de uma morte dolorosa, como poderia ela supor que Ele iria simplesmente perdoá-la? Perdoar por que ela não suportou ter sucesso? Mas, sim, é provável que Ele a perdoe, pois o perdão é algo descrito na bíblia cristã. Mas será que Ele a livrará da lição da qual ela fugiu nesta vida? E sem nenhuma consequência? O homem que encarnou Cristo, chamado Jesus, certamente sabia e via muito mais do que os seus conterrâneos, cegos e ignorantes se comparados a ele. Certamente isso lhe deu uma vida de solidão e sofrimento. Teria sido a vida de Leila uma provação maior? Obviamente sua provação seria menor, pois Deus não teria lhe exigido algo do nível possível ao exigido de Jesus. Mas, cada um com sua cruz. Cada um a carrega até onde aguentar. E a morte virá, mas não pela desistência e nem pela mão do próprio ser que de Deus ganhou a vida. Nem Jesus teve esse direito.

Não se fala em suicídio, mas vivemos num mundo onde ele existe em grande quantidade. Por quê? Responder a esta questão leva a um livro, mas sua essência é simples. Muitos suicídios em uma sociedade mostram o fracasso desta. As sociedades servem para criar um ambiente onde podemos sobreviver e progredir, pois elas são um agrupamento de muitos para o fortalecimento de todos. Mas, se há muitos suicídios, é por que não deu certo. E, pessoalmente falando, o suicídio acontece por que a pessoa fica cega e ignorante do verdadeiro propósito da vida. Nesta situação, apega-se aos detalhes e desilude-se. Vaidosos com o corpo e sua posição social, muitos passam a ver nisso a função da vida. Porém, como a verdadeira função está gravada no interior de seu ser, na parte divina da qual não podem fugir, entram em conflito. E existem, ainda, as razões físicas. Doenças mentais que tentamos entender, com nossa ciência cartesiana, como meras desequilíbrios orgânicos e químicos que levam a profundas depressões e ao consequente suicídio. Mas, os desequilíbrios químicos podem ter outra origem não física. E as sofridas vivências proporcionadas por eles podem ter um propósito além de nossa percepção. Esse assunto vai longe, muito mais do que um texto de um blog.

Como despedida, um pouco mais de sucesso para ela numa sequência cronológica de fotos. O olhar dela, com o passar do tempo, indica que esteve indo em direção ao Deus que, no fim, quis encontrar tão rapidamente?

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Bons negócios são feitos por boas pessoas

Postado em amor, comportamento, honestidade, negócios, sentimento, sociedade com as tags , , , , , em Novembro 28, 2009 por Luciano Pillar

Vendi um apartamento e comprei outro. Depois, me mudei. Venda, compra, contratos, escrituras, dinheiro e impostos. São os negócios, correto? Sim, mas muito antes disso, e como tudo na vida, a questão é uma só: pessoas!

Os negócios são tão confiáveis e seguros quanto as pessoas. Isso significa que os negócios podem ser ótimos para todos. É o que acontece quando pessoas maduras encontram-se para negociar. A maturidade nos faz cientes da importância dos outros e a não nos apegarmos às coisas materiais do mundo. Sendo assim, qualquer negociação já é muito tranquila para muitos de nós e, um dia, quando todos crescerem, ficará na história o tempo em que uns passavam a perna nos outros. Uma história que será de difícil compreensão para os verdadeiros adultos de amanhã.

Vamos a minha experiência real de negociação de um apartamento. E, como sempre, convido-os a pensar e aprender com ela.

Eu e a família olhamos vários apartamentos até chegar ao escolhido. A escolha recaiu no que sentimos quando entramos nele: leveza e bem-estar. E, é claro, tal sensação teve uma origem: a pessoa que nos recebeu em sua casa. Dona Nara, a proprietária, nos acolheu e nos mostrou sua casa de forma tão amável que imediatamente nos fez sentir  em casa. Depois disso, vieram os aspectos técnicos. Como o imóvel era bom, estava feita a escolha.

A próxima etapa foi a negociação. Falarei agora na primeira pessoa para descrever minhas próprias impressões. Neste momento conheci os outros proprietários, pois o apartamento era de dona Nara e de seus filhos, e a empresa que intermediou nosso negócio. Dos proprietários conheci especialmente a filha Alessandra, com quem realmente tratei do negócio. De imediato notei estar diante de uma pessoa e não apenas de alguém querendo negociar. Este é um importantíssimo passo no contato humano e que, pela força de hábitos do rápido mundo que supomos civilizado, costuma-se passar por cima. A Alessandra se mostrou humana e transparente o suficiente para que eu soubesse que estava diante de alguém com quem tudo seria tratado com honestidade. Esse é o verdadeiro negócio entre pessoas que não se escondem de si nem do outro, pois não há o que esconder.

Vamos agora à empresa que nos apresentou o imóvel e intermediou toda a negociação. Novamente fui um felizardo por ela ter sido a Imobiliária Morare (www.morare.com.br). A empresa existe para ter lucro com seus negócios, correto? Sim, mas bem antes disso, e muito mais correto ainda, é que a empresa é uma associação humana e, desta forma, uma extensão de nossa humanidade. É um conjunto de pessoas unidas na perseguição de um propósito. Então, de forma mais completa, a empresa existe para servir às pessoas realizando seu trabalho. O lucro financeiro é uma consequência. E a Morare desempenhou seu papel, com esta conotação, de forma impecável. Serviram-me, sempre, de uma forma eficiente e humana. Não me senti sozinho.

Mas uma empresa, de fato, são as pessoas que a compõem. Na Morare, aquela que realmente nos atendeu foi a Andrea. Novamente me sinto alguém de muita sorte mesmo, pois a Andrea é uma pessoa como a Alessandra. Humana, atenciosa, interessada em ajudar aos outros e competente em seu trabalho, ela assessorou-me impecavelmente nas questões do negócio e, melhor ainda, tornou-se uma amiga. Assim a vejo. Não falo isso sem um conhecimento mais embasado, pois, devido a umas pequenas complicações burocráticas (documentos que faltaram), o negócio demorou meses, apesar de eu ter me mudado antes de seu término. Assim, tive bastante tempo para conhecer estas pessoas.

Essa demora nos levou a várias situações, como a quebra de prazos contratuais e as previstas multas, a necessidade de dona Nara pagar o outro apartamento que ela comprara para morar e que dependia do dinheiro deste, entre outras. Todas estas situações, tratadas de ambas as partes por pessoas honestas, transparentes em suas posições e dispostas a ajudar o outro lado nos seus problemas, foram transpostas sem nenhuma dificuldade. Assim é a vida de pessoas maduras o suficiente para entenderem que os outros, e não as posses, são o que temos de mais importante nesta vida. E, consequentemente, assim são as negociações para elas.

Sendo assim, parece-me que influímos positivamente uns nos outros. Acrescentamos uns aos outros. Sentimentos de amor percorreram-nos. Amizades nasceram e bons exemplos pessoais somaram-se em nossas vidas. Isso é estar vivo cumprindo com os objetivos de nossa existência.

Então, amigos, esse é um negócio real. Como ele, tenho várias outras situações de minha vida e de conhecidos que mostram como nossa realidade está repleta de casos corretos e bem sucedidos de vida e de negócios. Normalmente são divulgados os casos problemáticos da vida. As desonestidades e crimes chegam aos nossos ouvidos e tendem a se tornar o espelho da realidade, mas, de fato, tais casos são apenas parte da realidade. Se fôssemos apenas maus, possivelmente já estaríamos extintos  há muito tempo.

Bom, entendido o fato de que a honestidade e os verdeiros e saudáveis relacionamentos humanos são reais e abundam entre nós, tentemos entender o outro lado.

Vamos a um dos princípios para tudo que é a visão do universo a partir de nós mesmos. Pense em você mesmo. Você é o grande personagem de sua vida. Possivelmente o maior e mais importante. Você pensa em você e se ocupa de si mesmo. Você é a razão de suas atitudes e ações. Você é o que existe e tem as suas necessidades. Você é o que precisa sobreviver e ter sua importância. Você necessita ser querido e amado. E ser importante para os outros. Você que está lendo isso, a mente que está funcionando e aquele a quem você chama de “eu”, é o centro do universo. E o que é você? Uma pessoa.

Olhe agora ao seu redor. O que você vê? Aquele a quem você chama de “eu”, com certeza, vê outras pessoas. A mente, que foi treinada nessa sociedade, talvez possa se confundir um pouco e ver os objetos do mundo e seus valores atribuídos pela sociedade. Mas, no seu entorno, existem outras pessoas. Seriam elas importantes? Pense egoistamente para começar a responder a esta questão. Você gostaria que elas soubessem de sua própria importância? Que gostassem de você e se importassem com sua vida? Que o ajudassem nas suas próprias necessidades? Que cuidassem de você? Que lhe dessem afeto e compreensão? Que lhe amassem?

Pense um pouco mais. Você já esteve sozinho alguma vez na vida? Digo sozinho mesmo, fisicamente e por bastante tempo. Meses ou anos em isolamento, sem estar com ninguém. Faltou-lhe esta experiência? Você consegue imaginá-la? Suportaria essa situação? Ninguém para compartilhar. Ninguém para culpar. Ninguém para amar. Mas, e se você ficasse isolado por alguns anos com tudo o que quisesse. Piscina, carro, roupas, home theater e até  livros, telefone e Internet. Você até poderia falar e ver as pessoas, mas nunca teria sua presença real. Consegue imaginar como seria? Suportaria?

Onde quero chegar? Ao fato de que estamos aqui e não estamos sozinhos. Ao fato de que os outros que estão ao seu redor constituem a principal necessidade de sua própria vida. Ora, se os outros são minha maior necessidade, qual o sentido em não me dedicar a eles? Isso faz sentido para uma pessoa ainda egoísta e, para aquela que já ultrapassou esta fase de desenvolvimento, dedicar-se aos outros importa em si e não apenas pelas necessidades pessoais.

Então, o que temos mesmo somos a nós. E aos outros. Com a maturidade isso fica claro e, esta, depende de tempo de vida e de experiências úteis. Depende de vermos e de nos tornarmos conscientes. Os bebês esperam atendimento incondicional e imediato aos seus desejos. Choram para obtê-los. Quando crescem, entendem que o mundo não existe apenas para atender aos seus desejos. Quando crescem mais, entendem que existem outras pessoas. E, continuando o crescimento, percebem, gradativamente, que os outros têm necessidades, que as verdadeiras necessidades não são os desejos e as delícias dos prazeres do mundo físico e que os outros são vidas conjuntas consigo próprias num universo integrado. E a evolução continua ainda a partir daqui. No nosso mundo temos hoje diversas pessoas em diferentes estágios. Muitos apesar da idade, ainda são bebês. E a maioria ainda está presa à fase de servidão e apego aos desejos sensoriais. E essa maioria define o sentimento preponderante em nossas diversas sociedades que incentiva em todos o apego ao material e ao desejo de prazer e de poder. Mas, enquanto isso, continuamos crescendo. É a lei e andamento único do universo.

Amigo, gostaria muito de dizer-lhe que é ótimo estar e negociar com outros quando nos importamos com eles. Isso é um fato real que já experimentei várias vezes. E conheço outros que também têm esta experiência. Isso é um fato e, contra fatos, argumentações são inócuas. Quando acontecem desonestidades, todos sentem-se mal. E todos perdem. A desonestidade é apenas uma distorção causada pale falta de maturidade. Ela é como a escuridão que, de fato, não existe, pois ela é apenas a falta de luz que, esta sim, existe.

Nosso negócio com o apartamento terminou de forma boa para todos. Foi um sucesso! Óbvio. Poderia ser de outra forma? Se ninguém faria nada para se beneficiar à custa de problemas ao outro, como poderia algo dar errado? Se algo fosse prejudicar o outro, cederíamos. Todas as necessárias solicitações eram feitas, de um lado ou do outro, ponderadas e aceitas, com poucas modificações. Todas as solicitações eram cumpridas conforme combinado. Todos os momentos em que alguém tinha que ceder, cedia-se. Surgiu a confiança e, com esta, a tranquilidade.

Com o tempo todos amadurecerão o suficiente para saberem da verdade que já está clara para muitos: na realidade é impossível fazer um benefício a si próprio em troca de um malefício a outros, pois estamos todos unidos.

Referências:

A feliz desistência de Marcos Duarte e a triste insistência de Lula

Postado em TV, comportamento, reality show, sociedade, zoologia com as tags , , , , , em Novembro 15, 2009 por Luciano Pillar

MarcosDuarte2
Marcos, grande, desiste da mentira.

Você já viu algum “reality show” na televisão? Já notou a importância que a vitória tem para seus participantes? Já reparou na conotação quase religiosa que a fama passou a ter? E no quanto estes programas a incentivam? Competir e vencer sempre esteve profundamente enraizado dentro de nós. Assim como nos chimpanzés. Ter sucesso e ser famoso também, assim como nos chimpanzés. Notei isso observando as pessoas e lendo o livro “Eu, Primata” (1) sobre o comportamento social dos grandes primatas.

Não lhe parece que há algo errado em incentivarmos um comportamento presente até num animal? Não seria razoável supormos que dar um passo adiante em termos de evolução implique em afastar-se do mundo animal? Neste caso específico, ser famoso e enriquecer significa ser mais conhecido e rico do que os outros. Fama e riqueza só existem se nos compararmos uns com os outros. E a necessidade de ser mais do que o outro, sentimento já presente, evolutivamente falando, num chimpanzé, baseia-se em vaidade e insegurança pessoal. Ora, quem há que diga que a vaidade e a insegurança são boas? Quem se admite inseguro ou invejoso perante os outros? Logo, um programa televisivo que incentiva e ensina a necessidade de que alguém precise ser mais do que os outros (fama, riqueza) para ter uma identidade pessoal e sentir-se bem e feliz, está, de fato, empurrando a todos de volta à evolução já alcançada pelos chimpanzés. Você não acha isso ofensivo? Você não sente de que é algo além destes animais?

Por sorte, essa insistência na educação ao revés, ou em tentarmos negar a evolução e nos apegarmos a sentimentos e comportamentos de animais, não pode resistir à força da realidade, que é evolutiva. Vamos a um exemplo prático. No reality show Ídolos 2009 (www.idolos2009.com.br) um dos participantes que estava indo bem nas finais, pois caiu no agrado do público votante, desistiu da fama. (Ironicamente, talvez com isso consiga até mais fama ainda por tornar-se um exemplo para todos aqueles que já estão, mesmo que inconscientemente, cansados desta necessidade de ascensão perante os outros.)

Marcos Duarte o candidato desistente, tomou a palavra num momento não previsto durante uma eliminatória para anunciar que estava desistindo. Todos ficaram perplexos, a começar pelo apresentador que, visivelmente, nem sabia por onde prosseguir com o programa, já que age como um autômato bem treinado que segue à risca um script. Ele, assim como os jurados, o público expectador e os criadores do programa tornaram-se, todos, meros fantoches do programa que tenta dizer o que importa para todos nós. O pai do candidato desistente (acho que era o pai) ficou enlouquecido. Pela televisão notava-se seu desespero e desaprovação à decisão do filho. Parece que ele sim tinha um sonho que dependia da fama de seu filho. Quantos pais não são assim? Lembrei-me de Michael Jackson que, ao contrário deste candidato e para azar seu, era criança quando seu pai o dominou e era extremamente talentoso.

Mas, como sempre, a realidade não se curva perante os nossos caprichos infantis e, para aqueles que cegamente tentam confrontá-la, as surpresas sempre aparecem.
Veja o que foi publicado sobre este fato aqui (http://diversao.terra.com.br/idolos/interna/0,,OI4098596-EI14208,00-Cearense+Marcos+Duarte+pede+para+deixar+o+IDOLOS.html):
“Você tem certeza disso?”, perguntava repetidas vezes o apresentador, claramente desconcertado pela notícia bombástica. Ele ainda afirmou que tal coisa jamais havia ocorrido na história do programa, que também é produzido em outros países além do Brasil.
“Eu estou desistindo da disputa”, declarou Marcos Duarte. “Para estar em cima do palco tem que estar com amor, tem que estar de corpo e alma. E eu não estou”, prosseguiu ele.

Nem todos se entregam a sonhos impostos pelos outros, mesmo que estes sejam poderosos.

Lula

Lula, pequeno, insiste da mentira.

Mais um ensinamento evidenciado por Marcos Duarte refere-se à essência do processo democrático: a escolha dos governantes pelo povo através do voto.

O mesmo povo que escolhe seus candidatos preferidos para um reality show é o que escolhe os comandantes do Brasil. A única diferença é que, no segundo caso, a votação é obrigatória e, por isso, todos são obrigados a se envolver. Mas, o povo é o mesmo e, assim, seus critérios. Difícil supor que o nível educacional e de consciência de grande parte da população brasileira permita que os critérios usados para tão diferentes decisões sejam distintos. Além disso, os fatos mostram que eles são os mesmos.

Sendo assim: em quem o povo vota? E por quê?

No caso do programa Ídolos 2009, vários cantores foram desclassificados pelo juri popular e um, nitidamente inferior a vários do que saíram, permaneceu. Este que é adorado pelo povo não canta muito bem, mas parece ser uma boa pessoa e a história de sua vida caiu na graça popular. Resultado: ele sempre recebeu muitos votos. Conclusão: os votantes não possuem discernimento suficiente para entender que, neste programa, está sendo escolhido o melhor cantor e não a pessoa que pareça, por alguma razão, mais simpática aos seus olhos.

Marcos Duarte tem uma história de vida e um carisma pessoal com o qual o povo se identificou. O povo, carente, pouco educado e também comprador do sonho da fama, tem as mesmas necessidades do pai do cantor que desesperou-se com sua desistência. Trata-se da necessidade de se sentir importante e que, se não puder se concretizar por por suas próprias realizações, que seja pelas daquele que é parecido consigo próprio.

Um dos jurados chegou a alertar o povo sobre essa questão, dizendo-lhe para votar no cantor e não na pessoa com a qual sinta afinidade pessoal. O próprio Marcos Duarte fez o mesmo chegando, inclusive, a declarar que já estava ficando constrangido por ver cantores melhores do que ele serem desclassificados e ele ter que permanecer.

Outro exemplo é o do presidente Lula. Um presidente de uma nação também pode ser eleito e re-eleito devido a identificação do povo para com ele. O povo, da mesma forma como demonstrou neste reality show, não tem educação suficiente para conhecer e interpretar a história profissional completa do candidato à presidência da república e para avaliar a sua competência em relação ao cargo que poderá ocupar. Nem imagina também as prioritárias necessidades do país. Tal decisão para a escolha de um presidente, assim como para outros cargos políticos, depende de educação e de equilíbrio emocional. Isso já sabemos há uns 2500 anos, no mínimo, desde a definição da democracia.

Assim, o povo escolhe aquele que lhe vende o que quer ver. O povo vota naquele que como criança o trata, dando-lhe um presentinho em troca da promessa de que alguém que o entende estará a seu lado lá nas grandes altitudes sociais.

Assim, o povo que escolheu Marcos Duarte como cantor é o mesmo que escolheu Lula como presidente. E Lula, o presidente, ao contrário de Marcos, o cantor, jamais, sob hipótese alguma, terá um comportamento à altura do que Marcos Duarte teve ao anunciar ao povo que, para a posição de melhor cantor, ele não era o mais qualificado entre os seus concorrentes.

Do ponto-de-vista da pirâmide social, Lula é importante e Marcos Duarte é um ninguém. Do ponto-de-vista da realidade, Marcos Duarte é uma pessoa que já tem uma boa evolução na humanidade atual. Ele já superou muito sua vaidade e ego que lhe aprisionam ao terreno e ao comportamento já bem dominado pelos chimpanzés. Ele já tem discernimento de que os sonhos impostos de fama não são seus e de que sua busca está relacionada à manifestação de sua arte através de um sentimento sincero de amor. Ele está, assim, bem adiantado nos objetivos atuais da humanidade no estágio em que esta se encontra.

Lula já é uma pessoa bem mais atrasada. Veja bem, não estou dizendo que ele é mau, apenas mais atrasado. As crianças não são más, mas apenas ainda não cresceram o suficiente para aprenderem os hábitos da cultura na qual nasceram. Da mesma forma acontece com uma pessoa espiritual. Lula é uma pessoa que precisará trilhar ainda um longo caminho até atingir o ponto atual de Marcos Duarte, mas ele chegará lá. Lula está, no nível em que se encontra, totalmente escravizado por sua vaidade e ego. Ele tornou-se mais um refém do prazer do poder em si, incapacitado que ainda é de usar o poder para sua evolução e dos outros. Mas, para azar seu, como ele é muito capaz na retórica, no jogo político baseado em falsas e oportunas amizades (como os chimpanzés) e em se comunicar com o povo votante de forma a fazer com que este se identifique com ele, ele obteve poder no mundo dos homens que ainda é dominado pelos sentimentos comuns aos dos chimpanzés. Tal fato foi um infortúnio para ele, pois o colocou diante de um poder acima de sua capacidade de discernimento que, facilmente, lhe cegou. Sua evolução, possivelmente, parou por aqui.

Não é uma crítica ao presidente e nem o desejo de algum mal a ele, mas um exemplo do que quero dizer a todos: nossa evolução implica em irmos além daquilo que já está presente no mundo dos animais, como a necessidade de fama e ascensão social. Nossos valores e objetivos são maiores do que isso e, para quem já sabe sobre nossa real natureza, a fama perante os outros é um conceito inexistente.

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Referências:

A violência: sua natureza e seu antídoto

Postado em filosofia, sociedade com as tags , , , , em Outubro 25, 2009 por Luciano Pillar

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A humanidade é criadora e vítima da violência. A questão é: estamos interessados em acabar com este tipo de manifestação? Se fizermos esta pergunta às pessoas, observaremos que a grande maioria declararia que sim. Apesar disso, vivemos num mundo furioso. Esta diferença entre as declarações da maioria e os fatos suscita algumas questões a pensar.

Para começar, cabe identificarmos as responsabilidades. De quem é a culpa de tanta violência? A primeira e interessante constatação é de que ninguém se julga culpado. Até mesmo os violentos alegam que, se fizeram algum ato desta natureza, foi por alguma razão externa que o justifica. O senso comum atribui a culpa da violência aos bandidos, especialmente os assaltantes e os traficantes.

Mas a realidade está longe de ser tão simples. Vamos estendê-la um pouco. O que podemos dizer dos fabricantes e traficantes lícitos da droga álcool? Consta nas notícias divulgadas que muita violência aconteceu por pessoas estarem embriagadas. E dos governantes que criam e comandam as guerras? E dos fabricantes de armas? Jorge Py Velloso, vice-presidente da Taurus, maior fabricante brasileira de armas, declarou o seguinte em notícia divulgada pela BBC (endereço indicado no fim deste texto): “As exportações da Taurus para os Estados Unidos devem crescer 35% este ano”. Para ele a violência é um negócio e, sem ela, teria que mudar de ramo. Da mesma forma terminaria o ganha pão dos policiais, das forças armadas, dos negócios que existem em torno da segurança, da indústria de dispositivos para segurança, de muitos fabricantes de jogos violentos (a maioria?), de grande parte da indústria cinematográfica e televisiva e de uma infinidade de outros serviços que só existem em função da segurança contra a violência. Uma grande quantidade de pessoas dedica o tempo de suas vidas em torno das consequências da violência. Nossa sociedade seria algo inimaginável, mesmo para um brilhante e criativo escritor de ficção, se não houvesse violência. É tão difícil conceber isso que acho que jamais foi feito de maneira satisfatória. Os próprios países estão no negócio, de corpo e alma. Veja só esta notícia divulgada na BBC: “o Brasil está entre os três maiores fornecedores de pistolas e revólveres para os Estados Unidos, com 25% daquele mercado. Os outros dois são Áustria e Alemanha”. Mais uma: “Apesar da crise financeira internacional, as exportações de armas leves fabricadas no Brasil cresceram 39% no acumulado de janeiro a setembro em relação ao mesmo período do ano passado. De acordo com dados da Secretaria de Comércio Exterior, do Ministério do Desenvolvimento, o Brasil vendeu o equivalente a US$ 236,8 milhões nos primeiros nove meses do ano. No mesmo período, as exportações brasileiras em geral caíram 26%.”. Será assim que vamos criar um mundo mais seguro?

Os negócios com a violência são mais uma garantia de sua continuidade. Não a maior. Nem perto da maior. Todos os negócios do mundo – eu disse todos, de todos os países – são coisa pequena perto da verdadeira razão da violência. Estes negócios são meras consequências da prévia existência da violência. Todos os negócios do mundo não passam de trilhões de dólares, pois os medimos em dinheiro, e essa quantia monetária é pequena, efêmera e pouco poderosa perto da razão da violência, que abordaremos no decorrer do texto. Por agora, para adiantar, pense nisso: “Crianças não brincam com armas e adultos não fabricam armas”.

Cabe pensar se nós iremos, um dia, viver num mundo pacífico. Caso afirmativo, como conseguiremos isso? Antes de tentar elucidar melhor estas questões, vamos observar um exemplo prático ocorrido no Brasil recentemente. Nada melhor do que os fatos.

Uma forte manifestação de violência aconteceu no Rio de Janeiro no dia 17 de outubro,sábado, que deixou cerca de 20 mortos. Alguns ônibus foram incendiados e até um helicóptero da polícia foi derrubado. Os ataques foram atribuídos aos traficantes na zona norte do Rio. Para resolver este problema, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez as seguintes afirmações, conforme divulgado pela mídia:

  • É preciso perseguir e encontrar quem praticou esse ato de violência;
  • Tudo que o governador (do Rio de Janeiro) precisar. Estaremos dispostos a fazer todo o sacrifício que for necessário para ver se a gente limpa a sujeira que essa gente impõe ao Brasil no mundo;
  • A cada dia temos a sensação de que é uma causa perdida, mas não vamos desanimar.

Afirmações óbvias para quem se diz contrário à violência e pretende agradar ao povo. Óbvio também é que elas são destituídas de qualquer capacidade de resolução prática do problema da violência e, provavelmente, nem sejam acompanhadas de sincera intenção. Mas parece que nosso bom presidente resolveu também prometer agir além de falar, pois foi divulgado pela mídia que o governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral Filho, disse ter recebido a promessa de um investimento de R$ 100 milhões para a área de segurança pública, que serão desembolsados pelo governo federal. O que todos sabemos é que o desembolso do governo resulta, de fato, em desembolso do povo. E todos sabemos também que esta violência que nosso dinheiro tentará estancar não vai acabar. Isso já aconteceu antes, tanto a causa como o remédio e o resultado. Mas, para alegria de muitos que trabalham no setor da segurança, nosso dinheiro será transferido para seus bolsos.

O presidente Lula poderia, se quisesse e pudesse, aplicar as mesmas palavras ao seu próprio governo. Exatamente as mesmas. Pelo que consta no que tem sido publicamente divulgado há anos por todos os meios de comunicação, o governo está repleto de bandidos que agem impunemente sem o menor constrangimento. Este fato é grave, pois eles roubam o dinheiro de todos nós que pagamos para termos o país administrado e termos a nossa disposição os serviços necessários, incluindo a educação, a saúde e a segurança. Ficamos sem os serviços com a necessária qualidade e ainda somos humilhados pelos bandidos que desfrutam de nosso suado dinheiro, montam um bom patrimônio pessoal e ainda aparecem constantemente impunes na mídia. Uma consequência desta bandidagem é a revolta e a descrença que nasce na população. E, mais grave ainda, isso deseduca pelo exemplo. Os bandidos de colarinho ensinam assim, com seus fartos exemplos, que o crime compensa. Muita violência que vemos por aí resulta do aprendizado e dos valores obtidos através do próprio governo e do mercado, que ensina sobre a obtenção de valor pessoal através das posses e da fama.

E então presidente Lula, o senhor vai “fazer todo o sacrifício que for necessário para ver se a gente limpa a sujeira que essa gente impõe ao Brasil”? O senhor vai “perseguir e encontrar quem praticou esse ato de violência”? E puní-los? E dar o bom exemplo? Todos sabemos que não, pois isso não foi feito nem mesmo dentro de casa.

Até aqui falamos sobre as manifestações da violência e não sobre sua essência. O que é a violência? De onde ela vem?

Pensemos. Os animais predadores transformam-se em assassinos para se alimentarem. Essa é a sua natureza que também vive em nós. Muitos animais também ficam agressivos, e até matam, devido a luta pelo poder em seus bandos. Os chimpanzés chegam a mentir. Sendo assim, quando somos violentos não somos melhores do que os animais. Curioso, não?

Mas os animais são o que são. Seu comportamento pouco ou nada muda com o passar do tempo. Tão pouco parece ser muito grande sua consciência sobre si mesmos e sobre o mundo em que vivem. Mas nós, diferentemente deles, temos uma consciência e uma capacidade de criação de novos comportamentos. Tal capacidade nos leva a mudarmos e evoluirmos com o tempo. É inevitável e não temos opção. Somos conscientes, inteligentes e não podemos fugir disso. Assim, no que se refere à violência, ao contrário dos animais não a usamos apenas para a caça, como qualquer carnívoro, ou para disputas pelo poder, como alguns deles. Nossa superioridade mental também nos permitiu experimentar a perversidade e a incrementar a crueldade. Por outro lado, nossa consciência nos fez ver mais além e almejar uma situação diferente.

Olhe a seu redor. Use de suas lembranças. Pense. Você conhece gente pacífica? Conhece pessoas que jamais fariam o mal a outros, muito menos atos violentos? Conhece gente boa que, deliberadamente, e muitas vezes com sacrifícios em suas próprias vidas, ajudam a muitos e por várias pessoas são muito queridas? Pois é, existem muitas pessoas boas que vivem distantes de atos violentos maiores. E existem muitas pessoas que não vivem mais pela vaidade e pela busca incessante de poder.

O que temos aqui então? Pessoas mais dependentes de comportamentos presentes nos animais e outras mais distantes disso. E qual seria a diferença entre os animais e nós? A evolução.

Observemos um pouco mais. Olhe a natureza. Olhe fotos do universo. Veja a organização das galáxias, a estrutura ordenada dos seres vivos a seu redor e a incrível organização de nossa anatomia. O universo não é um caos. A energia e a matéria que nele existem não ficaram desordenadas resultando numa confusão, mas, muito pelo contrário, ordenaram-se de forma muito além da compreensão e capacidades humana. Nós mesmos somos fruto de tal organização. Nosso corpo é uma criação acima do que poderíamos supor. O que dizer, então, de nosso cérebro. A conclusão óbvia é que o universo é dinâmico e tende a se organizar. Não só tende, mas, de fato, organiza-se. Ele segue leis. Periodicamente existem choques, explosões, reformulações da energia e matéria, mas sempre surgindo daí, como consequência, uma nova estrutura organizada e mais complexa. Da molécula do hidrogênio chegamos às macro-moléculas, às proteínas, ao DNA e à vida. A vida física organiza-se até formar o cérebro humano e este transcende, pela mente, o físico. Tudo isso não é crença religiosa ou mística. É simplesmente uma observação de fatos visíveis por todos nós.

Ora, nossa natureza é a mesma do universo, pois fazemos parte dele. Estamos nele. Somos um produto dele e fomos criados segundo suas leis. Nossa natureza é única e não temos opção alguma de ir contra ela, pois não existe o contra. O mundo não é realmente dual, mas único. E, nesse caminho evolutivo, adquirimos consciência. E ela segue, como tudo, evoluindo e aperfeiçoando-se. E esta consciência é que nos faz sentir mal com a violência. Um animal não sente o mal ou culpa ao matar. Ele mata e come sua vítima. E fim. Mas nós, que estamos um passo adiante na evolução e somos dotados de consciência, não somos assim. Ora, o que nos mostra esta nossa percepção quanto à violência? Responda você mesmo. Pense. Observe. Sinta. Ouça seus sentimentos e verá a resposta. A violência está na contramão da evolução!

Então, se é assim, como combater a violência? Com as afirmações do presidente Lula, de usar de dinheiro para comprar armas, contratar e treinar mais policiais? Nos negócios multibilionários de produção e comercialização de armas? Se alguém é violento, eu ataco a violência agredindo-o e, quem sabe, matando-o? Se eu o agredir eu atacarei a ele e não a violência. Pelo contrário, nesta situação, eu mesmo me transformei em mais um habitáculo para a violência e tornei-me mais um a perpetuá-la. Tornei-me mais um a me afastar (temporariamente) do único rumo evolutivo do universo. Não me afastarei eternamente, pois não há esta opção num caminho único, mas sofrerei muito até ter que aprender e adquirir a consciência necessária para voltar atrás. Só isso. Então, amigos, violência não pode ser combatida com violência. Isso é um contra-senso total. Só podemos pará-la não a praticando. É como disse Jesus e Gandhi.

E no nosso mundo real, o que faremos? E na prática, quais as ações possíveis? Para começar, o que falei É o mundo real. A violência não pode ser atacada diretamente, pois ela é apenas um subproduto da falta de consciência. O que temos que combater é o atraso evolutivo e a ignorância. Se as pessoas evoluírem e amadurecerem, então, naturalmente, a violência cederá. Se as pessoas evoluírem então, um dia, nossos governantes também serão mais evoluídos. Se estamos falando em aumento de consciência, em crescimento e em evolução, é de educação que realmente estamos falando. Logo, para acabar com a violência, precisamos nos educar, no sentido mais completo e humano desta ação e não apenas na aquisição de conhecimento intelectual. A educação envolve não só o aspecto mental e intelectual, mas também o emocional e o espiritual. Precisamos entender e aceitar como é o ser humano e agir de acordo. Entre nossas características está nossa necessidade uns dos outros, de proximidade afetiva e de amor. E as pessoas precisam de exemplos corretos, especialmente as crianças. E, por falar nisso, que exemplos a população tem? E quem os dá a ela?

A população tem recebido muitos exemplos do mercado econômico e do governo que a confunde e a estanca em seu crescimento. O governo brasileiro tem mostrado fartamente ao povo que roubar e ser desonesto é algo aceitável e não punível. O mundo do mercado em que vivemos, onde até a educação e a saúde são tratadas como commodities, usa de uma massacrante mídia comercial que, para vender produtos, cria nas pessoas absurdas ilusões sobre ser alguém importante ou feliz se tiver este ou aquele produto. E esta mídia usa de situações onde a violência também é um elemento que incentiva as vendas ou ela própria é vendida. Neste mercado encontramos até a fé mística como produto, pois abundam entre nós igrejas que, em nome de alguma divindade, são apenas mecanismos de extração de dinheiro das pessoas.

Tudo leva à educação. Educação e exemplos corretos. Para crescer e evoluir há que se educar. E entenda-se que a violência acaba com este crescimento pessoal que nos afasta do mundo animal. Atualmente existem muitas pessoas grandes o suficiente para não precisarem mais da violência, mas, a humanidade como um todo, ainda não atingiu este estágio. Nos países mais desenvolvidos ainda há leis e punição para inibir a violência. Leis que são cumpridas. Esse é um passo intermediário necessário enquanto evoluímos. É como tratamos uma criança em desenvolvimento, proibindo-a de fazer certas coisas até que ela atinja a maturidade suficiente para ser liberada. Enquanto isso: educação, educação e educação.

Por que não investimos seriamente em educação no Brasil? Por que as escolas particulares ficaram tão caras e transformaram-se, antes de mais nada, em negócios com propagandas até nos ônibus que circulam nas cidades? Por que o ensino público, bem pago pelo cidadão em forma de impostos, transformou-se no que estamos vendo? Quem inventou estas regras? Quem se beneficia com elas? Quem ganha com a ignorância e a miséria do povo? Qual o perfil psicológico dos governantes e onde podemos ver os resultados de suas avaliações? Por que um professor, profissional da maior necessidade em qualquer sociedade, ganha tão pouca remuneração financeira enquanto um juiz o suficiente para enriquecer e muitos jogadores de futebol uma indecente fábula?

Não há dúvida de que se quisermos resolver o problema da violência precisamos nos aprofundar mais em entender qual sua natureza e por onde a atacarmos. Suas raízes são mais profundas do que sugere nosso presidente.

Façamos um resumo:

  • A diminuição da violência acontece com a evolução e o desenvolvimento dos indivíduos.
  • A evolução surge com a correta educação e sua prática na vida.
  • A educação depende de corretos exemplos, estudo, amor, vivências e tempo.

E relembremos alguns conceitos:

  • Quanto menos evoluída for uma pessoa, mais próxima ela estará do mundo animal.
  • No mundo animal a violência acontece sem culpas.
  • Os animais não conseguem mudar a si próprios para tornarem-se, através de sua vontade e consciência, diferentes do que são.
  • O ser humano tem consciência e vontade. Ele pode mudar e, de fato, o faz com o passar do tempo. Ele evolui.
  • Muitas pessoas já ultrapassaram a época da violência. Elas já deram um passo para mais longe dos animais.
  • Todas as pessoas estão também trilhando este caminho, pois não há outra opção, mas nem todas encontram-se no mesmo nível de desenvolvimento.
  • Tentar deter a violência com mais violência não funciona. Até podemos prender um bandido, mas ele continuará sendo bandido.
  • Enquanto a toda a humanidade não avançar, continuarão nascendo novos bandidos.

Ou mudamos o caminho rumo ao crescimento pessoal de todos ou continuaremos vivendo como fugitivos de nossa própria violência. Simples assim.

Referências:

http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2009/10/091019_lula_rioataquesrg_fp.shtml
Em 19/10/2009
http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2009/10/091019_armasbrasil_fp.shtml
Em 19/10/2009

Um adeus ao tio Beto e uma lição de vida.

Postado em amor, família, homenagem, sentimento com as tags , , , em Outubro 4, 2009 por Luciano Pillar

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Hoje, dia 26 de setembro de 2009, faleceu meu tio Beto. Neste exato momento deve estar iniciando seu enterro. Ele, que sempre foi uma pessoa muito intensa, se foi. Mesmo os mais vivos, alegres e brincalhões vão-se para sempre. Digo isso porque assim era meu tio Beto. Enfim, todos vão. Um dia eu irei. Você também morrerá. E todos os que hoje caminham neste mundo. Não demorará para toda a população ser substituída por novas pessoas. E depois, isso acontecerá novamente. E de novo e de novo e assim por diante até o dia em que ela se extinguirá. Não há nada que se possa fazer a respeito. A vida, pelo menos no formato físico tal e qual a conhecemos, terminará para todos.

Mas, antes da inevitável morte, estamos aqui num estado a que chamamos de vida. E estamos juntos. E o que somos nós? Por que sentimos tanto quando uma pessoa próxima parte? Quando penso nisso é o coração que me responde. Nos sentimentos parece residir a resposta sobre nossa natureza. O que percebo é que cada um que convive comigo passa, de alguma maneira, a viver em mim. Acredito que da mesma forma acontece com todos. Vivemos uns nos outros pelos sentimentos que transitam entre nós. Vivemos juntos, amigos. Vivemos unidos compartilhando de uma existência aqui neste mundo e nesta época.

Meu tio Beto não era perfeito. Ninguém é. Mas, sendo quem era, ele me causou uma grande impressão durante toda a minha infância, juventude e além. Para mim, em alguns sentidos,  ele foi um exemplo de vida. Ele era mais alegre e brincalhão do que eu. Muito mais. E era muito afetivo. Nas festas ou debates familiares ele e minha mãe se sobressaiam devido a seus espíritos inflamados e expansivos. Voz forte, usada profissionalmente como radialista e jornalista televisivo, opiniões que eram apresentadas de forma exaltada e o uso divertido e oportuno de palavrões faziam dele uma figura notória. Todas as crianças se encantavam porque este espírito era forte, mas imbuído  de uma natureza simples, direta e verdadeira, como as crianças. Duvido que haja alguém que possa contradizer o que aqui falei.

Tio Beto e minha tia Leonor, minha querida tia Nô, me deram um profundo e valioso exemplo: o do amor matrimonial e familiar. Estes tios foram as pessoas que me mostraram, mais do que ninguém, que um casal pode constituir um matrimônio amoroso por décadas. Através deles vi que é possível duas pessoas se encontrarem e se amarem por uma vida. Pelo que falava o tio, e com o perdão de minha possível indiscrição, era um amor completo. Não estou afirmando aqui que assim era realmente e em todos os momentos, mas apenas que foi isso o que eles me fizeram ver. A meus olhos, eles foram o exemplo maior, quase único, dos eternos namorados e amantes. Eu via neles a alegria por estarem juntos. Certa vez, depois de um já longo casamento, minha tia teve um problema de saúde e meu tio Beto me disse, com lágrimas sinceras em seus olhos: “o que vou fazer, esta mulher é minha vida!”. Ela é minha vida, disse-me. Ele falou tão profundamente que, este momento apenas, e nada mais, já bastou para me dar uma grande lição e ensinamento. Jamais me esquecerei. Este é o poder da verdade. O poder do amor. Esse tipo de coisa é que nos constrói e nos faz humanos. Este tipo de coisa é que nos dá a esperança necessária para prosseguir em nossa evolução, não importando os percalços pelos quais passamos. Obrigado tios.

Sobre a vida do tio Beto há muito mais a falar, mas me deterei apenas no já citado. Minha homenagem ao tio, e tema para consideração aqui, está baseada apenas no exemplo de amor entre um homem e uma mulher que meus tios proporcionaram.

Aproveitando este exemplo, proponho uma breve reflexão sobre o relacionamento amoroso de duas pessoas. Tal tipo de relação deve possibilitar a realização das forças sexuais, afetivas e espirituais. Deve, assim, conduzir à vivência do verdadeiro amor, o que é um maravilhoso e necessário caminho de evolução e complementação para ambos. O que me preocupa, ao ter me deparado com um exemplo vivo de relacionamento amoroso de quase uma vida inteira, é que isso é a exceção e não a regra. Tenho a impressão de que o comum é as pessoas terem uma atração sexual e, no máximo, erótica. A atração sexual é forte e criadora de vida, mas efêmera. A erótica é uma força que proporciona um vislumbre do amor ao apaixonado. Ela permite que nos importemos com o outro até mais do que conosco mesmo, mas ela também termina se não for um caminho para o verdadeiro amor. E, parece-me, muitos ficam por aí. Passam de parceiro em parceiro enquanto dura a atração erótica, mas jamais entregam-se ou buscam conhecer o outro o suficiente para o verdadeiro amor acontecer. O amor manifesta-se como um encontro espiritual e como uma conjunção. Pelo amor o outro assume uma importância até maior do que a da própria pessoa. É necessário conhecer o outro como ele é para amá-lo. Não basta tê-lo como um modelo para resolvermos nossas próprias deficiências. O amor manifesta-se quando duas pessoas maduras e livres conseguem ver uma a outra profundamente. Um homem e uma mulher precisam, pelas suas naturezas, unirem-se com estas três forças para se desenvolverem adequadamente. O ser humano precisa, especialmente no relacionamento matrimonial, de amor e de  proximidade espiritual.

Consideração feita, através do bom exemplo de meus tios, fica um grande ensinamento e a saudade. O tio se foi. Seu corpo morreu e seu espírito mudou de estado, mas seu exemplo permanecerá vivo enquanto todos nós que o conhecemos vivermos. E continuará vivo também depois, quando a energia amorosa que recebemos através dele for passando para mais e mais pessoas. E assim somos nós, seres humanos. Estamos juntos e unidos porque temos em nós a energia cola a que chamamos de amor. Graças a Deus.

Querido e inesquecível tio Beto, vai com Deus. Vai com Deus! Continua tua trajetória. Estaremos sempre contigo, todos nós que te conhecemos e que te amamos.

Francisco Roberto, obrigado por ter conquistado minha tia Leonor e ter se tornado meu tio!