Leila Lopes se matou.
O que sabemos de Leila é sobre sua vida profissional. Neste aspecto, Leila foi uma atriz que fez sucesso através de novelas televisivas na década de 1990, não conseguiu manter esses empregos e o sucesso anterior, pousou para a Playboy e foi para o mercado de filmes pornográficos. Foi pela perda do sucesso que ela deu um fim em sua vida? Não sabemos, mas sobre o suicídio e uma carta que ela deixou antes deste ato podemos nos expressar.
Neste dezembro de 2009 ela resolveu se matar. Segundo foi divulgado, ela deixou uma carta de despedida onde afirmou: “Não chorem, não sofram, eu estou ABSOLUTAMENTE FELIZ! Era tudo o que eu queria: ter paz eterna com meu Deus e, se possível, com minha mãe. Eu não me suicidei, eu parti para junto de Deus… não sou covarde não, fui uma guerreira, mas cansei. É preciso coragem para deixar esta vida… acontece que eu não quero mais morar em lugar nenhum. Eu não quero envelhecer e sofrer… Eu quero paz! Estou cansada, cansada de cabeça! Não aguento mais pensar, pagar contas, resolver problemas… eu decidi que posso parar com isso, ser feliz, porque sei que Deus me perdoará e me aceitará como uma filha bondosa e generosa que sempre fui“.
Não é possível julgar alguém, pois não conhecemos todas as circunstâncias da vida do julgado, todas as emoções e provações de sua vida e, mesmo que tivéssemos toda esta visão, carecemos da suficiente inteligência e maturidade para julgar. Entretanto, podemos expressar algumas considerações sobre a vida dos outros no sentido de ver o que é bom para todos e o que não é.
Em primeiro lugar, Leila teve sucesso e o perdeu depois. Entenda-se por sucesso o ser famoso, ter um status social superior ao da média das pessoas e ganhar um bom dinheiro. Esta definição comum de sucesso, em si, já é um erro. O verdadeiro sucesso implica evoluirmos, melhorando e enfrentando os desafios do crescimento humano. E isso não tem nada a ver com circunstâncias sociais e culturais, como estas descritas. E o julgamento do sucesso não é, como visto, possível de ser feito completamente por nós. Mas, Leila deve ter se deprimido com esta queda do pedestal onde subiu. Ainda sobre o sucesso, considere que o poder que ele aufere à pessoa fascina e vicia. E que a sua perda deprime, geralmente bastante. Mas, isso já acontece entre chimpanzés e bonobos. Seria correto nos comportarmos exatamente como eles sem reagir a isso?
E o suicídio? O que dizer dele? É um direito nosso?
Em primeiro lugar, não se fala em suicídio. Não se divulga. Esse assunto é tão sério que, mesmo no nosso mercado jornalístico, que nos mostra todo tipo de barbaridades e atrocidades sem o menor constrangimento, inclusive ressaltando mais as coisas erradas do que as corretas, o suicídio não é permitido. Dizem que é para não incentivá-lo naqueles potenciais suicidas. Mentira. Se assim fosse, não mostrariam também cenas de crimes impunes. A razão é muito mais profunda, mas nunca discutida a sério.
Temos o direito de tirar nossas próprias vidas? Eu perguntaria, antes, se nossa vida é nossa propriedade. Ora, nossa vida é algo muito superior a nossa capacidade de criação. Ela é uma dádiva que nos foi dada por algo inimaginavelmente superior a nós. Ela tem propósitos acima de nossa capacidade de julgamento ou opinião. Ela somos nós. E nós estamos aqui para quê? Para quê realmente vivemos? Tivemos o direito de decidir entre existir ou não? E de decidir nosso sexo e o formato de nosso corpo? E onde nascemos? Não decidimos sobre nada disso e não somos donos da vida de ninguém e de nenhum ser. Inclusive da nossa. Não temos a nossa vida, nós somos ela.
Uma vez vivos, nós temos opções. Estas dizem respeito as nossas ações, a direção que damos à vida, com quem convivemos, no que trabalhamos, etc. As opções principais, entretanto, têm a ver com nossas verdadeiras atitudes e sentimentos na vivência de todas as situações, boas ou ruins, pelas quais passamos. Estas atitudes, que podem ser melhoradas pela vontade nos pontos que descobrimos serem importantes, através do estudo e do exemplo das pessoas certas, é que vão sendo gravadas em nós como acréscimo de maturidade e evolução no caminho do que vem depois de nós. E essa gravação, usando este modelo como analogia, são feitas em uma essência de nós que não nos pertence. Eu diria, e muitas filosofias e crenças, assim como muitos de nós o sabem de alguma forma, que essa essência de vida e consciência é divina. E isso nos pertence?
Não posso julgar, mas me parece que quando Leila afirmou que estava “ABSOLUTAMENTE FELIZ”, fica um pouco estranho, pois, pessoas felizes não sentem a menor vontade de se matar. Seguindo, a respeito das afirmações pré-suicídio dela, eu diria:
- “ É preciso coragem para deixar esta vida”
- É preciso ter coragem para fazer nosso dever, que é viver esta vida e aprender.
- “Eu não quero envelhecer e sofrer”
- Essa é uma opção que não está disponível para nós. Existe o sofrimento e nós o enfrentamos e aprendemos com ele. A consciência da direção correta da vida e a vivência disso não é sofrimento. As circunstâncias podem ser sofríveis, mas a vida e nós somos muito mais amplos do que elas. O puro apego ao mundo e as regras de nossa parte animal, como o sucesso em relação aos outros que não o possuem (vaidade) gera sofrimento, pois não está na direção correta dos verdadeiros propósitos da vida.
- “eu decidi que posso parar com isso, ser feliz, porque sei que Deus me perdoará“.
- Essa decisão não está disponível. Provavelmente há um custo alto para ela. Muito possivelmente superior aos possíveis “problemas” dos quais o suicida quer fugir. Mas, isso são suposições. Serão mesmo?
- Leila fala muito em Deus. Por quê? O que ela entende por Deus? O que será que ela, que tanto falou nele nesta carta, entendia sobre o propósito dele para com ela e do presente maior que ele teria lhe dado, a própria vida dela?
- “Obrigado Jesus, Nossa Senhora e meu Deus, perdoem-me e recebem-me como a filha honesta e bondosa que sempre procurei ser!”
- Leila refere-se ao Deus cristão, que enviou seu espírito (Cristo) em um homem e deu a ele uma missão certamente mais sofrível que a dela. Se esse Deus não o livrou de uma morte dolorosa, como poderia ela supor que Ele iria simplesmente perdoá-la? Perdoar por que ela não suportou ter sucesso? Mas, sim, é provável que Ele a perdoe, pois o perdão é algo descrito na bíblia cristã. Mas será que Ele a livrará da lição da qual ela fugiu nesta vida? E sem nenhuma consequência? O homem que encarnou Cristo, chamado Jesus, certamente sabia e via muito mais do que os seus conterrâneos, cegos e ignorantes se comparados a ele. Certamente isso lhe deu uma vida de solidão e sofrimento. Teria sido a vida de Leila uma provação maior? Obviamente sua provação seria menor, pois Deus não teria lhe exigido algo do nível possível ao exigido de Jesus. Mas, cada um com sua cruz. Cada um a carrega até onde aguentar. E a morte virá, mas não pela desistência e nem pela mão do próprio ser que de Deus ganhou a vida. Nem Jesus teve esse direito.
Não se fala em suicídio, mas vivemos num mundo onde ele existe em grande quantidade. Por quê? Responder a esta questão leva a um livro, mas sua essência é simples. Muitos suicídios em uma sociedade mostram o fracasso desta. As sociedades servem para criar um ambiente onde podemos sobreviver e progredir, pois elas são um agrupamento de muitos para o fortalecimento de todos. Mas, se há muitos suicídios, é por que não deu certo. E, pessoalmente falando, o suicídio acontece por que a pessoa fica cega e ignorante do verdadeiro propósito da vida. Nesta situação, apega-se aos detalhes e desilude-se. Vaidosos com o corpo e sua posição social, muitos passam a ver nisso a função da vida. Porém, como a verdadeira função está gravada no interior de seu ser, na parte divina da qual não podem fugir, entram em conflito. E existem, ainda, as razões físicas. Doenças mentais que tentamos entender, com nossa ciência cartesiana, como meras desequilíbrios orgânicos e químicos que levam a profundas depressões e ao consequente suicídio. Mas, os desequilíbrios químicos podem ter outra origem não física. E as sofridas vivências proporcionadas por eles podem ter um propósito além de nossa percepção. Esse assunto vai longe, muito mais do que um texto de um blog.
Como despedida, um pouco mais de sucesso para ela numa sequência cronológica de fotos. O olhar dela, com o passar do tempo, indica que esteve indo em direção ao Deus que, no fim, quis encontrar tão rapidamente?





