A violência: sua natureza e seu antídoto

Postado em filosofia, sociedade com as tags , , , , em Outubro 25, 2009 por Luciano Pillar

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A humanidade é criadora e vítima da violência. A questão é: estamos interessados em acabar com este tipo de manifestação? Se fizermos esta pergunta às pessoas, observaremos que a grande maioria declararia que sim. Apesar disso, vivemos num mundo furioso. Esta diferença entre as declarações da maioria e os fatos suscita algumas questões a pensar.

Para começar, cabe identificarmos as responsabilidades. De quem é a culpa de tanta violência? A primeira e interessante constatação é de que ninguém se julga culpado. Até mesmo os violentos alegam que, se fizeram algum ato desta natureza, foi por alguma razão externa que o justifica. O senso comum atribui a culpa da violência aos bandidos, especialmente os assaltantes e os traficantes.

Mas a realidade está longe de ser tão simples. Vamos estendê-la um pouco. O que podemos dizer dos fabricantes e traficantes lícitos da droga álcool? Consta nas notícias divulgadas que muita violência aconteceu por pessoas estarem embriagadas. E dos governantes que criam e comandam as guerras? E dos fabricantes de armas? Jorge Py Velloso, vice-presidente da Taurus, maior fabricante brasileira de armas, declarou o seguinte em notícia divulgada pela BBC (endereço indicado no fim deste texto): “As exportações da Taurus para os Estados Unidos devem crescer 35% este ano”. Para ele a violência é um negócio e, sem ela, teria que mudar de ramo. Da mesma forma terminaria o ganha pão dos policiais, das forças armadas, dos negócios que existem em torno da segurança, da indústria de dispositivos para segurança, de muitos fabricantes de jogos violentos (a maioria?), de grande parte da indústria cinematográfica e televisiva e de uma infinidade de outros serviços que só existem em função da segurança contra a violência. Uma grande quantidade de pessoas dedica o tempo de suas vidas em torno das consequências da violência. Nossa sociedade seria algo inimaginável, mesmo para um brilhante e criativo escritor de ficção, se não houvesse violência. É tão difícil conceber isso que acho que jamais foi feito de maneira satisfatória. Os próprios países estão no negócio, de corpo e alma. Veja só esta notícia divulgada na BBC: “o Brasil está entre os três maiores fornecedores de pistolas e revólveres para os Estados Unidos, com 25% daquele mercado. Os outros dois são Áustria e Alemanha”. Mais uma: “Apesar da crise financeira internacional, as exportações de armas leves fabricadas no Brasil cresceram 39% no acumulado de janeiro a setembro em relação ao mesmo período do ano passado. De acordo com dados da Secretaria de Comércio Exterior, do Ministério do Desenvolvimento, o Brasil vendeu o equivalente a US$ 236,8 milhões nos primeiros nove meses do ano. No mesmo período, as exportações brasileiras em geral caíram 26%.”. Será assim que vamos criar um mundo mais seguro?

Os negócios com a violência são mais uma garantia de sua continuidade. Não a maior. Nem perto da maior. Todos os negócios do mundo – eu disse todos, de todos os países – são coisa pequena perto da verdadeira razão da violência. Estes negócios são meras consequências da prévia existência da violência. Todos os negócios do mundo não passam de trilhões de dólares, pois os medimos em dinheiro, e essa quantia monetária é pequena, efêmera e pouco poderosa perto da razão da violência, que abordaremos no decorrer do texto. Por agora, para adiantar, pense nisso: “Crianças não brincam com armas e adultos não fabricam armas”.

Cabe pensar se nós iremos, um dia, viver num mundo pacífico. Caso afirmativo, como conseguiremos isso? Antes de tentar elucidar melhor estas questões, vamos observar um exemplo prático ocorrido no Brasil recentemente. Nada melhor do que os fatos.

Uma forte manifestação de violência aconteceu no Rio de Janeiro no dia 17 de outubro,sábado, que deixou cerca de 20 mortos. Alguns ônibus foram incendiados e até um helicóptero da polícia foi derrubado. Os ataques foram atribuídos aos traficantes na zona norte do Rio. Para resolver este problema, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez as seguintes afirmações, conforme divulgado pela mídia:

  • É preciso perseguir e encontrar quem praticou esse ato de violência;
  • Tudo que o governador (do Rio de Janeiro) precisar. Estaremos dispostos a fazer todo o sacrifício que for necessário para ver se a gente limpa a sujeira que essa gente impõe ao Brasil no mundo;
  • A cada dia temos a sensação de que é uma causa perdida, mas não vamos desanimar.

Afirmações óbvias para quem se diz contrário à violência e pretende agradar ao povo. Óbvio também é que elas são destituídas de qualquer capacidade de resolução prática do problema da violência e, provavelmente, nem sejam acompanhadas de sincera intenção. Mas parece que nosso bom presidente resolveu também prometer agir além de falar, pois foi divulgado pela mídia que o governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral Filho, disse ter recebido a promessa de um investimento de R$ 100 milhões para a área de segurança pública, que serão desembolsados pelo governo federal. O que todos sabemos é que o desembolso do governo resulta, de fato, em desembolso do povo. E todos sabemos também que esta violência que nosso dinheiro tentará estancar não vai acabar. Isso já aconteceu antes, tanto a causa como o remédio e o resultado. Mas, para alegria de muitos que trabalham no setor da segurança, nosso dinheiro será transferido para seus bolsos.

O presidente Lula poderia, se quisesse e pudesse, aplicar as mesmas palavras ao seu próprio governo. Exatamente as mesmas. Pelo que consta no que tem sido publicamente divulgado há anos por todos os meios de comunicação, o governo está repleto de bandidos que agem impunemente sem o menor constrangimento. Este fato é grave, pois eles roubam o dinheiro de todos nós que pagamos para termos o país administrado e termos a nossa disposição os serviços necessários, incluindo a educação, a saúde e a segurança. Ficamos sem os serviços com a necessária qualidade e ainda somos humilhados pelos bandidos que desfrutam de nosso suado dinheiro, montam um bom patrimônio pessoal e ainda aparecem constantemente impunes na mídia. Uma consequência desta bandidagem é a revolta e a descrença que nasce na população. E, mais grave ainda, isso deseduca pelo exemplo. Os bandidos de colarinho ensinam assim, com seus fartos exemplos, que o crime compensa. Muita violência que vemos por aí resulta do aprendizado e dos valores obtidos através do próprio governo e do mercado, que ensina sobre a obtenção de valor pessoal através das posses e da fama.

E então presidente Lula, o senhor vai “fazer todo o sacrifício que for necessário para ver se a gente limpa a sujeira que essa gente impõe ao Brasil”? O senhor vai “perseguir e encontrar quem praticou esse ato de violência”? E puní-los? E dar o bom exemplo? Todos sabemos que não, pois isso não foi feito nem mesmo dentro de casa.

Até aqui falamos sobre as manifestações da violência e não sobre sua essência. O que é a violência? De onde ela vem?

Pensemos. Os animais predadores transformam-se em assassinos para se alimentarem. Essa é a sua natureza que também vive em nós. Muitos animais também ficam agressivos, e até matam, devido a luta pelo poder em seus bandos. Os chimpanzés chegam a mentir. Sendo assim, quando somos violentos não somos melhores do que os animais. Curioso, não?

Mas os animais são o que são. Seu comportamento pouco ou nada muda com o passar do tempo. Tão pouco parece ser muito grande sua consciência sobre si mesmos e sobre o mundo em que vivem. Mas nós, diferentemente deles, temos uma consciência e uma capacidade de criação de novos comportamentos. Tal capacidade nos leva a mudarmos e evoluirmos com o tempo. É inevitável e não temos opção. Somos conscientes, inteligentes e não podemos fugir disso. Assim, no que se refere à violência, ao contrário dos animais não a usamos apenas para a caça, como qualquer carnívoro, ou para disputas pelo poder, como alguns deles. Nossa superioridade mental também nos permitiu experimentar a perversidade e a incrementar a crueldade. Por outro lado, nossa consciência nos fez ver mais além e almejar uma situação diferente.

Olhe a seu redor. Use de suas lembranças. Pense. Você conhece gente pacífica? Conhece pessoas que jamais fariam o mal a outros, muito menos atos violentos? Conhece gente boa que, deliberadamente, e muitas vezes com sacrifícios em suas próprias vidas, ajudam a muitos e por várias pessoas são muito queridas? Pois é, existem muitas pessoas boas que vivem distantes de atos violentos maiores. E existem muitas pessoas que não vivem mais pela vaidade e pela busca incessante de poder.

O que temos aqui então? Pessoas mais dependentes de comportamentos presentes nos animais e outras mais distantes disso. E qual seria a diferença entre os animais e nós? A evolução.

Observemos um pouco mais. Olhe a natureza. Olhe fotos do universo. Veja a organização das galáxias, a estrutura ordenada dos seres vivos a seu redor e a incrível organização de nossa anatomia. O universo não é um caos. A energia e a matéria que nele existem não ficaram desordenadas resultando numa confusão, mas, muito pelo contrário, ordenaram-se de forma muito além da compreensão e capacidades humana. Nós mesmos somos fruto de tal organização. Nosso corpo é uma criação acima do que poderíamos supor. O que dizer, então, de nosso cérebro. A conclusão óbvia é que o universo é dinâmico e tende a se organizar. Não só tende, mas, de fato, organiza-se. Ele segue leis. Periodicamente existem choques, explosões, reformulações da energia e matéria, mas sempre surgindo daí, como consequência, uma nova estrutura organizada e mais complexa. Da molécula do hidrogênio chegamos às macro-moléculas, às proteínas, ao DNA e à vida. A vida física organiza-se até formar o cérebro humano e este transcende, pela mente, o físico. Tudo isso não é crença religiosa ou mística. É simplesmente uma observação de fatos visíveis por todos nós.

Ora, nossa natureza é a mesma do universo, pois fazemos parte dele. Estamos nele. Somos um produto dele e fomos criados segundo suas leis. Nossa natureza é única e não temos opção alguma de ir contra ela, pois não existe o contra. O mundo não é realmente dual, mas único. E, nesse caminho evolutivo, adquirimos consciência. E ela segue, como tudo, evoluindo e aperfeiçoando-se. E esta consciência é que nos faz sentir mal com a violência. Um animal não sente o mal ou culpa ao matar. Ele mata e come sua vítima. E fim. Mas nós, que estamos um passo adiante na evolução e somos dotados de consciência, não somos assim. Ora, o que nos mostra esta nossa percepção quanto à violência? Responda você mesmo. Pense. Observe. Sinta. Ouça seus sentimentos e verá a resposta. A violência está na contramão da evolução!

Então, se é assim, como combater a violência? Com as afirmações do presidente Lula, de usar de dinheiro para comprar armas, contratar e treinar mais policiais? Nos negócios multibilionários de produção e comercialização de armas? Se alguém é violento, eu ataco a violência agredindo-o e, quem sabe, matando-o? Se eu o agredir eu atacarei a ele e não a violência. Pelo contrário, nesta situação, eu mesmo me transformei em mais um habitáculo para a violência e tornei-me mais um a perpetuá-la. Tornei-me mais um a me afastar (temporariamente) do único rumo evolutivo do universo. Não me afastarei eternamente, pois não há esta opção num caminho único, mas sofrerei muito até ter que aprender e adquirir a consciência necessária para voltar atrás. Só isso. Então, amigos, violência não pode ser combatida com violência. Isso é um contra-senso total. Só podemos pará-la não a praticando. É como disse Jesus e Gandhi.

E no nosso mundo real, o que faremos? E na prática, quais as ações possíveis? Para começar, o que falei É o mundo real. A violência não pode ser atacada diretamente, pois ela é apenas um subproduto da falta de consciência. O que temos que combater é o atraso evolutivo e a ignorância. Se as pessoas evoluírem e amadurecerem, então, naturalmente, a violência cederá. Se as pessoas evoluírem então, um dia, nossos governantes também serão mais evoluídos. Se estamos falando em aumento de consciência, em crescimento e em evolução, é de educação que realmente estamos falando. Logo, para acabar com a violência, precisamos nos educar, no sentido mais completo e humano desta ação e não apenas na aquisição de conhecimento intelectual. A educação envolve não só o aspecto mental e intelectual, mas também o emocional e o espiritual. Precisamos entender e aceitar como é o ser humano e agir de acordo. Entre nossas características está nossa necessidade uns dos outros, de proximidade afetiva e de amor. E as pessoas precisam de exemplos corretos, especialmente as crianças. E, por falar nisso, que exemplos a população tem? E quem os dá a ela?

A população tem recebido muitos exemplos do mercado econômico e do governo que a confunde e a estanca em seu crescimento. O governo brasileiro tem mostrado fartamente ao povo que roubar e ser desonesto é algo aceitável e não punível. O mundo do mercado em que vivemos, onde até a educação e a saúde são tratadas como commodities, usa de uma massacrante mídia comercial que, para vender produtos, cria nas pessoas absurdas ilusões sobre ser alguém importante ou feliz se tiver este ou aquele produto. E esta mídia usa de situações onde a violência também é um elemento que incentiva as vendas ou ela própria é vendida. Neste mercado encontramos até a fé mística como produto, pois abundam entre nós igrejas que, em nome de alguma divindade, são apenas mecanismos de extração de dinheiro das pessoas.

Tudo leva à educação. Educação e exemplos corretos. Para crescer e evoluir há que se educar. E entenda-se que a violência acaba com este crescimento pessoal que nos afasta do mundo animal. Atualmente existem muitas pessoas grandes o suficiente para não precisarem mais da violência, mas, a humanidade como um todo, ainda não atingiu este estágio. Nos países mais desenvolvidos ainda há leis e punição para inibir a violência. Leis que são cumpridas. Esse é um passo intermediário necessário enquanto evoluímos. É como tratamos uma criança em desenvolvimento, proibindo-a de fazer certas coisas até que ela atinja a maturidade suficiente para ser liberada. Enquanto isso: educação, educação e educação.

Por que não investimos seriamente em educação no Brasil? Por que as escolas particulares ficaram tão caras e transformaram-se, antes de mais nada, em negócios com propagandas até nos ônibus que circulam nas cidades? Por que o ensino público, bem pago pelo cidadão em forma de impostos, transformou-se no que estamos vendo? Quem inventou estas regras? Quem se beneficia com elas? Quem ganha com a ignorância e a miséria do povo? Qual o perfil psicológico dos governantes e onde podemos ver os resultados de suas avaliações? Por que um professor, profissional da maior necessidade em qualquer sociedade, ganha tão pouca remuneração financeira enquanto um juiz o suficiente para enriquecer e muitos jogadores de futebol uma indecente fábula?

Não há dúvida de que se quisermos resolver o problema da violência precisamos nos aprofundar mais em entender qual sua natureza e por onde a atacarmos. Suas raízes são mais profundas do que sugere nosso presidente.

Façamos um resumo:

  • A diminuição da violência acontece com a evolução e o desenvolvimento dos indivíduos.
  • A evolução surge com a correta educação e sua prática na vida.
  • A educação depende de corretos exemplos, estudo, amor, vivências e tempo.

E relembremos alguns conceitos:

  • Quanto menos evoluída for uma pessoa, mais próxima ela estará do mundo animal.
  • No mundo animal a violência acontece sem culpas.
  • Os animais não conseguem mudar a si próprios para tornarem-se, através de sua vontade e consciência, diferentes do que são.
  • O ser humano tem consciência e vontade. Ele pode mudar e, de fato, o faz com o passar do tempo. Ele evolui.
  • Muitas pessoas já ultrapassaram a época da violência. Elas já deram um passo para mais longe dos animais.
  • Todas as pessoas estão também trilhando este caminho, pois não há outra opção, mas nem todas encontram-se no mesmo nível de desenvolvimento.
  • Tentar deter a violência com mais violência não funciona. Até podemos prender um bandido, mas ele continuará sendo bandido.
  • Enquanto a toda a humanidade não avançar, continuarão nascendo novos bandidos.

Ou mudamos o caminho rumo ao crescimento pessoal de todos ou continuaremos vivendo como fugitivos de nossa própria violência. Simples assim.

Referências:

http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2009/10/091019_lula_rioataquesrg_fp.shtml
Em 19/10/2009
http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2009/10/091019_armasbrasil_fp.shtml
Em 19/10/2009

Um adeus ao tio Beto e uma lição de vida.

Postado em amor, família, homenagem, sentimento com as tags , , , em Outubro 4, 2009 por Luciano Pillar

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Hoje, dia 26 de setembro de 2009, faleceu meu tio Beto. Neste exato momento deve estar iniciando seu enterro. Ele, que sempre foi uma pessoa muito intensa, se foi. Mesmo os mais vivos, alegres e brincalhões vão-se para sempre. Digo isso porque assim era meu tio Beto. Enfim, todos vão. Um dia eu irei. Você também morrerá. E todos os que hoje caminham neste mundo. Não demorará para toda a população ser substituída por novas pessoas. E depois, isso acontecerá novamente. E de novo e de novo e assim por diante até o dia em que ela se extinguirá. Não há nada que se possa fazer a respeito. A vida, pelo menos no formato físico tal e qual a conhecemos, terminará para todos.

Mas, antes da inevitável morte, estamos aqui num estado a que chamamos de vida. E estamos juntos. E o que somos nós? Por que sentimos tanto quando uma pessoa próxima parte? Quando penso nisso é o coração que me responde. Nos sentimentos parece residir a resposta sobre nossa natureza. O que percebo é que cada um que convive comigo passa, de alguma maneira, a viver em mim. Acredito que da mesma forma acontece com todos. Vivemos uns nos outros pelos sentimentos que transitam entre nós. Vivemos juntos, amigos. Vivemos unidos compartilhando de uma existência aqui neste mundo e nesta época.

Meu tio Beto não era perfeito. Ninguém é. Mas, sendo quem era, ele me causou uma grande impressão durante toda a minha infância, juventude e além. Para mim, em alguns sentidos,  ele foi um exemplo de vida. Ele era mais alegre e brincalhão do que eu. Muito mais. E era muito afetivo. Nas festas ou debates familiares ele e minha mãe se sobressaiam devido a seus espíritos inflamados e expansivos. Voz forte, usada profissionalmente como radialista e jornalista televisivo, opiniões que eram apresentadas de forma exaltada e o uso divertido e oportuno de palavrões faziam dele uma figura notória. Todas as crianças se encantavam porque este espírito era forte, mas imbuído  de uma natureza simples, direta e verdadeira, como as crianças. Duvido que haja alguém que possa contradizer o que aqui falei.

Tio Beto e minha tia Leonor, minha querida tia Nô, me deram um profundo e valioso exemplo: o do amor matrimonial e familiar. Estes tios foram as pessoas que me mostraram, mais do que ninguém, que um casal pode constituir um matrimônio amoroso por décadas. Através deles vi que é possível duas pessoas se encontrarem e se amarem por uma vida. Pelo que falava o tio, e com o perdão de minha possível indiscrição, era um amor completo. Não estou afirmando aqui que assim era realmente e em todos os momentos, mas apenas que foi isso o que eles me fizeram ver. A meus olhos, eles foram o exemplo maior, quase único, dos eternos namorados e amantes. Eu via neles a alegria por estarem juntos. Certa vez, depois de um já longo casamento, minha tia teve um problema de saúde e meu tio Beto me disse, com lágrimas sinceras em seus olhos: “o que vou fazer, esta mulher é minha vida!”. Ela é minha vida, disse-me. Ele falou tão profundamente que, este momento apenas, e nada mais, já bastou para me dar uma grande lição e ensinamento. Jamais me esquecerei. Este é o poder da verdade. O poder do amor. Esse tipo de coisa é que nos constrói e nos faz humanos. Este tipo de coisa é que nos dá a esperança necessária para prosseguir em nossa evolução, não importando os percalços pelos quais passamos. Obrigado tios.

Sobre a vida do tio Beto há muito mais a falar, mas me deterei apenas no já citado. Minha homenagem ao tio, e tema para consideração aqui, está baseada apenas no exemplo de amor entre um homem e uma mulher que meus tios proporcionaram.

Aproveitando este exemplo, proponho uma breve reflexão sobre o relacionamento amoroso de duas pessoas. Tal tipo de relação deve possibilitar a realização das forças sexuais, afetivas e espirituais. Deve, assim, conduzir à vivência do verdadeiro amor, o que é um maravilhoso e necessário caminho de evolução e complementação para ambos. O que me preocupa, ao ter me deparado com um exemplo vivo de relacionamento amoroso de quase uma vida inteira, é que isso é a exceção e não a regra. Tenho a impressão de que o comum é as pessoas terem uma atração sexual e, no máximo, erótica. A atração sexual é forte e criadora de vida, mas efêmera. A erótica é uma força que proporciona um vislumbre do amor ao apaixonado. Ela permite que nos importemos com o outro até mais do que conosco mesmo, mas ela também termina se não for um caminho para o verdadeiro amor. E, parece-me, muitos ficam por aí. Passam de parceiro em parceiro enquanto dura a atração erótica, mas jamais entregam-se ou buscam conhecer o outro o suficiente para o verdadeiro amor acontecer. O amor manifesta-se como um encontro espiritual e como uma conjunção. Pelo amor o outro assume uma importância até maior do que a da própria pessoa. É necessário conhecer o outro como ele é para amá-lo. Não basta tê-lo como um modelo para resolvermos nossas próprias deficiências. O amor manifesta-se quando duas pessoas maduras e livres conseguem ver uma a outra profundamente. Um homem e uma mulher precisam, pelas suas naturezas, unirem-se com estas três forças para se desenvolverem adequadamente. O ser humano precisa, especialmente no relacionamento matrimonial, de amor e de  proximidade espiritual.

Consideração feita, através do bom exemplo de meus tios, fica um grande ensinamento e a saudade. O tio se foi. Seu corpo morreu e seu espírito mudou de estado, mas seu exemplo permanecerá vivo enquanto todos nós que o conhecemos vivermos. E continuará vivo também depois, quando a energia amorosa que recebemos através dele for passando para mais e mais pessoas. E assim somos nós, seres humanos. Estamos juntos e unidos porque temos em nós a energia cola a que chamamos de amor. Graças a Deus.

Querido e inesquecível tio Beto, vai com Deus. Vai com Deus! Continua tua trajetória. Estaremos sempre contigo, todos nós que te conhecemos e que te amamos.

Francisco Roberto, obrigado por ter conquistado minha tia Leonor e ter se tornado meu tio!

Roy Buchanan

Postado em artes, blues, drogas, espiritualidade, iluminação com as tags , , , , , em Setembro 23, 2009 por Luciano Pillar

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Hoje é o 70º aniversário de Roy Buchanan, talentoso músico norte-americano. Roy nasceu no dia 23 de setembro de 1939 e faleceu em 14 de agosto de 1988.  Roy compôs música e tocou guitarra elétrica tendo, inclusive, definido um estilo próprio que foi seguido por vários outros guitarristas.

Para ilustrar o texto que segue, aqui está uma pequena amostra de trechos de músicas do Roy da década de 70.

Download (MP3 128k, 9.26 MB, 10:06 min.): clique aqui

Roy Buchanan 2Poucas palavras sobre um grande músico. Existem muitas pessoas que tocam música. Muitas que tocam muito bem e estudaram bastante para isso. Até mesmo virtuoses encontramos vários. Mas aqueles músicos que inventam, criam ou simplesmente enxergam a música que toca nos corações das pessoas e que, depois, serão executadas por uma legião de instrumentistas, já são mais raros. Existe um Beethoven, um Pixinguinha, os Beatles e outros artistas com esse algo mais. E vários instrumentistas que tocarão o que eles compuseram. Roy estava no primeiro grupo, apesar de jamais ter ficado famoso entre aqueles que não são músicos. De onde vem esta visão artística?

Um amigo, estudante sobre a espiritualidade e ele próprio já com alguma evolução na área, disse-me que a arte eleva o ser humano e que o leva a transcender suas próprias capacidades. A música, como arte, leva o músico que a percebe a aproximar-se de algo além humano e de Deus. Mas o músico jamais poderá chegar lá, pois está preso no humano. Assim, seu dom é também um grande sofrimento.

Roy Buchanan 3Leroy Buchanan foi uma pessoa capaz de expressar muito sentimento através de seus improvisos na guitarra. Ele tocava blues e derivados e era bastante emotivo e, não raro, ia ao descontrole em suas execuções. Ele era exagerado. Muito amor, muita tristeza ou muita raiva era o que saía da sua guitarra. E sempre tocando com maestria. Já o vi tentar um improviso que começou não dando certo, o que lhe provocou muita fúria e, através dela, na marra, ele acabou tocando o que queria, ou o que saiu no momento. E ficou fantástico.

Para finalizar, Roy era o contrário de uma legião de pretendentes a fama que vemos por aí. E de muitos já famosos. Vejo muitos que, por vaidade e na ânsia de serem diferentes, de serem considerados “loucos” e únicos, fantasiam-se das mais variadas formas e tentam-se comportar como indivíduos diferentes da média. Suas composições, quando existem, tendem a ser medíocres e sem significado. Roy tentava ser normal. Vestia-se sempre como um senhor de respeito, inclusive em seus shows, para ser tido como uma pessoa comum. Mas, ao contrário dos anteriores, seu gênio musical não conseguia se esconder. Nem sua “loucura”. Não havia opção para ele.

Roy teve uma vida particular não badalada pelos meios de divulgação de massa. Parece que ele foi uma pessoa que teve dificuldades emocionais e vários problemas com álcool e drogas. E foram estes problemas que o levaram a ser detido pela polícia e assim, na cadeia, morreu no dia 14 de agosto de 1988. Até hoje há controvérsias sobre o que aconteceu. Dizem que foi suicídio.

Não vamos nos deter em sua biografia. Em caso de curiosidade, algumas estão disponíveis na Internet e seus endereços estão aqui no final deste artigo.

Meus mais profundos e sinceros respeitos à Roy Buchanan, que tanta arte nos mostrou e a tantos fez sentir a grandiosidade das emoções que nos fazem humanos. É isso o que fazem aqueles que possuem alguma iluminação e, não raro, pagam seu preço. Vai com Deus Roy!

Aqui estão dois presentinhos a todos, direto do YouTube.

The Messiah Will Come Again.

Hey Joe,  de Jimi Hendrix.

Biografias:

Os álbuns e as músicas no podcast MP3:

  • 1971 – Buch And The Snake Stretchers
    • Since You’ve Been Gone
    • The Messiah Will Come Again
  • 1973 – Second Album
    • After Hours
  • 1973 – That’s What I Am Here For
    • Rodney’s Song
  • 1975 – Live Stock
    • I’m A Ram
  • 1976 – A street called straight
    • Keep what you got
    • My friend Jeff
  • 1977 – Loading Zone
    • Done Your Daddy Dirty
  • 1978 – You’re Not Alone
    • Fly…Night Bird

Cães, ração e crenças

Postado em comportamento, ecologia, filosofia, , sociedade, zoologia com as tags , em Setembro 12, 2009 por Luciano Pillar

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O cão é um animal carnívoro. Isso não é uma opinião e nem algo que possa ser discutido. É simplesmente uma verdade contra a qual não temos poder algum. E mesmo entre as raças geneticamente modificadas, a presença dos dentes caninos, próprios dos animais carnívoros, permaneceu. Apesar disso, insistimos que a alimentação dos cães domésticos deve ser baseada em ração.

Mas, e daí? Com tanta coisa importante acontecendo no mundo, por que deveríamos nos preocupar com isso? Por dois motivos: um dos cães e um nosso. E o nosso está relacionado a todos os desnecessários problemas que criamos para nós mesmos.

O problema dos cães, e de qualquer animal de estimação carnívoro, é que, apesar de a ração supostamente lhes fornecer todos os nutrientes necessários, ela não passa de um biscoito que nada tem a ver com carne crua e ossos, sua necessidade natural. Com o tempo, essa alimentação cria uma série de problemas de saúde ao animal e, consequentemente, às finanças de seu dono.

O nosso problema é que nós passamos a acreditar que a ração é o alimento natural destes animais. Em outras palavras, passamos a crer em algo que é falso. Como nossa capacidade de crer é muito poderosa – e define diretamente os valores de nossas vidas -  sofremos  toda sorte de consequências negativas ao acreditar no falso. Isso é seríssimo e é uma das origens dos problemas que criamos. Infelizmente, pouca ou nenhuma consciência o cidadão comum tem disso e, para piorar, um forte sistema publicitário e doutrinário lhe é imposto para tirar proveito de sua falta de discernimento entre o real e o ilusório.

A crença e a imaginação, que andam de mãos dadas, são uma capacidade nossa possivelmente associada à consciência e à inteligência. Elas nos distinguem dos outros animais, são utilíssimas e grandes responsáveis pela nossa sobrevivência. Sem elas não teríamos construído uma civilização. Mas, elas são uma faca de dois gumes e nós podemos ser induzidos a acreditar em coisas que nos são prejudiciais. A moldagem das crenças é simples, pois elas são alimentadas por informações externas e por repetições dos padrões impostos pelo grupo social em que se vive.

Através da fé podemos assumir como verdadeiros os maiores absurdos. Vamos exemplificar sucintamente, pois esta lista é demasiadamente grande até para uma enciclopédia.

  • Assim como cremos que os carnívoros devem comer ração, também achamos que refrigerantes, frituras, açúcar refinado e tantos outros alimentos artificiais fazem parte da dieta humana.
  • Muitos crêem que o sucesso medido em riquezas materiais e status social é o objetivo de suas vidas.
  • Cremos que as pessoas são exemplos e  modelos a serem seguidos só por serem famosas.
  • Cremos que pessoas com poder social, político ou econômico podem fazer qualquer coisa e isso está certo ou não se pode fazer nada a respeito.
  • Cremos que as regras sociais devem ser diferentes para pessoas de distintas classes sociais.
  • Cremos que podemos comprar trabalho com dinheiro, como se o valor dele pudesse ser mensurado financeiramente. Isto requer uma explicação, pois tal falsidade está tão arraigada na sociedade que a visão da realidade já é praticamente impossível. O trabalho vale pelas úteis realizações que dele resultam, pela satisfação e amadurecimento pessoal e por unir as pessoas em torno de um propósito comum. Mas, todos passaram a valorizá-lo através de uma abstrata mensuração financeira. E ninguém mais se dá conta ou pensa no assunto. Assim é a fé cega. Uma consequência desta crença é que muitos trabalham pelo dinheiro, ou até só por ele,  trocando suas preferências profissionais pessoais por profissões ou negócios mais rentáveis. Outra é que deixa-se de produzir o que não puder ser traduzido num negócio rentável. Outra é que passamos a comparar diferentes trabalhos e a fazê-lo de uma forma que beira a total estupidez. Como exemplo disso, consideramos normal que um juiz ganhe muitíssimo mais dinheiro, benefícios sociais e prestígio do que um educador de crianças. Cremos que o trabalho de um lixeiro é indigno e nada importante. Aceitamos a velha escravidão como uma maneira correta para nos organizarmos e distribuirmos a construção e o usufruto das coisas disfarçando-a através da pobreza financeira, das castas sociais e em outros formatos.
  • Cremos em religiões que possuem “a verdade”. Os cristãos acreditam que Jesus era filho de Deus. Os judeus acham isso um absurdo, pois como pode ser que o Deus único que não temos o direito e a capacidade de ver e cujo nome sequer podemos pronunciar possa ter um filho humano que veio viver entre nós? Blasfêmia. E ambas religiões possuem uma legião de seguidores que conhecem “a verdade” e, para isso, devem supor que os outros mentem. Algumas igrejas cristãs possuem um poderio político e econômico no mundo dos homens que nada tem a ver com o Jesus descrito nos evangelhos. Elas não obedecem ao próprio livro que dizem ser a base de sua doutrina no que se refere ao “dai a Cézar o que é de Cézar e a Deus o que é de Deus”. E existem tantas outras religiões. E tantas que já sucumbiram. Onde estão os adoradores de Júpiter? E aqueles que sacrificaram crianças para os deuses Incas?
  • Cremos que não existem leis do universo as quais estamos submetidos.
  • Cremos que somos livres. Não nos damos conta de que qualquer coisa que decidamos fazer está sempre dentro de um contexto das coisas possíveis a nós dentro deste universo. Não podemos parar de respirar. Não podemos não envelhecer e não morrer. Não podemos criar coisas que não existem, mas apenas reorganizar o que já existe na confecção de novas coisas. Não podemos deixar de ser quem somos. Não podemos não ser.
  • Cremos nos times de futebol para os quais torcemos a ponto de existirem vários pais que põem o símbolo de seu time nos anúncios de nascimento de seus filhos divulgados nos jornais.
  • Cremos que estaremos seguros se estivermos armados. Óbvia falsidade, mas quem sabe disso? Se assim fosse, hoje estaríamos vivendo em um mudo extremamente seguro, onde todos estariam protegidos da violência alheia.
  • Cremos que devemos tomar refrigerantes.
  • Cremos que podemos nos curar com remédios.

Enfim, crenças não faltam, sejam elas relacionadas a verdades ou falsidades. Nossa grande dificuldade é que, costumeiramente, não diferenciamos uma da outra. E, para piorar, a crença nos deixa cegos a tudo o que esteja em desacordo com ela.

Toda crença é defendida com razões supostamente lógicas ou corretas. E toda crença tem uma origem, geralmente o interesse de quem a impõe. Voltemos ao exemplo da alimentação que damos aos nossos cães domésticos. Para o fato de alimentarmos um carnívoro com ração temos como uma comum explicação a idéia de que o cão alimentado com ração produz fezes duras que podem ser facilmente recolhidas em sacos plásticos na rua. Mas, será? Na verdade as fezes de um cão que se alimenta de carnes e restos de comida variadas não difere muito daquela produzida pela ração. Nada que faça tanta diferença assim ao ser recolhida. Outra explicação é o custo inferior da ração. Isso também não é exatamente verdade. Vi uma ração por R$ 22,00 o quilo numa pet shop (loja com produtos para animais domésticos). Essa ração é caríssima. Existem mais baratas, é claro, mas também temos carnes menos nobres e com ossos a venda em mercados. Misturando carnes ruins com restos de comida podemos alimentar bem um cão com, possivelmente, menos custos do que com pura ração. Além disso, um cachorro que coma mais carne do que outras coisas é mais saudável. Disto concluímos que esta crença tem fundamentos discutíveis. Outras crenças também.

Continuando com este exemplo, vejamos algumas consequências imediatas deste tipo de alimentação que damos aos nossos estimados animais. Com o tempo, a alimentação não natural leva a doenças como a hipertensão, os problemas cardíacos, a obesidade e os derrames cerebrais, entre outros. Não por acaso, tais doenças são comuns entre os humanos. E menos acaso ainda é que é caro tratá-las e impossível curá-las sem drásticas mudanças de crenças e hábitos. Como se não bastasse, muitos crêem que eles fazem parte da família humana e como tal são tratados. Muitos até levam seus animais de estimação para dormir em suas camas. E as pulgas vão junto. Oportunamente surge daí um bizarro mercado com roupas, mobília, tratamentos psicoterápicos e outras coisas disponíveis para eles. É claro que tais crenças impostas às pessoas custam bem caro para suas finanças. Sorte do riquíssimo mercado que criamos com isso. Ah, teremos chegado aqui na origem de algumas falsas crenças sobre as necessidades de nossos bichinhos?

Obviedade primeira: existe um mercado multi-bilionário em torno dos animais de estimação alimentado com o dinheiro:

  • da produção de ração;
  • da cura das doenças provocadas por estes alimentos artificiais;
  • da fabricação de medicações e vacinas;
  • do comércio de raças artificiais;
  • do adestramento;
  • de hotéis;
  • da fabricação de produtos de higiene;
  • da fabricação de roupas (sim, roupas, por mais ridículo que seja);
  • da fabricação de móveis (camas, armários, etc).

Obviedade segunda: impomos a nós mesmos uma vida não natural bem mais prejudicial do que a que exigimos dos animais. Isso acontece devido ao uso mal intencionado de nossa capacidade de crer no que é falso. Nos entupimos de frituras, doces, hormônios e outras drogas. Ficamos sedentários. Nos obrigamos a um ritmo de vida com demasiado trabalho. Dormimos pouco. Criamos sociedades que valorizam as pessoas pela sua capacidade de acumular poder e riquezas. Nos submetemos a atrocidades como furar e cortar o corpo para nele pendurar adornos. Nos operamos para modificar as feições e puxar a pele para disfarçarmos a aparência da idade mais avançada. Respiramos fumaça. Ouvimos muito ruído. E a lista de coisas a que nos submetemos, bem maior do que a que impomos aos animais, quase não tem fim.

Obviedade terceira: como natural consequência da segunda obviedade, ficamos muito doentes. Um sexto da população passa fome e o resto, inclusive aqueles que possuem muito mais do que o necessário para viver confortavelmente, costumam estar emocionalmente doentes. Enquanto somos martirizados pela alta incidência de estresse psíquico  e físico, de hipertensão e AVCs (acidente vascular cerebral), de ataques cardíacos, de obesidade, de câncer e uma vasta lista de outros problemas, enriquecemos a indústria farmacológica e o negócio da doença. (Sim, o que chamamos de sistemas ou planos de saúde são, de fato, sistemas ou planos de doenças, pois apenas tratam das doenças já instaladas nas pessoas. Um sistema de saúde real seria um trabalho preventivo onde, através da educação, procurar-se-ia fazer as pessoas viverem de forma mais coerente com sua natureza.)

A forma não natural de tratar os animais e as doenças oriundas disso aplicam-se exatamente da mesma forma a nós mesmos. Possivelmente sejamos os bichos mais doentes do planeta. Não lembro de ter ouvido falar em algum animal selvagem obeso quando a presença de muita gordura não faz parte de sua natureza. Você consegue imaginar uma girafa bem gorda?

E o que nos falta? A visão da realidade e a intenção de vivermos segundo seus mandamentos.

É necessário que tenhamos consciência do que é real e do que é fantasia. A realidade é dona de nossa natureza, de nossas necessidades, do universo onde estamos e de nossos verdadeiros objetivos de vida. Nós não temos a opção de não seguirmos a realidade e de estarmos bem. Pelo contrário, se insistirmos em ir contra ela, sucumbiremos e ela, sem tomar conhecimento da extinta humanidade,  continuará sua trajetória pela eternidade. Não temos a liberdade e nem o poder de confrontá-la, mas, apenas, a chance de nos curvarmos a ela e de seguirmos o inevitável caminho da natureza. A falsidade apenas nos mostra um mundo fictício que, com o tempo, será perigosamente visto como real.

Para resumir, cremos em falsidades com a mesma facilidade que em verdades. E criamos sociedades que, deliberadamente, induzem suas populações a crerem no irreal apenas para cumprirem seus papéis dentro de um sistema doente.

Precisamos chegar a completude da crença, da imaginação, da maturidade e da sabedoria. Junto virá, como consequência, a boa intenção e a justiça.

Vida de prazeres

Postado em amor, comportamento, drogas, espiritualidade, mulher, sentimento, sexo com as tags , , , , , em Agosto 16, 2009 por Luciano Pillar

Como é bom sentir prazer! Não há nada como ele para nos sentirmos vivos. Nada como ele para sermos felizes. E como ser feliz é o nosso grande objetivo de vida, o que pode ser mais importante do que a busca do prazer? Vivemos para isso. Nós merecemos!

Apesar de esta ser uma afirmação bastante simplória e facilmente questionável, vivemos num mundo onde muitos pensam assim, possivelmente por terem sido induzidos a isso.

Vejamos o exemplo da feliz vida de Euterpo conforme ele próprio me relatou.
Não há nada melhor do que mulheres. Falando diretamente: gosto de transar com elas. Cada uma tem seu sabor, mas todas são deliciosas. O que aprendi é que a mulher ideal são todas e eu sempre me dediquei a conquistar as que me interessaram. E conquistar, para mim, é levar pra cama. Por mais que tenham me dito coisas sobre relacionamentos, nunca consegui ver neles nada que fosse melhor do que o sexo. E no sexo, nada melhor do que variar quando ele chega ao seu limite. Sou um cara simples e prático. Sei ouvir as mulheres, sei ser gentil, sei falar a elas o que elas precisam ouvir para fazer o que ambos queremos. E para vocês que acham que sou superficial, só tenho a dizer que sou assim há décadas e me sinto muito feliz. Já ouvi esta conversa sobre superficialidade muitas vezes e acho que os que me falaram isso são gente que não come ninguém – ou apenas sua esposa – e que adorariam estar na minha pele.

Para aqueles que querem mais algum conselho, eu o dou, e de graça. Se você não consegue sentir prazer mesmo tendo mulheres, então durma mais. Acredite, a simples falta de sono termina com todas as chances de se aproveitar a vida. Se o mal estar continuar, então tome algo. Hoje temos remédios que não acabam mais. Podemos acabar com as depressões e angústias com uns comprimidos. E fim! Ficamos bem, a indústria farmacêutica fica bem, os médicos ficam bem. Todos felizes. Não é uma maravilha? Mas, não exagere, pois as drogas têm contra-indicações. Não são como as mulheres que podem ser trocadas. As drogas não são assim. Elas entram em você e não saem daí com facilidade.

Para os que acham que as drogas podem ser ilícitas, lembrem-se de que pode haver problemas com a polícia. Assim, não recomendo este caminho, pois o que precisamos é de prazer e bem-estar e isso você não terá com a polícia. Se é para buscar métodos ilícitos, considere que um anestesista possui muito mais conhecimentos e muitíssimos mais recursos do que um traficante. Perto dele, este é um amador. Mas, repito, não perca tempo com problemas que irão acabar lhe afastando do prazer almejado. E para os que acham que o uso de drogas artificiais não é um caminho aceitável e não são preguiçosos, recomendo o uso de drogas naturais autoproduzidas. Bug jump, para-quedismo e velocidade são algumas formas de ajudá-lo a produzir adrenalina, endorfina e outras inas. Só recomendo que você não exagere. Não se vicie. É incrível a quantidade de viciados que perambulam por aí. Todos movidos por algum remédio ou fazendo coisas que lhes dê alguma emoção. Pegue leve com substâncias, naturais ou não. Com o tempo, elas lhe farão mal e não produzirão mais os efeitos desejados. Lembre-se: só exagere com as mulheres.

E quanto ao dinheiro, fonte de prazer para alguns, digo-lhes que sua única serventia é a de comprar coisas. Ele costuma dar muita dor de cabeça se for um fim em si. O dinheiro não está aqui para lhe servir, mas para aprisioná-lo, assim como as drogas. Logo, desgaste-se o mínimo com ele e use-o apenas para comprar o necessário. E lembre-se: a melhor coisa que se pode comprar com o dinheiro é, claro, mulheres.

Enfim, sigo esta receita simples há décadas e sinto-me cada vez melhor. Tantos anos de prazeres me fizeram muito bem e muito feliz. A cada dia que faço aquilo que me dá prazer imediato, minha vida vai se tornando mais e mais feliz”.

Essa é uma história de vida totalmente plausível se seguirmos à risca os valores que nossa sociedade não cansa de nos pregar sobre as posses, a ascensão social e a consequente esplendorosa vida de prazeres. Mas se, de alguma forma, sentimos alguma estranheza nesta vida que ele nos descreveu, então onde está o erro da visão que a sociedade nos vende?

Antes de prosseguir e de me tomarem por um mentiro, eu confesso: menti. Jamais conheci este Euterpo. Nunca vi ninguém que tenha se dedicado aos prazeres como prioridade da vida e, com o tempo, tenha ficado cada vez melhor e mais feliz. Nunca ouvi falar de alguém assim através de outras pessoas. Nunca conheci um personagem de ficção que tenha atingido a felicidade através desse caminho. Nem na ficção, não é incrível? Pelo contrário, aqueles que tiveram tudo o que lhes desse prazer, incluindo o sexo, frustaram-se com o tempo. Eles acabaram adoecendo pelos excessos e, em casos mais extremos, morrendo. E todos, sem exceção, sentiram-se vazios.

Disto conclui-se, com relativa facilidade, que o ser humano tem necessidades superiores a da simples busca de prazer e felicidade. Precisamos nos sentir acompanhados de outras pessoas num nível pessoal e espiritual. Precisamos de amor. Obviamente o contato físico por si não é suficiente. Não somos apenas animais para buscarmos só isso. E podemos concluir também que a felicidade não é o objetivo final da vida humana. Ela é desejável, é claro, mas estamos aqui para algo mais do que perseguí-la. Precisamos crescer, evoluir e amadurecer. E, por nossa natureza, não há como fazermos isso sem nos unirmos pessoalmente com nossos semelhantes, pois não existimos integralmente de forma isolada.

O prazer e a dor servem para fazer com que nos movimentemos e para nos ajudar a valorizar as coisas que experimentamos. O que provoca dor tenderá a ser evitado por nós durante a vida e o que nos dá prazer gerará efeito contrário. Não são fins em si, mas meios. Assim, vejamos o exemplo do sexo, talvez a maior fonte de prazer. O sexo nos dá prazer, mas ele não é um propósito final, como é muito enfatizado em nossa sociedade. Se assim fosse, bastaria fazermos muito sexo com diversas pessoas para nos sentirmos completos, realizados e felizes. Mas isso não é o que acontece. A realidade é que a relação sexual pode ser incrível e completa com poucas pessoas e um mero ato com muitas por que, de fato, o sexo é um recurso físico para uma ação muito além da corpórea. Através dele, nos unimos mais com outra pessoa, uma grande necessidade e busca de todos nós. Esta união é espiritual e é permeada pelo amor. O físico apenas a acompanha e, não por acaso, da união espiritual podemos abrir caminho para uma nova pessoa existir neste mundo.

Mas, estamos nos conduzindo erroneamente. Deveríamos enfatizar nosso propósito real de viver, aprender e amadurecer. Deveríamos tratar de nossa união espiritual uns com os outros e da prática do amor. Nesse processo, deveríamos colocar o prazer em seu correto papel, não como um fim em si. E, com esta perspectiva, conduzirmos e priorizarmos a educação. Amar, educar, alimentar e propiciar condições saudáveis a todos é o que devemos fazer.

Mas, um bilhão tem fome. Mas, fazemos armas. Crianças podem brincar com armas? Adultos fabricam armas?

Entenda, invertemos a ordem das coisas e, assim, nos educamos numa direção errada. Nesse processo educacional, somos diariamente bombardeados com propagandas de todo tipo de produtos à venda que evocam o prazer. Propagandas usam da sexualidade indiscriminadamente, inclusive infantil. Sim, muitas delas, disfarçadamente, usam da pedofilia como recurso para vender. Estamos à mercê de um marketing que nos mente descaradamente atribuindo a idéia de bem-estar e de sermos melhores só por possuirmos algo que está à venda. Estamos deliberadamente nos prejudicando apenas para vendermos coisas a nós mesmos. Isso é de uma estupidez sem tamanho. Inúmeras dificuldades pessoais e sociais são criadas por nós mesmos, para nós mesmos, por que precisamos vender. Vender coisas, para obter dinheiro, transformou-se em nosso objetivo maior, tentando, inutilmente, passar à frente de viver e amadurecer através da oportunidade da vida. Bom, como isso é impossível, só iremos nos prejudicar. Resta saber se tal prejuízo será até um certo limite ou  até o fim.