Ciência e espiritualidade na universidade? Soa estranho. Há muito que a universidade tem sido um lugar para pesquisar e ensinar com os olhos da ciência, inclusive em áreas humanas. Mesmo em cursos como a de teologia, o foco é de uma visão histórica e social, sem o sentir e o envolver-se realmente com a vivência do fato espiritual. Quanto às questões espirituais, estas ficam à cargo das igrejas e afins. Esse é o arranjo normal, com nenhum ou pouco intercâmbio entre as partes.
Mas, parece que as coisas estão mudando, pois neste mês de junho, em Porto Alegre, aconteceu um seminário sobre Ciência e Espiritualidade na Universidade promovido pelo NIETE (Núcleo Interdisciplinar de Estudos Transdisciplinares sobre Espiritualidade) da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul). O NIETE reúne professores (muitos deles doutores) e colaboradores de diversas áreas do conhecimento que, juntos, estão pesquisando sobre a própria espiritualidade e acrescentando-a como novo requisito a ser considerado em outras pesquisas. Isso nos permite vislumbrar um futuro no qual o universo, finalmente, será considerado sob uma ótica mais completa e real, de acordo com sua natureza.
O que posso lhes dizer, como participante deste seminário, é que só vi gente séria e trabalhos concretos. E notei que as pessoas envolvidas nestas pesquisas, muitas delas professores das ciências exatas, são bastante entusiasmadas com o tema e, várias vezes, declararam ter amor pelo que fazem. Também vi emoção e alguns derramamentos de lágrimas nas justificativas dos trabalhos. Como profissional de informática que já participou de vários seminários desta área, posso dizer que, nesta última, não costumamos ver demonstrações afetivas e de nada que esteja além dos interesses em novas tecnologias e em negócios.
Questões iniciais.
Por que necessitamos de espiritualidade? A resposta a esta pergunta é tão óbvia quanto o porquê de precisarmos do ar e da água. O simples fato de nos questionarmos sobre a importância do espiritual e do porquê de tal tema ser parte integrante nas pesquisas universitárias já mostra nossa ignorância sobre nós mesmos e o conseqüente desdém com que tratamos algo que é parte nossa.
Por que necessitamos de ciência? Esta pergunta não causará estranheza a ninguém e será facilmente respondida por qualquer um, pois, há séculos, ela tem sido a soberana detentora da verdade e de nossa percepção da realidade. Somos devotos da ciência.
E por que nossa visão científica exclui a espiritualidade? Por que as questões espirituais são tomadas por crendices e só podem ser vivenciadas num contexto religioso? Por que tudo o que se refere a esta parte da realidade é tomada por céticos desinformados como assunto para tolos?
Ciência.
A civilização humana dos últimos séculos tem na ciência um importante cerne de seus valores. Isso acontece há uns 500 anos, quando passamos a moldar nossa percepção da realidade através de uma ótica descrita por alguns filósofos como Francis Bacon (1561-1626), Thomas Hobbes (1588-1679) e René Descartes (1596-1650).
Para Francis Bacon, “Saber é poder”. A importância maior do saber é ser um meio para conquistar (entendendo e modificando) a natureza para nosso melhor viver e não apenas como um fim em si. Mas, para saber, precisamos dispor de um método e Bacon propôs um que consistia em estabelecer os graus da certeza, em determinar o alcance exato dos sentidos e rejeitar, na maior parte dos casos, o labor da mente. Para isto, ele propôs, também através de métodos, uma forma de regular a mente e o intelecto, pois estes tendem a se perder na sua capacidade de observação da realidade por estarem presos em conceitos vãos, idolatrias e nos usos do convívio cotidiano.
Thomas Hobbes também acredita que o conhecimento deve ser adquirido por um raciocínio correto que consiste em partir da natureza e voltar a ela percorrendo um trajeto em que o real é reduzido a elementos simples para que, estes, possam ser usados numa dedução capaz de recompor as realidades completas. Trata-se da divisão da natureza em partes, um conceito tal e qual ainda aplica a ciência moderna.
René Descartes instituiu a dúvida: só se pode dizer que existe aquilo que puder ser provado, sendo o ato de duvidar indubitável. Ele é o autor da famosa afirmação “Penso, logo existo” e definiu as bases do método científico a partir de quatro regras básicas:
- verificar se existem evidências reais e indubitáveis acerca do fenômeno ou coisa estudada;
- analisar, ou seja, dividir ao máximo as coisas, em suas unidades mais simples e estudar essas coisas mais simples;
- sintetizar, ou seja, agrupar novamente as unidades estudadas em um todo verdadeiro;
- enumerar todas as conclusões e princípios utilizados, a fim de manter a ordem do pensamento.
A ciência e suas conseqüências.
Estes métodos racionais para estudar e melhor usar a natureza foram utilíssimos em sua época e nas seguintes, tendo marcado o início do uso ordenado de nossa razão para desvendarmos os segredos mais íntimos do nosso mundo e criarmos, através de nossa vontade e intelecto, novas condições de vida para nós além do que nos foi oferecido pela natureza.
Dentre as conseqüências deste novo paradigma científico, além da crença de que as partes definem o todo, destaca-se o novo lugar da natureza como uma propriedade e direito nosso. O mundo deixou de ser reverenciado como algo divino e passou a ser visto como um sistema semelhante a uma máquina a ser subjugado e estendido para nosso próprio uso. Francis Bacon começa seu Novum Organum, no primeiro dos inúmeros “Aforismos sobre a Interpretação da Natureza e o Reino do Homem”, com “O Homem, ministro e intérprete da natureza…”.
Com esta nova perspectiva, passamos a crer mais em nós mesmos como sendo meio divinos e auto-suficientes. O antropocentrismo passou a ser a base a partir da qual passamos a julgar o resto do mundo vivo e não vivo. E como passamos a valorizar cada vez mais nosso lado puramente racional, as percepções não racionais da existência, como a nossa espiritualidade, foram colocadas num mesmo lugar comum que passou a ser visto com crescente preconceito em relação ao que passamos a julgar evoluído. Nessa nova cultura, enquanto nossa espiritualidade confundiu-se com as religiões e passou a servir apenas para aliviar nossas tensões e nos dar esperança, a ciência passou a definir a realidade, incluindo nossos processos decisórios, de julgamento e de postura perante à vida.
No lado negro do que fizemos com a ciência destaca-se que nos posicionamos mais como peças de um sistema do que como seres humanos únicos, sensíveis e importantes e, graças ao poder que ela nos deu (e que não foi acompanhado por tanta evolução moral), nós destruímos perigosamente nosso meio ambiente.
A ciência e suas limitações.
Com o tempo, a própria ciência, seguindo seus preceitos cartesianos, mostrou que o todo tem natureza diferente das partes que o compõem. Além disso, esta ciência nos levou a vislumbrar mundos muito além de nossa percepção sensorial. Ela nos mostrou, pela matemática, pela física subatômica, pela astronomia e por diversas outras fontes de estudo e observação, uma natureza multidimensional e interconectada do universo. Ela nos mostrou que nós somos, influímos e criamos a realidade também. Ela os mostrou que os pensamentos são energia criadora e fluem entre nós e o universo ao qual estamos inseridos e do qual fazemos parte. Assim, a própria ciência racionalista nos apresentou um universo de consistência físico-imaterial, demonstrou que nossos cinco sentidos físicos são insuficientes para observar a totalidade do que nos cerca e acabou por superar os próprios paradigmas que a definem. Curioso, não?
Num livro escrito entre os anos 1938 e 1940 chamado “O Fenômeno Humano”, Teilhard de Chardin (1881-1955) já falava de forma objetiva e clara sobre a natureza físico-espiritual do universo e do homem. Segundo ele, a física só será completa quando incluir nela mesma o lado interno, ou espiritual, de tudo o que existe, pois tal é a natureza do universo. Ele chamou a esta necessária próxima física de hiperfísica.
E mais exemplos, estudos e autores não faltam para as mesmas constatações. Fatos!
A desequilibrada vida da humanidade científica no início do século XXI.
Tanto nossa imaturidade quanto a visão de nossa ciência levaram-nos, em nossas diversas sociedades, a não estarmos bem. A filosofia científica racional, que supõe que o todo pode ser dissecado para ser compreendido e dominado, arraigou-se a nós profundamente. Seguimos esse pensamento à risca como uma verdade incontestável até há pouco tempo. A natureza e nossos corpos, por exemplo, passaram a ser tratados como máquinas. E nós nos transformamos em engrenagens de um sistema industrial e econômico em que, se não atendermos bem as suas requisições, poderemos ser friamente substituídos. É claro que nossas mazelas não foram causadas apenas por esta orientação cartesiana, pois há muito mais tempo já temos problemas pessoais e sociais, mas, sem dúvida, esta forma de avaliar a nós e ao mundo acrescentou uma série de problemas psicológicos à população na medida em que afastou a todos de sua essência maior e do contato genuíno com o mundo que nos cerca.
Assim, há décadas, e de forma crescente, as pessoas estão mal. Emocionalmente mal e vendo pouco sentido em suas vidas. A humanidade está bastante enferma e os desequilíbrios, em todas as esferas, beiram o colapso total que, não havendo mudanças, certamente virá.
Por favor, para nosso bem, pense nas seguintes questões:
- Por que, afinal, tantos suicídios (muitos encobertos por questões de segurança), inclusive de jovens?
- Se até crianças e adolescentes se matam em uma sociedade, não importa como a avaliemos, o fato é que ela está, inqüestionavelmente, falida.
- Por que remédios vendem tanto, especialmente anticoncepcionais, antidepressivos e analgésicos?
- Por que tomamos tanto café, álcool e drogas?
- Por que tantos morrem de câncer? Afinal, o que ou quem causa o câncer?
- Na busca pela cura do câncer, por que os racionais médicos e pesquisadores, após tanto tempo e dinheiro gasto, não nos dizem, de uma vez por todas, que eles descobriram, através de seus métodos puramente físicos, a causa desta doença? Se eles não o conseguem fazer, conlui-se que, ou todos são inconcebivelmente incompetentes, ou seus métodos estão errados. Procuram no físico o que não é físico.
- Por que tantos problemas cardíacos?
- Por que muitas coisas que servem como válvulas de escape, como a religião, não dão conta do recado e não reequilibram de vez as pessoas?
- Por que tanta falta de esperança, justo num mundo onde já dispomos de uma tecnologia impressionante para nosso bem-estar, conforto e segurança?
- Como podemos nos considerar evoluídos num mundo onde um bilhão de pessoas passam fome?
Não tenho dados, mas algo me diz que mais gente se mata hoje do que na idade média, apesar do conforto que a evolução científica trouxe para aqueles que podem se beneficiar dela. Esta opinião se baseia nos dias atuais, onde vemos jovens e crianças em uma país “desenvolvido” e tecnológico como o Japão se suicidarem deliberadamente e mendigos no Brasil não. A pressão externa, o estresse e o vazio existencial custam-nos mais do que a sujeira, as doenças e até mesmo a fome. Não esqueçam disso: vazio existencial. O vazio que esta cultura nos traz por nos encher de coisas e informações sem transformá-las em saber pela falta de algo (espiritual?). O vazio provocado pelos remédios anti-qualquer-coisa-que-nos-falta-ou-nos-incomoda que muitos tomam para suportar algo que já nem sabem mais o que é.
Sei perfeitamente que muitas pessoas parecem estar bem, mas não a maioria. E a sociedade como um todo também está muito doente. Moribunda até. Por que isso? Quem sabe não possamos colaborar em desvendar tão importante mistério?
O futuro da ciência.
A ciência aumentou nossa compreensão racional sobre o universo, incluindo a nós mesmos, e nos permitiu criar coisas que aumentaram nossa capacidade de ação em quase todas as áreas de nossas vidas. Com a ciência criamos um novo mundo para nós. A ciência nos deu poder, mas não podemos culpá-la pelas mazelas que aconteceram com o uso deste poder, pois isso é culpa de nossa imaturidade e conseqüente má intenção.
Sendo assim, o futuro da ciência depende de nós tratarmos de nosso futuro em termos de evolução pessoal. Precisamos amadurecer e nos tornar adultos. Antes disso, precisamos entender melhor o que é realmente ser adulto. Temos pressa, pois a situação já é crítica, já que existem muitas pessoas pouco evoluídas e com bastante poder em suas mãos, justo num mundo onde aqueles que ainda não se tornaram adultos fabricaram armas nucleares suficientes para destruir Júpiter.
Quanto a ciência em si, é necessário estendermos suas premissas cartesianas que se tornaram insuficientes para sustentar a realidade que ela própria nos mostrou. A ciência precisará se unir de alguma forma com o além físico (o espiritual?).
Se evoluirmos, creio que devemos continuar com a ciência. Não a ciência de hoje, mas uma mais efetiva e mais poderosa. Nossa ciência não é tanta para a idolatrarmos como costumamos fazer, mas apenas o início do que ela será. Não devemos nos subestimar, mas nos forçar a ir mais do que jamais fomos até agora. Mas, para isso, a ciência precisará ser mais abrangente, pois a realidade não se sujeita aos métodos cartesianos e hobbesianos. O próprio Francis Bacon, na definição de seus métodos de observação da natureza publicados em 1620 alerta: “A natureza supera em muito, em complexidade, os sentidos e o intelecto” (Novum Organum, livro 1, aforismo X).
Mas, esse acréscimo científico, além de nosso século é… pouco. Sim, pouco, pois a ciência é a parte menor de tudo. Nosso propósito é a evolução. Se cada um de nós não consegue melhorar sua moral, seu discernimento do importante, sua correção de conduta e sua capacidade de amar, então, o que significa o progresso científico?
Próxima parte.
Na segunda e última parte deste texto sobre ciência e espiritualidade abordaremos, é claro, o lado espiritual e a situação humana. Aguarde!! Voltaremos na próxima semana.
Referências:
NIETE: http://www.ufrgs.br/niete/
Francis Bacon: http://pt.wikipedia.org/wiki/Francis_Bacon_(filósofo)
René Descartes: http://pt.wikipedia.org/wiki/Descartes
Pierre Teilhard de Chardin: http://pt.wikipedia.org/wiki/Teilhard_de_Chardin
Thomas Hobbes: http://pt.wikipedia.org/wiki/Thomas_Hobbes
Bibliografia:
- “Novum Organum”; 1620; Francis Bacon
- “O Fenômeno Humano”; 1938-1940; Teilhard de Chardin; Editora Cultrix; 1ª edição de 1990