As vezes nos acontece o extremamente improvável. Vou relatar um destes acontecimentos cujo protagonista é alguém bem conhecido meu: eu mesmo.
Uma vez eu estava numa praia do estado de Santa Catarina com alguns amigos. Faz tempo isso, tanto que até esqueci qual era exatamente a praia. Lembro apenas que era uma destas sem ondas, possivelmente alguma ao norte da ilha de Santa Catarina. E lembro claramente que fomos até a praia no meu carro.
Após um bom banho de mar, saí e fiquei com os meus amigos. Ficamos um bom tempo juntos até surgir a necessidade de ir até o carro. Nesse momento, descobri que a chave do carro não estava mais comigo. Após um exercício de memória, ficou claro para mim, sem a menor sombra de dúvida, que eu tinha guardado a chave no bolso de minha bermuda que, infelizmente, não era fechado de nenhuma maneira. Imediatamente entendi que eu tinha perdido a chave dentro do mar.
A chave poderia ter caído noutro momento ou lugar, mas, antes mesmo que meu pensamento consciente tivesse tempo de fazer qualquer de suas conjecturas, eu já sabia que tinha sido no mar. Como pode ser isso? Que tipo de certeza é esta que temos antes do pensar?
A situação era a seguinte: o carro estava trancado e estávamos longe de casa. Poderíamos até arrombar a porta, mas, ainda assim, teríamos que ligar o carro. Seria interessante aprendermos a fazer ligação direta sem chave, pois rapidamente descobri que esta era uma técnica desconhecida de todos. A primeira coisa que aconteceu foi a lamentação de todos e a culpa que caiu sobre mim. A segunda é que todos passaram a buscar alternativas de retorno à casa. Ninguém pensou em encontrar a chave. Por que num evento qualquer as pessoas assumem que a realidade deve necessariamente atender a seus conhecimentos sobre fatos anteriores semelhantes? Concordo que exista uma maior probabilidade de que cada fato leve às mesmas consequências que fatos semelhantes já ocorridos antes, mas, por outro lado, assumir isso como verdade tão rapidamente sem olhar e nem sentir o momento presente (que sempre é único) não seria também uma grande limitação?
Novamente, antes de pensar, não me dei por vencido. Olhei para o mar e decidi buscar a chave e, tão logo esta decisão fora tomada, eu já caminhava para dentro do mar. Perguntaram-me onde eu ia e a resposta imediata foi: “Vou buscar a chave. Já volto”. Imagine só o que não devem ter pensado. Provavelmente o mesmo que você estaria pensando na ocasião ou mesmo agora.
Entrei no mar em linha reta, com passos ininterruptos e seguros até que parei. Parei quando comecei a pensar como um adulto racional: “Mas, o que estou fazendo? Devo estar maluco. Como vou achar uma chave num mar onde nem visibilidade tenho para ver meus pés? Devo mergulhar? E de que isso me ajudaria? Faz tempo que perdi esta chave aqui e, agora, já deve estar soterrada. E quem me garante que foi no mar que a perdi?”. É curioso como funciona o pensamento racional. Perguntas, conclusões, respostas assumidas, mais perguntas, mais conclusões e decisões vão se encadeando indefinidamente até surgir uma decisão final. Este tipo de pensamento é uma excelente e poderosa ferramenta, mas tende a nos dominar e a nos cegar ao momento presente.
Mas, voltemos a cena daquele momento. Entrei no mar em linha reta, com passos ininterruptos e seguros até que parei. Parei quando comecei a pensar como um adulto racional e, enquanto pensava, senti algo sob meu pé direito. Torci meus dedos para baixo de forma a agarrar o objeto e levantei-o para fora do mar. Era a chave.
Saí do mar menos de cinco minutos depois de ter entrado e já fui avisando a todos: “Está aqui a chave pessoal. Desculpem-me pela demora“. Ninguém acreditou, mas a descrença durou pouco, pois apresentei-lhes a chave. É incrível como formamos crenças na ausência de fatos. Alguns chegaram a duvidar que eu realmente havia perdido a chave. Acharam que eu tinha inventado toda esta história com o intuito de assustá-los. Mas, como me conheciam, descartaram esta possibilidade. Eles sabiam que eu não sou dado a estas brincadeiras.
Notei que as pessoas ficaram muito espantadas e que depois, muito rapidamente, esqueceram o ocorrido. Podemos concluir ser comum reagirmos simplesmente com o esquecimento às coisas incomuns que presenciamos? Nada como apagar da memória aqueles fatos que não se encaixam em nosso modelo de realidade. A mente racional já tem uma descrição da realidade que nos é imposta e que não deve ser questionada. Infelizmente, isso diminui ou nos tira a capacidade de ver o presente real e de aprender com ele.
Uma pergunta que ficou para mim é como eu encontrei a chave. Como pode ser que eu tenha caminhado de uma única vez diretamente para onde ela estava? Como parei exatamente com o pé sobre ela? Pode ter sido uma mera coincidência, é claro, mas isso me parece improvável. E mais improvável ainda quando lembro da segurança que senti ao caminhar até ela. Temos alguma outra visão? Ou alguma forma de usar da visão de outros de uma forma telepática? E por que não conseguimos usar corriqueira e conscientemente tal visão? Será por que simplesmente não cremos e estamos ocupados demais com nossos pensamentos prontos e encadeados?
Seja como for, fatos são fatos. E este foi um fato do qual não ouvi falar e nem li em nenhum lugar. Ele aconteceu comigo. Para você ainda sobra uma saída fácil, caso ele, de alguma fora, entre em desacordo com sua descrição da realidade: eu posso ser um mentiroso. Para mim não há essa saída.




