Despedida e agradecimento a Michael Jackson

Publicado em artes, comportamento, música, sociedade com as tags , , , às Julho 5, 2009 por Luciano Pillar

michaelMichael Jackson morreu. Você já ouviu falar dele? Aposto que sim. Ele foi e será um ídolo, aquele tipo de pessoa que se sobressai e escreve seu nome na história. Michael foi um artista talentoso e criativo. Sua capacidade de cantar e dançar, com a qualidade e a inventividade que o caracterizaram, esteve anos luz adiante de praticamente todos os mortais arteiros que andam por aí. Sem mais delongas, vamos direto ao assunto.

A música e a arte de Michael Jackson é a própria encarnação de nosso mundo. O mundo material, das posses, do poder, do sexo, da noite, das sensações, dos prazeres, do capital, da competição. Michael foi genial na arte da repetitiva e massacrante vida terrena. Tudo pelo prazer momentâneo. Tudo pela aparência a qualquer custo químico, cirúrgico e financeiro. Remédios, bisturis, falsidades e prazeres para esquecer as amarguras do espírito. O resultado? Ele próprio foi, em pessoa, o resultado. Michael foi sincero neste ponto, pois realmente viveu, cantou e dançou este mundo. Ele foi a personificação simultânea de dois aspectos de nossa cultura rápida e consumista: sua exuberância criativa e sua dependência da mentira e da insanidade. Neste mundo doente, onde vemos as lindas Giseles super top modelos transformarem-se em milionários outdoors do que todos devem almejar, sem nada saberem sobre a vida real e sofrida da população, Michael, em seu embonecado e desfigurado corpo, mostrou a verdade. A verdade sobre uma civilização que vende mentiras, pois, quem se aventurar a comprar o que ela manda e se portar como ela requer, irá se transformar numa sofrida e desumanizada pessoa.
TRINK: estamos imersos numa cultura que espera algo não humano de nós. Ela se apresenta como uma traficante de felicidade em pílulas.
Perguntas: se Michael foi famosíssimo, riquíssimo, artistíssimo e outros íssimos que devemos almejar, não deveria ele ser o supra-sumo da felicidade?

Michael foi obrigado a trabalhar desde criança. Não teve a necessária vida infantil nem o insubstituível e acolhedor lar. Exploração infantil, moral deturpada, escravização pelo dinheiro, maldade e falta de amor definem seu pai, talvez outros familiares e muitos outros lixos humanos que dele se aproximaram apenas para sugá-lo com o propósito de conquistarem seus desejos de gente pequena.
TRINK: ser pai e ser mãe implica em se ter a capacidade de amar. E em amar. Implica em olhar para o filho e ajudá-lo a ser ele próprio, a ser humano, amável e feliz. Um filho não é propriedade dos pais e nem solução para seus problemas, inclusive financeiros. Ser filho de pais que não são assim é uma enorme e talvez fatal provação.
Perguntas: se não temos amor, amigos, família e humanidade, temos o quê? A genialidade, a fortuna e os prazeres substituem essas necessidades humanas?

Muitos críticos afirmam que Michael foi genial apenas em uma época e, depois, repetiu-se. Sim, é verdade, mas ter ido até onde ele foi na área artística é algo que a pessoa comum, ou quase a totalidade de nós, jamais poderá fazer, cada um em sua área de atuação, é claro.
TRINK: os artistas genuínos criam uma arte inesquecível apenas durante uma época de suas vidas. Depois, é comum eles tornarem-se meros intérpretes de si mesmos. Se existem exceções, elas são poucas.
Perguntas: de onde vem esta percepção artística que faz o artista criar coisas que todos se maravilham? Por que ela acontece apenas em alguns momentos? Isso até parece uma porta que permite uma visão estendida, mas que não permanece sempre aberta.

O que é certo é que Michael Jackson foi um artista. O que é certo é que ele fez uma arte que está escrita na história. O que não é garantido é a veracidade dos atos que lhe atribuem, como o da pedofilia. Acho que isso tudo cheira a mentira. Os pedófilos, segundo uma amiga psicóloga, têm outro perfil. São adultos e querem destruir e usurpar a infância. Eles não constroem parques para atraí-las, mas, pelo contrário, escondem-se no papel de pessoas comuns. Michael parecia mais alguém cheio de problemas e meio infantilizado do que um homem dissimulado à espreita de crianças inocentes. Os pedófilos se ocultam no estereótipo da pessoa séria e confiável, como o dos padres. Muitos que o conheceram disseram que ele era mais puro do que o comum das pessoas. Não me surpreenderia se alguém o tivesse chantageado após ter criado esse boato. Alguém deve ter roubado muito dinheiro dele com essa história.

Mas, nada sei além do fato de que ele foi um artista que ajudou a mostrar a verdadeira face de uma sociedade falsa. A face de um mundo onde muitos costurados e dopados andam por aí achando que estão bem. Ele cedeu sua arte e aparência para desmascarar esta sociedade que é uma mistura dele, de belíssimas top models e de crianças subnutridas logo antes da morte. Se Michael parece com algo monstruoso, é porque este algo pode remeter ao que nós somos, mas não temos coragem de apresentar abertamente. Se Michael atraiu tantos fãs, é porque ele mostrou algo falso que muitos não suportam mais e porque ele, apesar disso, era bom. Desta forma, ele apresentou uma esperança de que uma sociedade podre pode ter bons representantes e que, com o tempo, estes predominem e transformem toda a comunidade global em um ambiente saudável e verdadeiro.

Vai com Deus Michael Jackson. Tua música, tua imagem e teu sofrimento representam, de forma transparente, nosso mundo. Obrigado por nos desmascarar.

Unindo Ciência, Espiritualidade e Universidade – parte 1

Publicado em ciências, filosofia, história, mente, religião, sociedade, universidade com as tags , , , , , às Junho 21, 2009 por Luciano Pillar

Ciência e espiritualidade na universidade? Soa estranho. Há muito que a universidade tem sido um lugar para pesquisar e ensinar com os olhos da ciência, inclusive em áreas humanas. Mesmo em cursos como a de teologia, o foco é de uma visão histórica e social, sem o sentir e o envolver-se realmente com a vivência do fato espiritual. Quanto às questões espirituais, estas ficam à cargo das igrejas e afins. Esse é o arranjo normal, com nenhum ou pouco intercâmbio entre as partes.

Mas, parece que as coisas estão mudando, pois neste mês de junho, em Porto Alegre, aconteceu um seminário sobre Ciência e Espiritualidade na Universidade promovido pelo NIETE (Núcleo Interdisciplinar de Estudos Transdisciplinares sobre Espiritualidade) da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul). O NIETE reúne professores (muitos deles doutores) e colaboradores de diversas áreas do conhecimento que, juntos, estão pesquisando sobre a própria espiritualidade e acrescentando-a como novo requisito a ser considerado em outras pesquisas. Isso nos permite vislumbrar um futuro no qual o universo, finalmente, será considerado sob uma ótica mais completa e real, de acordo com sua natureza.

O que posso lhes dizer, como participante deste seminário, é que só vi gente séria e trabalhos concretos. E notei que as pessoas envolvidas nestas pesquisas, muitas delas professores das ciências exatas, são bastante entusiasmadas com o tema e, várias vezes, declararam ter amor pelo que fazem. Também vi emoção e alguns derramamentos de lágrimas nas justificativas dos trabalhos. Como profissional de informática que já participou de vários seminários desta área, posso dizer que, nesta última, não costumamos ver demonstrações afetivas e de nada que esteja além dos interesses em novas tecnologias e em negócios.

Questões iniciais.

Por que necessitamos de espiritualidade? A resposta a esta pergunta é tão óbvia quanto o porquê de precisarmos do ar e da água. O simples fato de nos questionarmos sobre a importância do espiritual e do porquê de tal tema ser parte integrante nas pesquisas universitárias já mostra nossa ignorância sobre nós mesmos e o conseqüente desdém com que tratamos algo que é parte nossa.

Por que necessitamos de ciência? Esta pergunta não causará estranheza a ninguém e será facilmente respondida por qualquer um, pois, há séculos, ela tem sido a soberana detentora da verdade e de nossa percepção da realidade. Somos devotos da ciência.

E por que nossa visão científica exclui a espiritualidade? Por que as questões espirituais são tomadas por crendices e só podem ser vivenciadas num contexto religioso? Por que tudo o que se refere a esta parte da realidade é tomada por céticos desinformados como assunto para tolos?

Ciência.

A civilização humana dos últimos séculos tem na ciência um importante cerne de seus valores. Isso acontece há uns 500 anos, quando passamos a moldar nossa percepção da realidade através de uma ótica descrita por alguns filósofos como Francis Bacon (1561-1626), Thomas Hobbes (1588-1679) e René Descartes (1596-1650).

Para Francis Bacon, “Saber é poder”. A importância maior do saber é ser um meio para conquistar (entendendo e modificando) a natureza para nosso melhor viver e não apenas como um fim em si. Mas, para saber, precisamos dispor de um método e Bacon propôs um que consistia em estabelecer os graus da certeza, em determinar o alcance exato dos sentidos e rejeitar, na maior parte dos casos, o labor da mente. Para isto, ele propôs, também através de métodos, uma forma de regular a mente e o intelecto, pois estes tendem a se perder na sua capacidade de observação da realidade por estarem presos em conceitos vãos, idolatrias e nos usos do convívio cotidiano.

Thomas Hobbes também acredita que o conhecimento deve ser adquirido por um raciocínio correto que consiste em partir da natureza e voltar a ela percorrendo um trajeto em que o real é reduzido a elementos simples para que, estes, possam ser usados numa dedução capaz de recompor as realidades completas. Trata-se da divisão da natureza em partes, um conceito tal e qual ainda aplica a ciência moderna.

René Descartes instituiu a dúvida: só se pode dizer que existe aquilo que puder ser provado, sendo o ato de duvidar indubitável. Ele é o autor da famosa afirmação “Penso, logo existo” e definiu as bases do método científico a partir de quatro regras básicas:

  • verificar se existem evidências reais e indubitáveis acerca do fenômeno ou coisa estudada;
  • analisar, ou seja, dividir ao máximo as coisas, em suas unidades mais simples e estudar essas coisas mais simples;
  • sintetizar, ou seja, agrupar novamente as unidades estudadas em um todo verdadeiro;
  • enumerar todas as conclusões e princípios utilizados, a fim de manter a ordem do pensamento.

A ciência e suas conseqüências.

Estes métodos racionais para estudar e melhor usar a natureza foram utilíssimos em sua época e nas seguintes, tendo marcado o início do uso ordenado de nossa razão para desvendarmos os segredos mais íntimos do nosso mundo e criarmos, através de nossa vontade e intelecto, novas condições de vida para nós além do que nos foi oferecido pela natureza.

Dentre as conseqüências deste novo paradigma científico, além da crença de que as partes definem o todo, destaca-se o novo lugar da natureza como uma propriedade e direito nosso. O mundo deixou de ser reverenciado como algo divino e passou a ser visto como um sistema semelhante a uma máquina a ser subjugado e estendido para nosso próprio uso. Francis Bacon começa seu Novum Organum, no primeiro dos inúmeros “Aforismos sobre a Interpretação da Natureza e o Reino do Homem”, com “O Homem, ministro e intérprete da natureza…”.

Com esta nova perspectiva, passamos a crer mais em nós mesmos como sendo meio divinos e auto-suficientes. O antropocentrismo passou a ser a base a partir da qual passamos a julgar o resto do mundo vivo e não vivo. E como passamos a valorizar cada vez mais nosso lado puramente racional, as percepções não racionais da existência, como a nossa espiritualidade, foram colocadas num mesmo lugar comum que passou a ser visto com crescente preconceito em relação ao que passamos a julgar evoluído. Nessa nova cultura, enquanto nossa espiritualidade confundiu-se com as religiões e passou a servir apenas para aliviar nossas tensões e nos dar esperança, a ciência passou a definir a realidade, incluindo nossos processos decisórios, de julgamento e de postura perante à vida.

No lado negro do que fizemos com a ciência destaca-se que nos posicionamos mais como peças de um sistema do que como seres humanos únicos, sensíveis e importantes e, graças ao poder que ela nos deu (e que não foi acompanhado por tanta evolução moral), nós destruímos perigosamente nosso meio ambiente.

A ciência e suas limitações.

Com o tempo, a própria ciência, seguindo seus preceitos cartesianos, mostrou que o todo tem natureza diferente das partes que o compõem. Além disso, esta ciência nos levou a vislumbrar mundos muito além de nossa percepção sensorial. Ela nos mostrou, pela matemática, pela física subatômica, pela astronomia e por diversas outras fontes de estudo e observação, uma natureza multidimensional e interconectada do universo. Ela nos mostrou que nós somos, influímos e criamos a realidade também. Ela os mostrou que os pensamentos são energia criadora e fluem entre nós e o universo ao qual estamos inseridos e do qual fazemos parte. Assim, a própria ciência racionalista nos apresentou um universo de consistência físico-imaterial, demonstrou que nossos cinco sentidos físicos são insuficientes para observar a totalidade do que nos cerca e acabou por superar os próprios paradigmas que a definem. Curioso, não?

Num livro escrito entre os anos 1938 e 1940 chamado “O Fenômeno Humano”, Teilhard de Chardin (1881-1955) já falava de forma objetiva e clara sobre a natureza físico-espiritual do universo e do homem. Segundo ele, a física só será completa quando incluir nela mesma o lado interno, ou espiritual, de tudo o que existe, pois tal é a natureza do universo. Ele chamou a esta necessária próxima física de hiperfísica.

E mais exemplos, estudos e autores não faltam para as mesmas constatações. Fatos!

A desequilibrada vida da humanidade científica no início do século XXI.

Tanto nossa imaturidade quanto a visão de nossa ciência levaram-nos, em nossas diversas sociedades, a não estarmos bem. A filosofia científica racional, que supõe que o todo pode ser dissecado para ser compreendido e dominado, arraigou-se a nós profundamente. Seguimos esse pensamento à risca como uma verdade incontestável até há pouco tempo. A natureza e nossos corpos, por exemplo, passaram a ser tratados como máquinas. E nós nos transformamos em engrenagens de um sistema industrial e econômico em que, se não atendermos bem as suas requisições, poderemos ser friamente substituídos. É claro que nossas mazelas não foram causadas apenas por esta orientação cartesiana, pois há muito mais tempo já temos problemas pessoais e sociais, mas, sem dúvida, esta forma de avaliar a nós e ao mundo acrescentou uma série de problemas psicológicos à população na medida em que afastou a todos de sua essência maior e do contato genuíno com o mundo que nos cerca.

Assim, há décadas, e de forma crescente, as pessoas estão mal. Emocionalmente mal e vendo pouco sentido em suas vidas. A humanidade está bastante enferma e os desequilíbrios, em todas as esferas, beiram o colapso total que, não havendo mudanças, certamente virá.

Por favor, para nosso bem, pense nas seguintes questões:

  • Por que, afinal, tantos suicídios (muitos encobertos por questões de segurança), inclusive de jovens?
    • Se até crianças e adolescentes se matam em uma sociedade, não importa como a avaliemos, o fato é que ela está, inqüestionavelmente, falida.
  • Por que remédios vendem tanto, especialmente anticoncepcionais, antidepressivos e analgésicos?
  • Por que tomamos tanto café, álcool e drogas?
  • Por que tantos morrem de câncer? Afinal, o que ou quem causa o câncer?
    • Na busca pela cura do câncer, por que os racionais médicos e pesquisadores, após tanto tempo e dinheiro gasto, não nos dizem, de uma vez por todas, que eles descobriram, através de seus métodos puramente físicos, a causa desta doença? Se eles não o conseguem fazer, conlui-se que, ou todos são inconcebivelmente incompetentes, ou seus métodos estão errados. Procuram no físico o que não é físico.
  • Por que tantos problemas cardíacos?
  • Por que muitas coisas que servem como válvulas de escape, como a religião, não dão conta do recado e não reequilibram de vez as pessoas?
  • Por que tanta falta de esperança, justo num mundo onde já dispomos de uma tecnologia impressionante para nosso bem-estar, conforto e segurança?
  • Como podemos nos considerar evoluídos num mundo onde um bilhão de pessoas passam fome?

Não tenho dados, mas algo me diz que mais gente se mata hoje do que na idade média, apesar do conforto que a evolução científica trouxe para aqueles que podem se beneficiar dela. Esta opinião se baseia nos dias atuais, onde vemos jovens e crianças em uma país “desenvolvido” e tecnológico como o Japão se suicidarem deliberadamente e mendigos no Brasil não. A pressão externa, o estresse e o vazio existencial custam-nos mais do que a sujeira, as doenças e até mesmo a fome. Não esqueçam disso: vazio existencial. O vazio que esta cultura nos traz por nos encher de coisas e informações sem transformá-las em saber pela falta de algo (espiritual?). O vazio provocado pelos remédios anti-qualquer-coisa-que-nos-falta-ou-nos-incomoda que muitos tomam para suportar algo que já nem sabem mais o que é.

Sei perfeitamente que muitas pessoas parecem estar bem, mas não a maioria. E a sociedade como um todo também está muito doente. Moribunda até. Por que isso? Quem sabe não possamos colaborar em desvendar tão importante mistério?

O futuro da ciência.

A ciência aumentou nossa compreensão racional sobre o universo, incluindo a nós mesmos, e nos permitiu criar coisas que aumentaram nossa capacidade de ação em quase todas as áreas de nossas vidas. Com a ciência criamos um novo mundo para nós. A ciência nos deu poder, mas não podemos culpá-la pelas mazelas que aconteceram com o uso deste poder, pois isso é culpa de nossa imaturidade e conseqüente má intenção.

Sendo assim, o futuro da ciência depende de nós tratarmos de nosso futuro em termos de evolução pessoal. Precisamos amadurecer e nos tornar adultos. Antes disso, precisamos entender melhor o que é realmente ser adulto. Temos pressa, pois a situação já é crítica, já que existem muitas pessoas pouco evoluídas e com bastante poder em suas mãos, justo num mundo onde aqueles que ainda não se tornaram adultos fabricaram armas nucleares suficientes para destruir Júpiter.

Quanto a ciência em si, é necessário estendermos suas premissas cartesianas que se tornaram insuficientes para sustentar a realidade que ela própria nos mostrou. A ciência precisará se unir de alguma forma com o além físico (o espiritual?).

Se evoluirmos, creio que devemos continuar com a ciência. Não a ciência de hoje, mas uma mais efetiva e mais poderosa. Nossa ciência não é tanta para a idolatrarmos como costumamos fazer, mas apenas o início do que ela será. Não devemos nos subestimar, mas nos forçar a ir mais do que jamais fomos até agora. Mas, para isso, a ciência precisará ser mais abrangente, pois a realidade não se sujeita aos métodos cartesianos e hobbesianos. O próprio Francis Bacon, na definição de seus métodos de observação da natureza publicados em 1620 alerta: “A natureza supera em muito, em complexidade, os sentidos e o intelecto” (Novum Organum, livro 1, aforismo X).

Mas, esse acréscimo científico, além de nosso século é… pouco. Sim, pouco, pois a ciência é a parte menor de tudo. Nosso propósito é a evolução. Se cada um de nós não consegue melhorar sua moral, seu discernimento do importante, sua correção de conduta e sua capacidade de amar, então, o que significa o progresso científico?

Próxima parte.
Na segunda e última parte deste texto sobre ciência e espiritualidade abordaremos, é claro, o lado espiritual e a situação humana. Aguarde!! Voltaremos na próxima semana.

Referências:
NIETE: http://www.ufrgs.br/niete/
Francis Bacon: http://pt.wikipedia.org/wiki/Francis_Bacon_(filósofo)
René Descartes: http://pt.wikipedia.org/wiki/Descartes
Pierre Teilhard de Chardin: http://pt.wikipedia.org/wiki/Teilhard_de_Chardin
Thomas Hobbes: http://pt.wikipedia.org/wiki/Thomas_Hobbes

Bibliografia:

  • “Novum Organum”; 1620; Francis Bacon
  • “O Fenômeno Humano”; 1938-1940; Teilhard de Chardin; Editora Cultrix; 1ª edição de 1990

A Contribuição de Miles Davis – parte 1

Publicado em artes, bebop, drogas, história, jazz, liderança com as tags , , , , , , , às Maio 26, 2009 por Luciano Pillar

Este é um programa comemorativo ao aniversário de nascimento do músico Miles Davis, ocorrido no dia 26 de maio de 1926. Este programa está dividido em três partes e aqui você ouvirá a primeira delas.

Download (MP3 128k, 23.6 MB, 25:52 min.): clique aqui

Clique aqui para fazer download de uma versão menor do programa (MP3 96k, 17.7 MB)
As informações apresentadas foram todas retiradas de seu livro “Miles – The Autobiography” e a ênfase do programa, assim como do livro, foi dada à música e às drogas, mas, ao contrário do livro, não entramos em muitos detalhes sobre os músicos e amigos dele para não torná-lo excessivamente extenso. O tema de suas mulheres e família também não foi muito abordado. Nem o de sua vida sexual, algo que, segundo o livro, era de grande agrado de Miles e foi bastante aproveitada.

O programa é um enorme resumo de tão vasta e produtiva carreira e focaliza nos ensinamentos de vida que podemos tirar desta grande presença humana. Como tudo em TRINK, vamos filosofar e vamos aprender com o que vemos. Vamos, como de costume, TRINKar a realidade, agora através de Miles.

So, let´s TRINK!

Referências.

Livro:
“Miles – The Autobiography”; Miles Davis with Quincy Troupe; Touchstone; 1990.

Músicas e discos (na ordem em que aparecem):
Fonte: http://www.milesdavis.com/music_discography.asp

Álbum Decoy (Columbia FC 38991) (1983)

  • What it is

Álbum Bird & Miles (1945 ?)

  • Scrapple From The Apple
  • Donna Lee
  • Moose The Mooche

Álbum Birth of the Cool (Capitol T 792) (1949)

  • Moon Dreams
  • Venus de Milo
  • Jeru
  • Darn That Dream

Álbum Bags’ Groove (Prestige PRLP 7109) (1954)

  • Bags’ Groove (Take 2)

Álbum Blue Moods (with Charles Mingus) (Debut DEB 120) (1955)

  • Nature Boy
  • Alone Together

Música de fundo nos comentários TRINK:

Álbum Aura (Columbia C2X 45332) (1985)

  • White
Miles adolescente em St. Louis. MilesStLouis1
Na orquestra de St. Louis. MilesStLouis2
Em Nova Iorque no Three Deuces. Bebop com Charlie Parker (Bird). NYCBebopAtThreeDeuces1
A noite e o jazz na Nova Iorque da década de 40. NYCJazz40s
Tocando o bebop com Bird (Charlie Parker) (1945 e mais). BirdMilesBebop
Miles na época da criação do Cool Jazz. BirthOfCoolMiles
Gravação do álbum Birth of Cool. (1949) BirthOfCool1

A construção das verdades do povo

Publicado em Jesus, catolicismo, católico, comportamento, ecologia, ecossistema, , religião, sociedade com as tags , , , , , , , , às Maio 7, 2009 por Luciano Pillar

A Terra gira em torno do Sol. Você acredita nisso? Precisamos consumir sempre e essa é a saída para a crise econômica. Você acredita nisso? Quais as diferenças das duas afirmações anteriores? E quem as declarou a você?

O heliocentrismo

Vamos à primeira assertiva. O fato da Terra girar em torno do Sol é uma verdade comprovada e aceita. Mas, e se lhe dissessem que é o Sol que gira em torno da Terra? Você acreditaria? Pois muitos já aceitaram ser verdadeira esta segunda versão da natureza de nosso sistema solar. E não pense que eles eram menos inteligentes do que você. Uma breve exposição sobre fatos históricos pode nos ser útil para vermos, por um lado, como obtemos conhecimento sobre a verdade e, por outro, como impomos uns aos outros crenças nem sempre baseadas nela. Pela observação, pelo intelecto e pela intuição tornamos-nos conscientes da realidade, mas, para atender outros interesses, normalmente a manutenção do poder de alguns, também defendemos mentiras como se fossem verdades aos olhos do povo, para mantê-lo ignorante e preso aos que detêm o poder.

Todos sabemos que a Terra gira em torno do Sol. Esta é uma verdade que se apresenta como um fato observável. Mas esta realidade nem sempre foi conhecida. E nem sempre desejada. Do que sabemos sobre a história ocidental (greco-romana-européia), atribui-se ao astrônomo e matemático polonês Nicolau Copérnico (1473-1543) a descoberta de que a Terra gira em torno do Sol (heliocentrismo) e não o contrário (geocentrismo). Mas tal descoberta não foi prontamente assimilada, pois, na época, a Igreja Católica aceitava essencialmente o geocentrismo aristotélico. Como a “verdade” de então era grandemente ditada por esta igreja, toda manifestação de saber precisava passar por seu crivo. Desta forma, temos pelo menos um milênio de construção de verdades por esta instituição que, usando de seu poder político e da intimidação pelo terror para pregar o que lhe convinha, adestrou a todos conforme seus próprios interesses.

De forma bastante sucinta, vejamos como esta igreja manteve por mais algum tempo o geocentrismo na posição de verdade para evitar ir contra alguns textos bíblicos. Copérnico publicou sua visão no seu livro “De revolutionibus orbium coelestium “ (Da revolução de esferas celestes) durante o ano de sua morte, em 1543. Em 1616, ele entrou para o “Index librorum prohibitorum” (Índice dos livros proibidos), um livro que continha uma lista de todos os livros proibidos aos católicos e mantida pela “Santa” Igreja Católica até, pasmem, 1966. Esta demora para a proibição do livro de Copérnico só aconteceu porque o prefácio do livro, endereçado para o papa Paulo III, dizia que todas as afirmações ali contidas não passavam de hipóteses.

Mais tarde, Galileu Galilei (1564-1642), um físico, matemático, astrônomo e filósofo italiano que, entre várias descobertas e invenções, desenvolveu melhor o telescópio refrator e fez grandes evoluções no conhecimento astronômico. Galileu defendia o copernicanismo e, italiano que era, vivia próximo da Cúria Romana. Isso lhe rendeu alguns problemas e, em 1633, foi preso pela Inquisição, pois suas teorias contradiziam a visão tradicional do universo e a doutrina cristã. Fez seis viagens a Roma para ter audiências com seu amigo particular Maffeo Barberini, então papa Urbano VIII. Foi submetido a extensos interrogatórios, acompanhados de torturas. Torturado aos setenta anos de idade a mando de “religiosos”. Retratou-se e foi obrigado, vestido como um penitente, a recitar e assinar publicamente esta confissão:

“Eu, Galileu, filho de Vicente Galilei de Florença, com a idade de setenta anos, juro que sempre acreditei, acredito agora e com a ajuda de Deus acreditarei no futuro em tudo o que sustenta, ensina e prega a Santa Igreja Católica e Apostólica… intimado juridicamente por este Santo Ofício a que deixasse completamente a falsa opinião de que o Sol seja o centro do mundo e que não se mova, e de que a Terra não esteja no centro e que se mova… com o coração sincero e fé não fingida abjuro, e amaldiçôo e detesto os erros e heresias acima…”

Como vemos, a própria história nos mostra aspectos da natureza humana de formas tão absurdas que não haveria como imitá-las na ficção. Uma mentira pode ser imposta por qualquer um que tenha poder, até mesmo por uma instituição religiosa que se diz agir em nome de Jesus. Tal igreja usou de cruéis torturas contra um sábio e cientista de setenta anos de idade para impor sua vontade. E a igreja que se dizia portadora das verdades de Deus era chefiada, na época, por um papa (Urbano VIII) que não foi exatamente um exemplo de pessoa honesta, pois ele foi o último papa a praticar em grande escala o nepotismo (houve anteriores), já que vários membros da sua família foram amplamente enriquecidos graças a ele. Torturando e calando muitos para enriquecer poucos. A velha fórmula de ação humana. Será que Jesus agiria assim? Outro que foi queimado vivo em 1600 por não se retratar de suas críticas à igreja foi Giordano Bruno (1548-1600). Ele ousou dizer que pretendia uma reforma no próprio poder. Com tal pretensão, ele atacou o âmago da questão de tantas “verdades” falsamente construídas pelos poderosos e, literalmente, se queimou.

O dever do consumo

Vamos agora à segunda afirmação: precisamos consumir sempre e essa é a saída para a crise econômica.

Ora, é óbvio que precisamos de alimentos, casas e coisas para vivermos confortavelmente. Mas também é notório que estamos exagerando, pois produzimos e consumimos muito mais do que o necessário. De fato, tornou-se tanta a nossa necessidade de ter mais coisas que, mesmo criando graves problemas ambientais com a extração de matéria-prima e com a produção de lixo, continuamos sempre insatisfeitos. E há ainda o outro fator que gera um terrível problema social: o custo das coisas. Tudo existe se pagarmos pelo direito de termos sua posse. Mas, normalmente, muitíssimas coisas estão acima de nossa capacidade financeira, mas não de nosso desejo de possuir. Enfim, criamos um mundo desequilibrado que nos torna eternamente insatisfeitos. E de onde vem nossa vontade de comprar? De dentro de cada um de nós? Ou, inicialmente, de poucos que, com o tempo, gerando uma reação em cadeia, fizeram com que todos também gerassem esta necessidade uns nos outros?

Os nossos desejos ilimitados são implantados, muitas vezes, de forma grosseira e rudimentar. Uma verdadeira ofensa à inteligência de poucos, mas digerível pelo adormecido intelecto de muitos. Por enquanto, tais mentiras parecem até verdade ao cidadão tornado cego. Veja só, como exemplo, uma notícia que li no caderno Dinheiro do jornal Zero Hora de Porto Alegre, publicado em 12/04/2009. O título era “A crise não tira o sorriso brasileiro” e a mensagem era de que o consumo é o antídoto para a crise financeira, ou seja, uma chamada a todos ao seu papel de consumidor. Fotos de pessoas comuns, com quem todos se identificam, mostram-nas sorridentes, esperançosas e felizes. A notícia exalta que “ao colocar projetos de vida em primeiro lugar, esses brasileiros seguem consumindo, sem se deixar atingir pelas incertezas da economia”.

crisesoriso

Como efeito colateral desta chamada ao dever consumista do rebanho, vem a idéia de que o brasileiro é otimista e feliz, jamais deixando-se abater pelos problemas da vida. Um povo capaz de dar um jeitinho em tudo. Com o tempo, um povo capaz de viver sua miséria de forma alegre e sem capacidade de reação. Isso não é interessante para alguns? Milhões de pessoas que, além de colocarem seu dinheiro no mercado e em impostos com destino nem sempre voltado ao pagante, são, em sua maioria, incultos sorridentes que jamais reagem diante das injustiças a que são submetidos. Se existem paraísos fiscais, porque não podem existir também paraísos de impunidade para bandidos? Pois assim, com tais mensagens enviadas por esta mídia tendenciosa, toda uma população passa a crer no seu dever de consumo, de alegria e de eterno e incondicional perdão a seus malfeitores.

Conclusão

Atualmente quase todos acreditam que têm o dever de consumir, mas, assim como hoje estes mesmos tomam por estúpidos aqueles que há 500 anos acreditavam que o Sol girava em torno da Terra, daqui a menos de 500 anos nossos descendentes também considerarão idiotas os consumidores compulsivos de hoje. Estarão nossos tataranetos errados?

O cidadão comum crê e vive no que os outros acreditam. Sua visão e percepção do mundo restringe-se ao padrão usual. A pessoa comum não consegue, e nem tem a consciência de desejar, ver a realidade desta existência e do universo do qual fazemos parte. A visão, a percepção do mundo e de si e, conseqüentemente, a própria vida, limita-se apenas ao padrão corriqueiro do grupo em que vive. E, pior, algumas destas pessoas de mundo limitado, por conseguirem o poder financeiro para satisfazerem sua necessidade de consumir mais do que a média e, assim, demonstrarem superioridade em relação aos demais, acabam gostando de suas próprias limitações. Mas, o tempo é longo e tudo passa. Mas, a verdade existe e é soberana. Mas, existem aqueles que vêem e não podem ser detidos pela cegueira da maioria. Mas, com o tempo, até os pequenos terão chances de crescerem. Crianças crescem. Crianças, cresçam logo, por favor!

É fácil ver os absurdos e as mentiras que fazem parte das vidas dos outros. É fácil ver a aparência externa de uma casa se a vemos de fora, mas se estamos dentro dela nossa visão fica presa ao seu interior. Se estamos dentro de uma cultura social, nossa percepção da realidade tende a se restringir às verdades desta sociedade, por mais absurdas que possam parecer para quem as vê de fora. Porém, como temos uma percepção capaz de ir adiante do que vemos, torna-se claro que, se houver vontade de nossa parte, podemos buscar os recursos necessários para ver mais. Ver ou perecer, uma necessidade evolutiva. Não descobrimos que a Terra se move e que ela gira em torno do Sol? Não fomos até o espaço? Então, será tão difícil assim percebermos que nossas verdadeiras necessidades não são vinculadas ao consumo? Podemos e devemos ultrapassar a falsa crença em nós e por nós incutida de que somos um mero rebanho destinado a consumir sempre para mover a roda da economia que inventamos.

Por que abandonar o consumo ilimitado como um fim em si? Responda por você mesmo.

Referências:

http://pt.wikipedia.org/wiki/Copernico

http://pt.wikipedia.org/wiki/Galileu_Galilei

http://pt.wikipedia.org/wiki/Papa_Urbano_VIII

http://pt.wikipedia.org/wiki/Giordano_Bruno

Livro “A ciência através dos tempos”; Attico Chassot; Editora Moderna; 2ª edição, 16ª impressão; 2004

Paredão Final no Big Brother Brasil

Publicado em TV, comportamento, reality show, sociedade com as tags , , , às Abril 3, 2009 por Luciano Pillar

Prova de liderança para o telespectador BBB (e curiosos)

  • Ler este texto até o fim
  • Entendê-lo
  • Pensar nele
  • Opinar.

Fácil demais para quem sabe julgar pessoas, uma capacidade nata de todos os que acompanham o BBB e torcem pelos seus jogadores preferidos.

BBB para quê?

Espiar. Fofocar. Julgar. Participar. Sonhar. E o que mais? O que espera o espectador do teatro pseudo-real Big Brother Brasil? E qual o interesse de quem criou e está mantendo o espetáculo?

Definindo o BBB

Para os leitores que vivem fora do Brasil e da Rede Globo de Televisão, saibam que o Big Brother Brasil, ou BBB, é um “reality show” televisivo apresentado pela citada emissora aqui neste país. Por reality (realidade), entenda-se apenas um teatro sem um roteiro totalmente fixo. Este termo não deve ser confundido com realidade, pois de real o BBB não tem nada.

Estes são os atores do BBB:

  • alguns jogadores, também conhecidos por brothers;
  • um apresentador;
  • os profissionais que mantêm o show em funcionamento;
  • os comandantes, que são os criadores e os patrocinadores do programa;
  • os telespectadores, que são o objetivo final de tudo, pois são estes que serão (des)educados e ainda terão a oportunidade de pagar a conta.

Basicamente, no BBB os telespectadores assistem o programa e se anestesiam da vida real, os comandantes os adestram e colhem os frutos materiais e sociais que lhes interessam e ambos perdem tempo e se prejudicam.

Comentando o BBB

Para melhor visualizarmos a mensagem deste texto, farei uma breve analogia entre os papéis dos telespectadores e dos comandantes com os de um cão doméstico e de seu dono. Usarei um exemplo prático.

belinhaTenho uma cadelinha (servo) e ela anda solta na rua. Ela é muito educada, segundo o meu ponto de vista (comandante), e atende facilmente aos comandos NÃO, VEM e PÁRA. Com isso, ela ganhou a liberdade de andar solta, privilégio de poucos cães domésticos. Tal adestramento foi fácil, pois dei-lhe o sentimento de liberdade, onde ela pensa que faz o que quer. Também lhe dei sincero carinho e a recompensei toda vez que ela obedeceu aos meus comandos (ferramentas). Ela tem a liberdade limitada de ir onde quiser, desde que no caminho por mim definido, de cheirar quase tudo o que desejar e de confraternizar livremente com outros de sua espécie. A intenção, no caso, é boa para a saúde dela, pois moramos em uma cidade com um trânsito que mata cachorrinhos desavisados. Mas, como conseqüência, reparei que ela anda sempre na calçada e cuidando onde estou. Ela está condicionada a isto, o que significa que sua visão de mundo e suas ações estão presas a esta “verdade”.

O que temos aqui? Um comandante, um servo, as ferramentas de adestramento, as intenções do comandante e os mundos de ambos.

Transcrevendo isto para o mundo humano, quem são os comandantes? Quem são os servos? Quais os propósitos e as intenções dos chefes, que acabam impondo as regras? Que recursos estes utilizam para manterem os servos nesta posição? Qual a percepção de mundo de ambos?

Seja qual for o lado do ator, ele acabará preso a sua visão de mundo. Esta visão engloba seus valores, suas crenças e suas idéias que, pelo que veremos, não são realmente bem suas. A visão também define o que pode e o que não pode ser visto, pois, qualquer fato que esteja em desacordo com ela, é ignorado ou simplesmente não é visto. A visão do povo é construída pelos comandantes e, no caso de nossa sociedade, ele tem a sensação de ser livre e dono de seus pensamentos. A pior prisão é a de quem não sabe que está preso.

Voltemos ao mundo fictício-tornado-real do Big Brother. O BBB é um dos recursos dos comandantes. Uma ferramenta de trabalho deles. É o biscoito e o agrado que o dono do cão lhe dá cada vez que ele obedece. É um mecanismo para ajudar a criar no servo sua visão de mundo supostamente livre, um mundo onde ele provavelmente viverá até o fim de seus dias. Se o trabalho for bem feito, o subordinado chegará a acreditar que ele mesmo é o proprietário de suas idéias.

Como começa o adestramento BBB? Assim como o do cão, com a compreensão da natureza daquele que será adestrado. Para doutrinar profundamente, o comandante deve ser capaz de se comunicar com seu futuro servo numa linguagem que este entenda. Ele também deve ser visto, sempre, como um amigo.

Então, a primeira pergunta é: o que querem e precisam as pessoas? Entre outras, salta a vista a necessidade de esperança, de felicidade, seus desejos de serem importantes e de influírem no seu mundo. Se puderem, ainda, serem conhecidas e terem poder sobre os outros, o quadro está completo. Ah, em primeiro lugar viria o amor, mas este é um sentimento profundo e que acaba revelando as verdades de nossas vidas. Além disso, ele não pode ser simulado ou falsamente criado. Assim, com este o BBB não se ocupa, mas o troca, convenientemente, pelo prazer.

Então, considerando as necessidades dos adestrandos, a ferramenta BBB, seja para o que venha a ser utilizada, deverá dar-lhes esperança e a sensação de que suas opiniões fazem alguma diferença no resultado final do mundo. Ora, todos podem votar e decidir (pagando, é claro). Todos podem se candidatar a uma chance de entrar na casa e serem famosos e, quem sabe, ganharem dinheiro. As chances disso existem, apesar de irrisórias, mas, não importa, estão ativadas as esperanças de muitos servos. O treinamento poderá ser eficiente.

O BBB precisará de um caminho de entrada para os que serão submetidos. Por que não usar a necessidade nata destes observarem escondidos a vida alheia. Dar-lhes a chance disso e de fazer fofocas, julgamentos e condenações é um recurso poderosíssimo. Azar é deles se esta é justamente uma característica humana que deve ser superada em nome do verdadeiro objetivo de vida de cada um, a evolução pessoal. Tanto melhor que não evoluam, pois serão melhores servos assim como estão.

Assim, o BBB, propositadamente, atiça ao máximo os adestrandos a se meterem em assuntos alheios e a sonharem e pautarem suas vidas a partir das vidas de outros. Não é difícil colher um público num mar de pessoas cansadas de seu cotidiano, muitas vezes vazio e sem sentido. Devido as suas próprias e graves carências, atiram-se em acompanhar histórias de vidas alheias que os ajudem a fugir das suas. Os BBBs e as novelas televisivas são pratos cheios. Poderiam ser úteis, dependendo de qual a intenção dos seus criadores. Mas eles têm outros planos.

Quando o método de adestramento BBB entra em cena, ele propicia ao espectador ver gente jovem convivendo numa casa colorida que vai, constantemente, sendo modificada em sua aparência e conteúdo. Dos jovens esperam sempre alguma cena de sexo. Jovens tetudas que podem a qualquer momento serem bolinadas pelos rapazes é algo de grande interesse. Gente pelada. Gente trepando embaixo das cobertas. Só isso já é uma razão total para muitos dos observadores. E o que dizer das festas, e dos músicos e famosos que por lá aparecem? E dos joguinhos propostos pelo apresentador, estúpidos ao extremo, mas capazes de alegrar a muitos? Ah, que sonho de vida! Como é bom ser rico e jovem! Inconscientemente, todos acabam por se imaginar neste ideal inalcançável de vida. E, enquanto tudo isso acontece, a vitrine vai mudando, expondo constantemente produtos e conceitos para que um povo sedento e de vida incompleta possa aprender o que precisa para, supostamente, ser feliz. Tendo este carro eu fico importante e como estas meninas, entende o subconsciente de muitos. Sendo o consciente da maioria mal formado, está feito o adestramento. É fácil.

Imagine se os brothers fossem mais maduros e cultos. Imagine se, em vez de apenas se dedicarem ao jogo e à perseguição do seu prêmio financeiro, tivessem consciência de seu poder de influenciar milhões e boas intenções a respeito disso. Imagine se tivessem condições de ajudar a todos estes telespectadores a abrirem seus olhos. Isso poderia ter alguma utilidade real de vida, não é mesmo? Mas, de que serviria aos patrocinadores? Questionar, ajudar as pessoas a observarem e pensarem, aguçar a curiosidade de todos sobre os reais motivos de suas infelicidades para quê? Educar para quê? Para fortalecer o país? Mas, se quem manda nele é pequeno e pode enriquecer com as coisas do jeito que estão, então a educação deve ser combatida e não incentivada.

E assim vai o barco. Valores inalcançáveis para vidas vazias de cultura e história. Drogas, lícitas ou não, sexo e BBB para todos ficarem tranqüilos, passivos, burros e obedientes para estar moldada uma massa de gente adestrável.

Mas, qual o interesse de quem criou e está mantendo este espetáculo? O que querem os comandantes? E quem são eles?

Os comandantes não são um nem dois. São vários. Vários poderosos e várias corporações multibilionárias. A culpa é dividida e, assim, ninguém é culpado. Conveniente, não? Mas eles, pessoas como são, também ficaram presos ao que precisam manter e que, no fim, tornou-se seu mestre. Ricos e espiritualmente atrasados, também são meros servos e nem mesmo sabem disso. Ou não querem saber, embriagados que estão por seu suposto poder, conforto e riqueza material. Estes são servos de suas vaidades bem nutridas por fartos recursos terrenos. E são pequenos e fracos espiritualmente. Suas chances são, assim, reduzidíssimas de saírem do buraco, pois nem se acham num buraco. E comandam muitas coisas. Isto explica muitas coisas incríveis, como a fome e a miséria de milhões sendo mantida e, a um custo financeiro muito maior, corporações sendo salvas de uma crise financeira. Perigoso, não? Mas este é assunto para outro texto.

O que querem os adestradores? Manter um rebanho sob controle. Ovelhas eternamente dependentes e não educadas, seres humanos incompletos que jamais possam atingir sua maturidade e que possam produzir bens e riquezas. Produzem e consomem. Consomem e produzem. E são sempre guiados e roubados. Sempre foram, são e serão roubados. Suas vidas são roubadas. Sua chance de crescer e evoluir mais integralmente nessa vida é roubada. E seus bens também, objetivo máximo dos pequenos comandantes que, sem que saibam, também estão sendo roubados, exatamente da mesma forma e nos mesmos itens que os subordinados. Que perigo. Que estúpido.

Então, temos um quadro de interesses que fazem o tal BBB ser mais um poderoso recurso de antieducação das massas. Veja o que ele fez até com seu apresentador, uma pessoa com alguma cultura e experiência de vida. Entorpecido por sua vaidade de fama e dinheiro, transformou-se num idiota. Chega até a crer que os participantes são heróis. Como não é ator, sua falsidade transparece. Seus falsos sorrisos são ofensivos. Mesmo assim, parecem gostar dele.

Há que se cuidar. Como dizia o jornalista Paulo Francis (1930-1997): “Quem não lê não pensa, e quem não pensa será para sempre um servo”.

Então, se “quem não pensa será para sempre um servo”, a ordem parece ser: “destrua o pensamento”. BBB neles!

Ops, em tempo: mas o BBB não tem nada de bom? Tem, pois mostra que as pessoas podem conviver bem, serem razoáveis umas com as outras e se ajudarem no que for preciso, por algum tempo, se forem obrigadas a isso. A convivência também cria vínculos afetivos que podem levar ao amor. Logo, nós temos em nós mesmos as condições de sermos razoáveis e, assim, de irmos para frente.