O cara desce na estação do metrô de Washington DC, EUA, vestindo jeans, camiseta e boné, encosta-se próximo à entrada, tira o violino da caixa e começa a tocar com entusiasmo para a multidão que passa por ali, bem na hora do rush matinal.
Durante os 45 minutos que tocou, foi praticamente ignorado pelos passantes, ninguém sabia, mas o músico era Joshua Bell, um dos maiores violinistas do mundo, executando peças musicais consagradas num instrumento raríssimo, um Stradivarius de 1713, estimado em mais de 3 milhões de dólares. Alguns dias antes Bell havia tocado no Symphony Hallde Boston, onde os melhores lugares custam a bagatela de 1000 dólares.
Entrevista
Uma breve entrevista com o amigo que me indicou este vídeo. Ele atende por Odi.
Você acha que as pessoas deveriam ter notado a presença deste virtuose numa estação de metrô?
Odi: Depende. Muita gente não conhece música clássica, por uma questão de gosto ou simplesmente de refinamento musical. Os clássicos, convenhamos, representam uma linguagem mais complexa, e em geral exigem uma preparação prévia para serem apreciados; quero dizer, a pessoa precisa ter ouvido coisas menos complicadas e ir educando o ouvido aos poucos. Alguns temas clássicos são mais diretos e universais, todo mundo gosta, mas tem coisas que não são para qualquer um. Garanto que se ele tivesse tocado aquele movimento da 9ª do Beethoven todo o metrô iria parar, porque quase todo mundo conhece, além de ser uma música muito mais fácil de se ouvir. Tocando esse troço aí, quase tudo em tom menor, um tema pesado, conflituoso, tá na cara que só aquela mulher que o reconheceu do teatro iria apreciar, justamente porque ela era uma iniciada. Para todos os outros, é como se ele estivesse falando em húngaro. Podia ser uma poesia linda, mas ninguém iria entender nada, a não ser que fosse húngaro.
Este vídeo só foi feito porque acreditamos que alguém que já tenha algum status deve ser reconhecido sempre. Ninguém filmaria um violinista qualquer tocando para ganhar algum dinheiro. Por que será que o reconhecimento é tão importante assim para nós?
Odi: Esse vídeo foi feito porque os caras do Washington Post queriam demonstrar que ninguém presta atenção em mais nada. Como bons jornalistas, armaram um cenário para ilustrar algo que eles já tinham uma resposta. Quem já foi entrevistado, ou assistiu a uma entrevista antes de ser editada, sabe que o jornalista faz dezenas de perguntas, e depois escolhe aquelas que mais se aproximam com o clima da matéria que ele está escrevendo. Levam o leitor a cabresto exatamente aonde eles querem, e lá no finzinho o soltam, deixando a impressão de que foi ele, leitor, quem chegou àquela brilhante conclusão. Típico de jornalistas.
Parece que o simples fato de uma pessoa ser muito boa em qualquer área não tem relação alguma com reconhecimento. O contrário também parece ser verdadeiro, já que reconhecemos muita gente sem valor maior do que o comum.
Odi: Ok. Reconheceria o Tiririca ou o Ratinho, se os visse na rua. Einstein é reconhecido não só como cientista, mas como um dos grandes pensadores do nosso tempo. Reconhecer pessoas ou fisionomias é diferente de reconhecer valores.
Se não notamos um excepcional músico tocando para nós num momento e local inesperado, possivelmente estejamos também deixando de notar muitas coisas importantes ao nosso redor. Talvez fosse interessante prestarmos um pouco mais de atenção ao que nos cerca, além do que esperamos ver numa dada circunstância, e, as vezes, parar um pouco para observar. Não seria uma boa idéia?
Odi: Sem dúvida. Se conseguíssemos fazer a nossa cabeça parar, nem que fosse por alguns segundos, teríamos uma verdadeira revelação. Veríamos o nada. E depois do nada, nos daríamos conta de que cada pedra, poste ou tijolo na nossa frente é realmente maravilhoso; em seguida, não seria possível descrever em palavras uma árvore ou uma criança brincando, tal o nosso deslumbramento com algo que é.
Pensemos um pouco no outro lado da moeda. Ninguém espera ver um Joshua tocando de graça numa estação de metrô num horário feito para outras atividades. Então ninguém o vê, pois estão presos aos ditos horário e atividades. Será que o mesmo fenômeno não acontece num de seus recitais? Ali a atividade é de cunho artístico e social. Neste tipo de evento, especialmente com convites caros, acho que o lado social é bastante saliente, talvez até mais do que o artístico. Neste caso, será que não há o risco do músico deixar de ser notado da mesma forma, mesmo que todos aparentemente estejam atentos? (tenho a impressão de que, pela experiência musical da maioria, muitos nem tem condições de notar a diferença entre este violinista e outro menos capacitado).
Odi: Parece que vivemos em estados momentâneos. Em cada um deles, algumas coisas fazem parte e o resto não. Tendemos a não ver o resto.
Se notássemos a presença de tudo o que nos cerca, será que conseguiríamos fazer o que temos para fazer no momento?
Odi: Aqui temos o problema do contexto. Concordo, vivemos num mundo compartimentalizado demais, tudo tem hora e lugar certos para acontecer. Mas isso não é de todo ruim, é uma questão de usar a dose adequada. Gostamos e precisamos de uma dose de surpresa e inesperado na nossa vida, mas não demais. Seria muito difícil de agüentar uma vida em que nunca soubéssemos o que nos espera no momento seguinte. Como vivemos num mundo (urbano) repleto de estímulos, tentamos nos proteger, isolando aquilo que está fora do lugar ou não nos diz respeito. Trata-se de uma mecanismo de defesa básico e muito útil. Lógico, isso tem um preço, às vezes deixamos de ver algo bonito, mas fica barato quando vemos que o que está em jogo é a nossa sanidade mental.









ótima matéria. é bem veradde que os valores passam normalmente despercebidos pela maioria. nas artes isso é muito evidente, mas um dia, acredito, ainda iremos saber ouvir, olhar, sentir e apreciar as coisas pelo valor genuíno delas. parabéns pela revista, já sou leitora-fã.
Oi Silvana.
Também acho que um dia veremos realmente o que nos cerca, perceberemos a arte verdadeira e identificaremos os aproveitadores que se dizem “artistas”. Um dia cresceremos e perceberemos as pessoas que nos cercam. Saberemos para que vivemos, o que deve ser valorizado e não perderemos mais tempo perseguindo o que até os chimpanzés já perseguem hoje. Um dia não seremos mais crianças. Então, desse dia em diante, o Homo evoluidos dominará a Terra. Daí em diante, nos amaremos de verdade e teremos efetivamente deixado para trás a condição de grande primata.
Quantas vezes andamos pelas ruas e vimos e ouvimos artistas maravilhosos, anônimos, tocando em instrumentos tão diversos e estranhos músicas tão divinas. Às vezes, instrumentos fabricados por eles mesmos e músicas também compostas por eles.
Outro dia, eu meu marido e minha filha, vimos e ouvimos uma menina, recém passada da adolescência, tocando em uma espécie de gaita muito antiga músicas que a nós pareciam saidas da Idade Média. Ela estava, na rua, sentada em um banco minúsculo.
Era de manhã, por volta das 10 horas e estávamos em um café ouvindo-a encantados. Pensei e falei para os meus: – Vamos dar a ela algumas moedas. Ao que minha filha respondeu: – Ela não precisa de moedas, está tocando por que gosta.
A questão que coloco é esta:
Sabíamos que ela não era alguém famoso e que tocava por prazer.
Logo não estava ali para ser reconhecida. Igual a tantos outros anônimos e sublimes que ouvimos de passagem.
Então porque o ilustre famoso do mêtro da capital norte-americana que tocava um stradivarius carésimo deveria ser melhor acolhido pelos humanos acostumados a ouvirem pelas ruas anônimos tocarem músicas divinas em instrumentos modestos?
Hehehehe…
Parabéns, pela EXCELENTE postagem!!!
Valeu & at+
Obrigado Van Hendrix.
At+
De nada, Luciano… eu q agradeço.
Mantenha o blog funcionando… e ativo.
Retomando o assunto:
O acesso à toneladas de informações não garante a capacidade de apreciar e julgar qualidades (com razoável senso crítico).
Pérolas, sem embalagem de pérolas, não são pérolas…
Viva o mainstream!
Ok Van Hendrix,
Vou continuar TRINKando da melhor forma possível.
As toneladas de informações nos mostram coisas boas dentro de uma montanha de lixo. E para peneirar isso?
Veja só, VH era o símbolo do Van Halen. E o Hendrix; bem, este era outro brilhante gênio da música. Você está bem de parentesco hein?
Citando Luciano Pillar:
“As toneladas de informações nos mostram coisas boas dentro de uma montanha de lixo. E para peneirar isso?”
O Golbery (de triste memória) disse, certa vez, q era + instrutivo ler jornais e artigos “mentirosos” e “facciosos”, pq continham, no mínimo duas verdades: a primeira, era o contrário do q estava escrito e a segunda, era a intenção por trás da manipulação dos fatos.
Sobre os “guitar heroes”, vou esperar tu postar algo s/ o assunto para não incorrer no crime do off topic… hheheehhe
Valeu & at+
o metro nao e de nova york , e sim washington .
Obrigado Roberto, você tem razão. Já fiz a correção necessária neste post.
Um abraço.
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