Encontrei vários brasileiros grosseiramente espalhafatosos em Punta del Este, Uruguai, neste fevereiro de 2009. Melhor dito, eles se fizeram encontrar por qualquer um que se aproximasse através de suas vozes. Eles falavam alto. Muito alto. Inconvenientemente alto. Seus assuntos giravam em torno dos lugares em que tinham ido, o quanto gastaram e os preços das coisas. Eles chamaram a atenção porque eram os únicos a se comportar assim.
Ao observá-los, notei que se sentiam importantes e eram bastante pedantes. Pareciam sentir-se superiores. É incrível o poder da imaginação, não é mesmo? Ao ouvir a opinião de amigos uruguaios, argentinos e brasileiros, descobri que todos tiveram uma péssima impressão destes gritões e viram, em toda sua ostentação, nada além de vulgaridade, falta de educação e mesquinharia. Para completar, seu constrangedor comportamento fez com que outros brasileiros que lá estavam passassem vergonha, pois podiam ser confundidos com esta gente apenas por serem da mesma nacionalidade. Isso eu sei por ser um destes que se sentiram constrangidos e pelos comentários de outros que conheci.
Mas deixe-me contar-lhes o que exatamente os vi fazendo. Já sabemos que falavam demasiadamente alto. Acrescento que só falavam em português puro, inclusive com os uruguaios. Ora, como nós é que estávamos na casa deles, por educação espera-se que, na posição de visitantes, tentemos ter algum interesse em nos expressar em seu idioma. Tenho certeza de que estes mesmos brasileiros tentariam arriscar o francês se estivessem na França ou o inglês se estivessem na Inglaterra. Obviamente respeitam mais os europeus, talvez por acharem-nos superiores. Já vi muitos falando apenas em inglês no Brasil quando recebem europeus ou estado-unidenses em solo brasileiro. Para estes baixam a cabeça em sua própria casa e mostram aos seus conterrâneos que falam outra língua e conhecem gente de fora. Sendo assim, talvez falar português no Uruguai demonstre que consideram os uruguaios inferiores e que serem vistos falando na língua da grande potência sul-americana (será?) possa, de alguma forma, inflar seus egos. Estarei errado? Talvez na minha interpretação, mas não na descrição destes fatos já observados. Fatos são fatos.
E por onde andava esta turma em Punta? Um de seus destinos preferidos eram os grandes supermercados e shoppings da moda. Estas pessoas gostam de passear, comprar e se exibir nestes lugares com toda a família, mas não espere vê-los simplesmente fazendo as compras habituais nos pequenos supermercados de uruguaios para uruguaios em Maldonado, simpática cidade vizinha de Punta. Aparentemente, para eles ir ao super é um programa social onde conseguem, com a gritaria que fazem, transformar um simples supermercado num circo que só tem palhaços. Sei que isso é tão ridículo que beira o inacreditável, mas, creia-me, não tenho criatividade suficiente para inventar algo assim. Só mesmo a realidade e algumas de suas pusilânimes criaturas para criarem uma situação destas.
Eles também gostam da península, a Punta propriamente dita. Lá é chique. O porto com seus iates, a av. Gorlero, restaurantes com vista para o mar e seus transatlânticos ao fundo. Mas o elegante virou, sob a ação destas criaturas, mais um palco circense. Um dia vi algumas conterrâneas tomando champanhe no porto e assistindo ao pôr-do-sol no mar comportando-se, é claro, como espalhafatosos galináceos. A gritaria e as fotos eram tantas que o sol e o mar passaram para segundo (ou terceiro) plano. Era hilário, pois, com exceção delas, todos estavam calmos enquanto assistiam o ocaso de nossa estrela ou simplesmente passeavam por ali. Ora, tomar champanhe, ver o pôr-do-sol e ficar num lugar belo é, sem dúvida, bom. Mas é fácil notar quando não é isto o que está acontecendo. O jogo ali era outro. Não posso imaginar aquelas mulheres, todas cor de laranja, com cabelos amarelos, peitos de plástico e vestidas apenas com roupas de grife, fazendo o mesmo em Mariscala, uma pequena cidade não turística no interior do Uruguai cercada por belíssimos morros de pedra. Para essa gente, cujos sonhos podem não ultrapassar serem ricos e famosos o suficiente para serem convidados a ir na Ilha de Caras, fotos em lugares desconhecidos nada significam.
Por que será tão necessário mostrar-se aos outros? Qual o motivo de contar a todos sobre os lugares visitados e o quanto dinheiro se gastou? Por que muitos se vestem com roupas de algumas poucas marcas? Por que é importante se ter coisas sabidamente caras e poder mostrá-las aos outros? Mesmo sem responder estas questões, sabemos que elas abordam atitudes comuns a muita gente e não apenas àqueles brasileiros que encontrei em Punta. E é interessante notar que, apesar de este ser um comportamento indiscutivelmente tolo, normalmente não encaramos desta forma. Como poderia ser diferente, já que a busca pela superioridade social é habitual (e confundimos habitual com correto)? Mas, seja como for, trata-se de fato indiscutível que agir assim é uma estupidez. Conseqüentemente, através de uma lógica pouco complexa, constata-se que as pessoas são estúpidas ao agirem desta forma. Isto deve significar que elas são pouco evoluídas. Outro fato que leva a esta conclusão é que a competição social é comum entre os animais.
O jogo das posições sociais é um comportamento que pertence ao reino animal, onde ele é fartamente encontrado. Isso já foi bem observado, documentado e estudado. O que precisamos ter presente é que nós fazemos parte do reino humano, evolutivamente a frente do animal. Entretanto, como também somos animais, herdamos suas características, inclusive comportamentais. É um caminho evolutivo e, se quisermos percorrê-lo, devemos nos dedicar cada vez menos as características do reino animal, incluindo esta do jogo da superioridade social. É difícil, mas não impossível. O que não podemos fazer é sermos tão atrasados a ponto de gostarmos, querermos e nos esforçarmos pela nossa vaidade de sermos mais do que os outros. Para ilustrar, recomendo a leitura de estudos sobre o comportamento social dos chimpanzés. O livro “Eu, Primata”, de Frans de Waal, editora Companhia das Letras, é muito esclarecedor a este respeito e de leitura bem simples para um leigo. Talvez você se surpreenda em ver uma descrição precisa sobre o que estavam estes brasileiros fazendo lá em Punta ao observar como agem os macacos.
Então amigos, uma demonstração pública como a destas pedantes e malcriadas pessoas seria considerada, por elas mesmas, uma vergonha, caso fossem um pouco mais evoluídas ou conscientes de que estão agindo tal e qual os chimpanzés e outros primatas.
Até quando viveremos segundo o modelo “cada macaco no seu galho”? Até quando lutar pelo melhor galho, como meros escravos de nossa natureza animal, será tão importante para tanta gente?
É desolador saber que, deste grupo de primatas humanos obcecados pelo poder e por si mesmos, saem muitos sociopatas que acabam conquistando os postos de comando de nossas sociedades. Temos ainda um longo caminho de crescimento pela frente. Serão, talvez, algumas dezenas ou centenas de milhares de anos até o dia em que toda (ou grande parte) da população seja constituída por pessoas realmente evoluídas. Seremos, então, uma futura espécie do gênero Homo.









Eu gostaria muito de viver esses dias!! (com toda a população ou grande parte dela, evoluída!). Por enquanto basta saber que existem pessoas como você, Luciano, na busca constante por esta evolução… a humanidade ainda chega lá, tomara!!!
bjussss,
Carol.
Oi Caroline,
Eu também, adoraria viver entre uma espécie de pessoas evoluídas, mas, se estamos aqui, possivelmente nós mesmos tenhamos ainda que evoluir e, assim, poder criar tal sociedade. Mas o principal é termos isso em mente sempre, para que nossas vidas sigam na direção certa. O mundo está cheinho de armadilhas para nos confundir e nos afastar de nosso crescimento.
Fico muito feliz em saber que você se alegra com minha existência. Também sinto uma intenção boa em você e, pelo que senti em todos seus comentários, gosto de você e de tê-la por aqui.
Beijo,
Luciano
Olha, ontem, na minha aula de Ética, o professor abordou esse mesmo tema. Se alguém chega até vc perguntando uma informação com sotaque americano aqui no Brasil, vc vai se desdobrar pra fazer o que ele pedir. Mas, se alguém com sotaque castelhano vem, vc provavelmente não vai ter a mesma cordialidade.
Sabe por quê? Os americanos pagam em dólar, os sul-americanos em pesos. E o real é “moeda de rico”, assim como o dólar, nos países da América do Sul.
Pois é Daniel, podemos usar a moeda ou qualquer outra coisa para nos diferenciarmos uns dos outros. E esta é a grande questão, nossa necessidade de nos diferenciarmos. Necessitamos, mais específicamente, nos sentirmos superiores a alguém. Neste ponto temos um comportamento semelhante aos dos outros primatas.
Em relação a isso, acho que o próximo passo da evolução é não precisarmos mais nos sentir mais do que outro para termos valor. E o próximo é não sermos mais tão separados assim uns dos outros, reforçando nossa natureza de união com todos e com o universo.
Mas temos ainda um longo caminho. Por enquanto, olhando para tudo com nossa visão deste mundo, podemos pensar que as moedas e os países de origem justificam tais comportamentos.
Abraço.
Oi Luciano,
Obrigado pelo comentário lá no idealismo. Acho que você pegou bem o espirito da coisa daquele post. Quanto mais a nossa carga genética evolui nos distanciando de nossos primos macacos, mais aparecem pessoas se mostrando mais involuídas do que eles.
Enfim a evolução, a espiritual, cuida disso.
Abraços e parabéns por seu blog.
Caro Eduardo,
Assim parece ser a evolução: passo a passo. E alguns vão mais rápido, outros nem tanto. Há, ainda, os que não querem evoluir, muitos deles presos demais nas amarras e “delícias” deste estágio. Veja só nossos políticos, por exemplo.
Acho que não é a genética que nos puxa pra frente, mas o contrário. Nossos espíritos vão aprendendo e o corpo vai acompanhando, com novos recursos e sentidos. Isso é só uma impressão minha.
Abraço.
meu caro, puro anti etnocentrismo. existem muitos bem educados nacionais e outros mal educados internacionais. cansei de assistir o mesmo cenario com argentinos, muito paparicados por aqui. calma, calma…
Com certeza cozzani, a questão não é ser brasileiro ou de qualquer outra nacionalidade, nem mesmo se estamos no Brsil ou noutro país. A questão é a educação. Naquele momento eu vi muitos brasileiros mal educados lá no Uruguai. Com certeza haviam outros, mas estes não se tornaram tão visíveis quanto os barulhentos aos quais aqui me referi
Um abraço.
coisa de gaúcho, querer sentir-se mais uruguaio que brasileiro e desprezado pelos dois.
Até posso entender que existam estes gaúchos, mas este não é, de forma alguma, meu caso. Estou já distante de me achar qualquer coisa e vejo pouca importância em ser rotulado de gaúcho, uruguaio ou o que seja. Eu sou Eu. Nosso desafio atual está distante destas pequenas questões.