Paredão Final no Big Brother Brasil
Prova de liderança para o telespectador BBB (e curiosos)
- Ler este texto até o fim
- Entendê-lo
- Pensar nele
- Opinar.
Fácil demais para quem sabe julgar pessoas, uma capacidade nata de todos os que acompanham o BBB e torcem pelos seus jogadores preferidos.
BBB para quê?
Espiar. Fofocar. Julgar. Participar. Sonhar. E o que mais? O que espera o espectador do teatro pseudo-real Big Brother Brasil? E qual o interesse de quem criou e está mantendo o espetáculo?
Definindo o BBB
Para os leitores que vivem fora do Brasil e da Rede Globo de Televisão, saibam que o Big Brother Brasil, ou BBB, é um “reality show” televisivo apresentado pela citada emissora aqui neste país. Por reality (realidade), entenda-se apenas um teatro sem um roteiro totalmente fixo. Este termo não deve ser confundido com realidade, pois de real o BBB não tem nada.
Estes são os atores do BBB:
- alguns jogadores, também conhecidos por brothers;
- um apresentador;
- os profissionais que mantêm o show em funcionamento;
- os comandantes, que são os criadores e os patrocinadores do programa;
- os telespectadores, que são o objetivo final de tudo, pois são estes que serão (des)educados e ainda terão a oportunidade de pagar a conta.
Basicamente, no BBB os telespectadores assistem o programa e se anestesiam da vida real, os comandantes os adestram e colhem os frutos materiais e sociais que lhes interessam e ambos perdem tempo e se prejudicam.
Comentando o BBB
Para melhor visualizarmos a mensagem deste texto, farei uma breve analogia entre os papéis dos telespectadores e dos comandantes com os de um cão doméstico e de seu dono. Usarei um exemplo prático.
Tenho uma cadelinha (servo) e ela anda solta na rua. Ela é muito educada, segundo o meu ponto de vista (comandante), e atende facilmente aos comandos NÃO, VEM e PÁRA. Com isso, ela ganhou a liberdade de andar solta, privilégio de poucos cães domésticos. Tal adestramento foi fácil, pois dei-lhe o sentimento de liberdade, onde ela pensa que faz o que quer. Também lhe dei sincero carinho e a recompensei toda vez que ela obedeceu aos meus comandos (ferramentas). Ela tem a liberdade limitada de ir onde quiser, desde que no caminho por mim definido, de cheirar quase tudo o que desejar e de confraternizar livremente com outros de sua espécie. A intenção, no caso, é boa para a saúde dela, pois moramos em uma cidade com um trânsito que mata cachorrinhos desavisados. Mas, como conseqüência, reparei que ela anda sempre na calçada e cuidando onde estou. Ela está condicionada a isto, o que significa que sua visão de mundo e suas ações estão presas a esta “verdade”.
O que temos aqui? Um comandante, um servo, as ferramentas de adestramento, as intenções do comandante e os mundos de ambos.
Transcrevendo isto para o mundo humano, quem são os comandantes? Quem são os servos? Quais os propósitos e as intenções dos chefes, que acabam impondo as regras? Que recursos estes utilizam para manterem os servos nesta posição? Qual a percepção de mundo de ambos?
Seja qual for o lado do ator, ele acabará preso a sua visão de mundo. Esta visão engloba seus valores, suas crenças e suas idéias que, pelo que veremos, não são realmente bem suas. A visão também define o que pode e o que não pode ser visto, pois, qualquer fato que esteja em desacordo com ela, é ignorado ou simplesmente não é visto. A visão do povo é construída pelos comandantes e, no caso de nossa sociedade, ele tem a sensação de ser livre e dono de seus pensamentos. A pior prisão é a de quem não sabe que está preso.
Voltemos ao mundo fictício-tornado-real do Big Brother. O BBB é um dos recursos dos comandantes. Uma ferramenta de trabalho deles. É o biscoito e o agrado que o dono do cão lhe dá cada vez que ele obedece. É um mecanismo para ajudar a criar no servo sua visão de mundo supostamente livre, um mundo onde ele provavelmente viverá até o fim de seus dias. Se o trabalho for bem feito, o subordinado chegará a acreditar que ele mesmo é o proprietário de suas idéias.
Como começa o adestramento BBB? Assim como o do cão, com a compreensão da natureza daquele que será adestrado. Para doutrinar profundamente, o comandante deve ser capaz de se comunicar com seu futuro servo numa linguagem que este entenda. Ele também deve ser visto, sempre, como um amigo.
Então, a primeira pergunta é: o que querem e precisam as pessoas? Entre outras, salta a vista a necessidade de esperança, de felicidade, seus desejos de serem importantes e de influírem no seu mundo. Se puderem, ainda, serem conhecidas e terem poder sobre os outros, o quadro está completo. Ah, em primeiro lugar viria o amor, mas este é um sentimento profundo e que acaba revelando as verdades de nossas vidas. Além disso, ele não pode ser simulado ou falsamente criado. Assim, com este o BBB não se ocupa, mas o troca, convenientemente, pelo prazer.
Então, considerando as necessidades dos adestrandos, a ferramenta BBB, seja para o que venha a ser utilizada, deverá dar-lhes esperança e a sensação de que suas opiniões fazem alguma diferença no resultado final do mundo. Ora, todos podem votar e decidir (pagando, é claro). Todos podem se candidatar a uma chance de entrar na casa e serem famosos e, quem sabe, ganharem dinheiro. As chances disso existem, apesar de irrisórias, mas, não importa, estão ativadas as esperanças de muitos servos. O treinamento poderá ser eficiente.
O BBB precisará de um caminho de entrada para os que serão submetidos. Por que não usar a necessidade nata destes observarem escondidos a vida alheia. Dar-lhes a chance disso e de fazer fofocas, julgamentos e condenações é um recurso poderosíssimo. Azar é deles se esta é justamente uma característica humana que deve ser superada em nome do verdadeiro objetivo de vida de cada um, a evolução pessoal. Tanto melhor que não evoluam, pois serão melhores servos assim como estão.
Assim, o BBB, propositadamente, atiça ao máximo os adestrandos a se meterem em assuntos alheios e a sonharem e pautarem suas vidas a partir das vidas de outros. Não é difícil colher um público num mar de pessoas cansadas de seu cotidiano, muitas vezes vazio e sem sentido. Devido as suas próprias e graves carências, atiram-se em acompanhar histórias de vidas alheias que os ajudem a fugir das suas. Os BBBs e as novelas televisivas são pratos cheios. Poderiam ser úteis, dependendo de qual a intenção dos seus criadores. Mas eles têm outros planos.
Quando o método de adestramento BBB entra em cena, ele propicia ao espectador ver gente jovem convivendo numa casa colorida que vai, constantemente, sendo modificada em sua aparência e conteúdo. Dos jovens esperam sempre alguma cena de sexo. Jovens tetudas que podem a qualquer momento serem bolinadas pelos rapazes é algo de grande interesse. Gente pelada. Gente trepando embaixo das cobertas. Só isso já é uma razão total para muitos dos observadores. E o que dizer das festas, e dos músicos e famosos que por lá aparecem? E dos joguinhos propostos pelo apresentador, estúpidos ao extremo, mas capazes de alegrar a muitos? Ah, que sonho de vida! Como é bom ser rico e jovem! Inconscientemente, todos acabam por se imaginar neste ideal inalcançável de vida. E, enquanto tudo isso acontece, a vitrine vai mudando, expondo constantemente produtos e conceitos para que um povo sedento e de vida incompleta possa aprender o que precisa para, supostamente, ser feliz. Tendo este carro eu fico importante e como estas meninas, entende o subconsciente de muitos. Sendo o consciente da maioria mal formado, está feito o adestramento. É fácil.
Imagine se os brothers fossem mais maduros e cultos. Imagine se, em vez de apenas se dedicarem ao jogo e à perseguição do seu prêmio financeiro, tivessem consciência de seu poder de influenciar milhões e boas intenções a respeito disso. Imagine se tivessem condições de ajudar a todos estes telespectadores a abrirem seus olhos. Isso poderia ter alguma utilidade real de vida, não é mesmo? Mas, de que serviria aos patrocinadores? Questionar, ajudar as pessoas a observarem e pensarem, aguçar a curiosidade de todos sobre os reais motivos de suas infelicidades para quê? Educar para quê? Para fortalecer o país? Mas, se quem manda nele é pequeno e pode enriquecer com as coisas do jeito que estão, então a educação deve ser combatida e não incentivada.
E assim vai o barco. Valores inalcançáveis para vidas vazias de cultura e história. Drogas, lícitas ou não, sexo e BBB para todos ficarem tranqüilos, passivos, burros e obedientes para estar moldada uma massa de gente adestrável.
Mas, qual o interesse de quem criou e está mantendo este espetáculo? O que querem os comandantes? E quem são eles?
Os comandantes não são um nem dois. São vários. Vários poderosos e várias corporações multibilionárias. A culpa é dividida e, assim, ninguém é culpado. Conveniente, não? Mas eles, pessoas como são, também ficaram presos ao que precisam manter e que, no fim, tornou-se seu mestre. Ricos e espiritualmente atrasados, também são meros servos e nem mesmo sabem disso. Ou não querem saber, embriagados que estão por seu suposto poder, conforto e riqueza material. Estes são servos de suas vaidades bem nutridas por fartos recursos terrenos. E são pequenos e fracos espiritualmente. Suas chances são, assim, reduzidíssimas de saírem do buraco, pois nem se acham num buraco. E comandam muitas coisas. Isto explica muitas coisas incríveis, como a fome e a miséria de milhões sendo mantida e, a um custo financeiro muito maior, corporações sendo salvas de uma crise financeira. Perigoso, não? Mas este é assunto para outro texto.
O que querem os adestradores? Manter um rebanho sob controle. Ovelhas eternamente dependentes e não educadas, seres humanos incompletos que jamais possam atingir sua maturidade e que possam produzir bens e riquezas. Produzem e consomem. Consomem e produzem. E são sempre guiados e roubados. Sempre foram, são e serão roubados. Suas vidas são roubadas. Sua chance de crescer e evoluir mais integralmente nessa vida é roubada. E seus bens também, objetivo máximo dos pequenos comandantes que, sem que saibam, também estão sendo roubados, exatamente da mesma forma e nos mesmos itens que os subordinados. Que perigo. Que estúpido.
Então, temos um quadro de interesses que fazem o tal BBB ser mais um poderoso recurso de antieducação das massas. Veja o que ele fez até com seu apresentador, uma pessoa com alguma cultura e experiência de vida. Entorpecido por sua vaidade de fama e dinheiro, transformou-se num idiota. Chega até a crer que os participantes são heróis. Como não é ator, sua falsidade transparece. Seus falsos sorrisos são ofensivos. Mesmo assim, parecem gostar dele.
Há que se cuidar. Como dizia o jornalista Paulo Francis (1930-1997): “Quem não lê não pensa, e quem não pensa será para sempre um servo”.
Então, se “quem não pensa será para sempre um servo”, a ordem parece ser: “destrua o pensamento”. BBB neles!
Ops, em tempo: mas o BBB não tem nada de bom? Tem, pois mostra que as pessoas podem conviver bem, serem razoáveis umas com as outras e se ajudarem no que for preciso, por algum tempo, se forem obrigadas a isso. A convivência também cria vínculos afetivos que podem levar ao amor. Logo, nós temos em nós mesmos as condições de sermos razoáveis e, assim, de irmos para frente.
Abril 3, 2009 às 6:41 am
Meu caro e sempre festejado jornalista Luciano:
Pax et salutem.
Big Brother Brasil….em Bacanal.
Assistir este programa e dele falar, em alta prosa,
Tal qual numa oratória de comício
Nesta época de crise pavorosa,
É, sem dúvida, um grande sacrifício.
Crise moral e crise financeira
(aquela é clara consequência desta).
Em que tudo se acabe, e, a tal maneira.
Como no Senado Federal e no Governo.
Que gente de valor é que não presta!…
Como abordar o BBB um pouco.
Se tudo hoje, se faz pelo amoral,
Nesse mundo perdido, cego e mouco.
Onde se faz bacanal na TV Globo!
Das tertúlias legais de um burgo louco.
No Brasil tudo se transformou em BACANAL
Parabéns pelo seu artigo. Atte. Urquiza Alvim – Belo Horizonte
Abril 3, 2009 às 3:25 pm
Excelente percepção! Eu mesma já assisti este programa algumas vezes e penso que, pelo menos para alguns, não deve ser tão difícil perceber seu potencial de (des)educar as pessoas. Mas para a grande maioria (seus telespectadores fiéis) penso que deve ser muito difícil sim! Como você mesmo colocou, eles estão muito bem adestrados.
Nesse sentido suas palavras trazem contribuição valiosíssima, por isso vou recomendar a leitura a TODOS da minha lista de contatos, quanto mais melhor. Afinal, como você também citou: “Quem não lê não pensa, e quem não pensa será para sempre um servo (Paulo Francis (1930-1997)”.
Adorei!
Bjus,
Carol.
Abril 3, 2009 às 5:01 pm
Sugiro que façam uma matéria sobre o motivo dos telejornais só passarem violência, na maior parte do tempo. Notem que de cada 10 notícias, umas 8 são exclusivamente de algo ruim. É troca de tiros em favela, ou violência no trânsito, pai estuprando filha, roubo a banco, assassinato e PRINCIPALMENTE apreensão de drogas.
Isso não é jornalismo nem informação e sim exploração da criminalidade.
Abril 4, 2009 às 9:24 am
Grande Luciano;
Mais uma vez, voce define com muita clareza o que muitos
não conseguem perceber
Minha definição de BBB:
Bosta,Besteira,Bobagens…
Abraços meu amigo.
Abril 4, 2009 às 3:24 pm
Urquiza,
Pois é, parece haver uma semelhança entre BBB, Brasil e bacanal. Pena que a parte divertida, se é que há, fica só para alguns. E é pena que estes alguns só sabem chegar lá causando prejuízo para muitos.
Ah, não sou jornalista de formação.
Caroline,
Me alegro em saber que estou sendo útil. Acho que todos nós influenciamos a humanidade a se tornar mais madura, justa e feliz por sentirmos e querermos isso. E se pudermos fazer algo prático a respeito, cada um de sua maneira, tanto melhor.
Obrigado pela recomendação de leitura aos seus amigos e pelas suas palavras que sempre me trazem tanto incentivo. Obrigado.
Was,
Sugestão anotada. De fato, é um bom tema a razão pela qual os comandantes das notícias, e, consequentemente de grande parte do mundo e valores de todos, enfatizam tanto o lado negro. Parece que querem deixar todos com um medo constante. Por quê? Sinta-se a vontade para me enviar suas sugestões de algumas destas razões, ok. Meu e-mail está em
http://trink.wordpress.com/sobre/
Rogério,
Como vai o amigo? Fico feliz em tê-lo aqui como leitor.
Bosta, Besteira, Bobagens. Grande. E muitos ainda gostam desse BBB.
Abraços aos amigos
Abril 7, 2009 às 11:11 pm
mrm quem participa sabe mais vc que num participa diz que e bobagens BABA e fica dizendo que e beterol ganha 1 milhão de reais queria eu ta lah…………
Abril 11, 2009 às 7:27 pm
Caríssimo…
Adorei seu artigo. Um amgo me ligou a ele e agradeço-o tanto quanto a você. Algo que você não abordou em seu artigo, mas que me inquieta especialmente, é que o próprio nome do “Maldito” programa vem de uma obra literária que a esmagadora marioria dos adestrados jamais leu. George Orwell criou a figura do “Big Brother” para simbolizar um procedimento absolutamente condenável, o símbolo máximo para a falta absoluta de liberdade, o ícone, enfim, daquilo que as nações livres do mundo deveriam lutar para se afastar, com todas as suas forças. Pois esse ’símbolo’ negativo é tomado, pela força de alguns “comandantes”, como referência para a criação de um elemento pseudo-agregador, ao qual os imbecis dos “servos” aderem com a placidez dos incultos que são. A desfaçatez desses comandantes é o que mais me assusta. A passividade dos servos, o que mais me revolta. Um grande abraço.
Abril 13, 2009 às 11:15 pm
Caro Vagner,
Obrigado, eu é que agradeço por poder encontrar leitores e pensadores. A cegueira mata, apesar de interessar a alguns cegos que se viciam no poder e na vaidade. Sim, o grande irmão veio do romance 1984. “Big Brother is watching you”. Nome apropriado. Esqueci de comentar esse fato pertinente. Ainda bem que colaboradores como você trazem à tona as informações omitidas. A esmagadora maioria dos adestrados não leu e nem lerá esta obra. E nem nenhuma outra. Mas, o que mais me assusta é que desconfio que, se lerem, não entenderão. Estamos diante de um batalhão de pessoas que foram profundamente deseducadas a saber sobre o que já foi feito pela humanidade e, principalmente, treinados para perderem a capacidade de ver e refletir de forma autônoma. Isso foi feito de propósito. O que esperar de um país onde um professor ganha R$ 500,00 mensais e um juíz R$ 20.000,00, no mínimo? Os servos, não tendo mais para onde ir, aderem a qualquer esmola que seja dada as suas mentes esvaziadas. Cumprem seus papéis de consumidores e procriam.
Cara Gabriella,
Acredite, acho que você está indo no caminho certo, não do BBB, mas de ter tentado ler e entender o que aqui está exposto e ter comentado, da sua forma. Ninguém é melhor do que ninguém e não temos a capacidade nem o direito de julgar e, considerando isso, acho que você está tentando sair desta visão que consegue ter do BBB e do resto. Recomendo que você leia livros e veja menos TV. Recomendo que tente escrever, nem que seja copiando de livros escritos em português. Faça isso por alguns anos e não desista. Faça isso e você, um dia, verá que há mais BABA beterol do q ganha 1 milhão de reais.
Abraços.
Maio 1, 2009 às 2:20 pm
Somente em nosso país, a Censura Federal e também a Receita Federal permitem que uma empresa presa pelo cabresto ao nosso (des)governo, permite essa aberração moral e financeira de um BBB!
O que “paga” a Globo de IR sobre essa tramóia? Como explicar então a fabulosa quantia recolhida (safadamente) através das chamadas telefônicas dos imbecís teleouvintes? E o tal do Pedro Bial? Que pobreza de espírito meu “herói”!
Maio 8, 2009 às 8:04 pm
É, em terra de cego quem tem um olho é rei!!
E o adestrador (rei) nada seria. Sem as ilusões da nossa imaginação, o capital da felicidade do Rei seria muito diminuto e limitado. Infelizmente nossas ilusões são postas de má fé, enquanto somos agradados ao mesmo tempo estamos sendo enganados.