A construção das verdades do povo
A Terra gira em torno do Sol. Você acredita nisso? Precisamos consumir sempre e essa é a saída para a crise econômica. Você acredita nisso? Quais as diferenças das duas afirmações anteriores? E quem as declarou a você?
O heliocentrismo
Vamos à primeira assertiva. O fato da Terra girar em torno do Sol é uma verdade comprovada e aceita. Mas, e se lhe dissessem que é o Sol que gira em torno da Terra? Você acreditaria? Pois muitos já aceitaram ser verdadeira esta segunda versão da natureza de nosso sistema solar. E não pense que eles eram menos inteligentes do que você. Uma breve exposição sobre fatos históricos pode nos ser útil para vermos, por um lado, como obtemos conhecimento sobre a verdade e, por outro, como impomos uns aos outros crenças nem sempre baseadas nela. Pela observação, pelo intelecto e pela intuição tornamos-nos conscientes da realidade, mas, para atender outros interesses, normalmente a manutenção do poder de alguns, também defendemos mentiras como se fossem verdades aos olhos do povo, para mantê-lo ignorante e preso aos que detêm o poder.
Todos sabemos que a Terra gira em torno do Sol. Esta é uma verdade que se apresenta como um fato observável. Mas esta realidade nem sempre foi conhecida. E nem sempre desejada. Do que sabemos sobre a história ocidental (greco-romana-européia), atribui-se ao astrônomo e matemático polonês Nicolau Copérnico (1473-1543) a descoberta de que a Terra gira em torno do Sol (heliocentrismo) e não o contrário (geocentrismo). Mas tal descoberta não foi prontamente assimilada, pois, na época, a Igreja Católica aceitava essencialmente o geocentrismo aristotélico. Como a “verdade” de então era grandemente ditada por esta igreja, toda manifestação de saber precisava passar por seu crivo. Desta forma, temos pelo menos um milênio de construção de verdades por esta instituição que, usando de seu poder político e da intimidação pelo terror para pregar o que lhe convinha, adestrou a todos conforme seus próprios interesses.
De forma bastante sucinta, vejamos como esta igreja manteve por mais algum tempo o geocentrismo na posição de verdade para evitar ir contra alguns textos bíblicos. Copérnico publicou sua visão no seu livro “De revolutionibus orbium coelestium “ (Da revolução de esferas celestes) durante o ano de sua morte, em 1543. Em 1616, ele entrou para o “Index librorum prohibitorum” (Índice dos livros proibidos), um livro que continha uma lista de todos os livros proibidos aos católicos e mantida pela “Santa” Igreja Católica até, pasmem, 1966. Esta demora para a proibição do livro de Copérnico só aconteceu porque o prefácio do livro, endereçado para o papa Paulo III, dizia que todas as afirmações ali contidas não passavam de hipóteses.
Mais tarde, Galileu Galilei (1564-1642), um físico, matemático, astrônomo e filósofo italiano que, entre várias descobertas e invenções, desenvolveu melhor o telescópio refrator e fez grandes evoluções no conhecimento astronômico. Galileu defendia o copernicanismo e, italiano que era, vivia próximo da Cúria Romana. Isso lhe rendeu alguns problemas e, em 1633, foi preso pela Inquisição, pois suas teorias contradiziam a visão tradicional do universo e a doutrina cristã. Fez seis viagens a Roma para ter audiências com seu amigo particular Maffeo Barberini, então papa Urbano VIII. Foi submetido a extensos interrogatórios, acompanhados de torturas. Torturado aos setenta anos de idade a mando de “religiosos”. Retratou-se e foi obrigado, vestido como um penitente, a recitar e assinar publicamente esta confissão:
“Eu, Galileu, filho de Vicente Galilei de Florença, com a idade de setenta anos, juro que sempre acreditei, acredito agora e com a ajuda de Deus acreditarei no futuro em tudo o que sustenta, ensina e prega a Santa Igreja Católica e Apostólica… intimado juridicamente por este Santo Ofício a que deixasse completamente a falsa opinião de que o Sol seja o centro do mundo e que não se mova, e de que a Terra não esteja no centro e que se mova… com o coração sincero e fé não fingida abjuro, e amaldiçôo e detesto os erros e heresias acima…”
Como vemos, a própria história nos mostra aspectos da natureza humana de formas tão absurdas que não haveria como imitá-las na ficção. Uma mentira pode ser imposta por qualquer um que tenha poder, até mesmo por uma instituição religiosa que se diz agir em nome de Jesus. Tal igreja usou de cruéis torturas contra um sábio e cientista de setenta anos de idade para impor sua vontade. E a igreja que se dizia portadora das verdades de Deus era chefiada, na época, por um papa (Urbano VIII) que não foi exatamente um exemplo de pessoa honesta, pois ele foi o último papa a praticar em grande escala o nepotismo (houve anteriores), já que vários membros da sua família foram amplamente enriquecidos graças a ele. Torturando e calando muitos para enriquecer poucos. A velha fórmula de ação humana. Será que Jesus agiria assim? Outro que foi queimado vivo em 1600 por não se retratar de suas críticas à igreja foi Giordano Bruno (1548-1600). Ele ousou dizer que pretendia uma reforma no próprio poder. Com tal pretensão, ele atacou o âmago da questão de tantas “verdades” falsamente construídas pelos poderosos e, literalmente, se queimou.
O dever do consumo
Vamos agora à segunda afirmação: precisamos consumir sempre e essa é a saída para a crise econômica.
Ora, é óbvio que precisamos de alimentos, casas e coisas para vivermos confortavelmente. Mas também é notório que estamos exagerando, pois produzimos e consumimos muito mais do que o necessário. De fato, tornou-se tanta a nossa necessidade de ter mais coisas que, mesmo criando graves problemas ambientais com a extração de matéria-prima e com a produção de lixo, continuamos sempre insatisfeitos. E há ainda o outro fator que gera um terrível problema social: o custo das coisas. Tudo existe se pagarmos pelo direito de termos sua posse. Mas, normalmente, muitíssimas coisas estão acima de nossa capacidade financeira, mas não de nosso desejo de possuir. Enfim, criamos um mundo desequilibrado que nos torna eternamente insatisfeitos. E de onde vem nossa vontade de comprar? De dentro de cada um de nós? Ou, inicialmente, de poucos que, com o tempo, gerando uma reação em cadeia, fizeram com que todos também gerassem esta necessidade uns nos outros?
Os nossos desejos ilimitados são implantados, muitas vezes, de forma grosseira e rudimentar. Uma verdadeira ofensa à inteligência de poucos, mas digerível pelo adormecido intelecto de muitos. Por enquanto, tais mentiras parecem até verdade ao cidadão tornado cego. Veja só, como exemplo, uma notícia que li no caderno Dinheiro do jornal Zero Hora de Porto Alegre, publicado em 12/04/2009. O título era “A crise não tira o sorriso brasileiro” e a mensagem era de que o consumo é o antídoto para a crise financeira, ou seja, uma chamada a todos ao seu papel de consumidor. Fotos de pessoas comuns, com quem todos se identificam, mostram-nas sorridentes, esperançosas e felizes. A notícia exalta que “ao colocar projetos de vida em primeiro lugar, esses brasileiros seguem consumindo, sem se deixar atingir pelas incertezas da economia”.

Como efeito colateral desta chamada ao dever consumista do rebanho, vem a idéia de que o brasileiro é otimista e feliz, jamais deixando-se abater pelos problemas da vida. Um povo capaz de dar um jeitinho em tudo. Com o tempo, um povo capaz de viver sua miséria de forma alegre e sem capacidade de reação. Isso não é interessante para alguns? Milhões de pessoas que, além de colocarem seu dinheiro no mercado e em impostos com destino nem sempre voltado ao pagante, são, em sua maioria, incultos sorridentes que jamais reagem diante das injustiças a que são submetidos. Se existem paraísos fiscais, porque não podem existir também paraísos de impunidade para bandidos? Pois assim, com tais mensagens enviadas por esta mídia tendenciosa, toda uma população passa a crer no seu dever de consumo, de alegria e de eterno e incondicional perdão a seus malfeitores.
Conclusão
Atualmente quase todos acreditam que têm o dever de consumir, mas, assim como hoje estes mesmos tomam por estúpidos aqueles que há 500 anos acreditavam que o Sol girava em torno da Terra, daqui a menos de 500 anos nossos descendentes também considerarão idiotas os consumidores compulsivos de hoje. Estarão nossos tataranetos errados?
O cidadão comum crê e vive no que os outros acreditam. Sua visão e percepção do mundo restringe-se ao padrão usual. A pessoa comum não consegue, e nem tem a consciência de desejar, ver a realidade desta existência e do universo do qual fazemos parte. A visão, a percepção do mundo e de si e, conseqüentemente, a própria vida, limita-se apenas ao padrão corriqueiro do grupo em que vive. E, pior, algumas destas pessoas de mundo limitado, por conseguirem o poder financeiro para satisfazerem sua necessidade de consumir mais do que a média e, assim, demonstrarem superioridade em relação aos demais, acabam gostando de suas próprias limitações. Mas, o tempo é longo e tudo passa. Mas, a verdade existe e é soberana. Mas, existem aqueles que vêem e não podem ser detidos pela cegueira da maioria. Mas, com o tempo, até os pequenos terão chances de crescerem. Crianças crescem. Crianças, cresçam logo, por favor!
É fácil ver os absurdos e as mentiras que fazem parte das vidas dos outros. É fácil ver a aparência externa de uma casa se a vemos de fora, mas se estamos dentro dela nossa visão fica presa ao seu interior. Se estamos dentro de uma cultura social, nossa percepção da realidade tende a se restringir às verdades desta sociedade, por mais absurdas que possam parecer para quem as vê de fora. Porém, como temos uma percepção capaz de ir adiante do que vemos, torna-se claro que, se houver vontade de nossa parte, podemos buscar os recursos necessários para ver mais. Ver ou perecer, uma necessidade evolutiva. Não descobrimos que a Terra se move e que ela gira em torno do Sol? Não fomos até o espaço? Então, será tão difícil assim percebermos que nossas verdadeiras necessidades não são vinculadas ao consumo? Podemos e devemos ultrapassar a falsa crença em nós e por nós incutida de que somos um mero rebanho destinado a consumir sempre para mover a roda da economia que inventamos.
Por que abandonar o consumo ilimitado como um fim em si? Responda por você mesmo.
Referências:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Copernico
http://pt.wikipedia.org/wiki/Galileu_Galilei
http://pt.wikipedia.org/wiki/Papa_Urbano_VIII
http://pt.wikipedia.org/wiki/Giordano_Bruno
Livro “A ciência através dos tempos”; Attico Chassot; Editora Moderna; 2ª edição, 16ª impressão; 2004
Maio 7, 2009 às 11:53 pm
MUIto BOM…….
Maio 17, 2009 às 11:58 pm
Somos um povo ignorante, mediocre, por isso vivemos de ilusão…
Maio 20, 2009 às 4:57 pm
Gelmirez,
Sermos ignorante pode ser do interesse de alguns, mas não devemos tomar esta afirmação como nossa verdade, pois, se assim, fizermos, estaremos nós mesmos nos colocando nesta situação e passando a crer nela como uma verdade imutável. Precisamos é saber que há uma manipulação que não é do interesse do povo brasileiro e que todos nós podemos e devemos buscar os caminhos para nos aculturarmos e abrirmos nossos olhos.
Medíocres são aqueles que só pensam no poder pessoal e não medem esforços para conseguirem-no, inclusive aniquilando com a educação e a auto-estima de toda uma população. Mais do que medíocres, eles são criminosos.
Um abraço.