Despedida e agradecimento a Michael Jackson
Michael Jackson morreu. Você já ouviu falar dele? Aposto que sim. Ele foi e será um ídolo, aquele tipo de pessoa que se sobressai e escreve seu nome na história. Michael foi um artista talentoso e criativo. Sua capacidade de cantar e dançar, com a qualidade e a inventividade que o caracterizaram, esteve anos luz adiante de praticamente todos os mortais arteiros que andam por aí. Sem mais delongas, vamos direto ao assunto.
A música e a arte de Michael Jackson é a própria encarnação de nosso mundo. O mundo material, das posses, do poder, do sexo, da noite, das sensações, dos prazeres, do capital, da competição. Michael foi genial na arte da repetitiva e massacrante vida terrena. Tudo pelo prazer momentâneo. Tudo pela aparência a qualquer custo químico, cirúrgico e financeiro. Remédios, bisturis, falsidades e prazeres para esquecer as amarguras do espírito. O resultado? Ele próprio foi, em pessoa, o resultado. Michael foi sincero neste ponto, pois realmente viveu, cantou e dançou este mundo. Ele foi a personificação simultânea de dois aspectos de nossa cultura rápida e consumista: sua exuberância criativa e sua dependência da mentira e da insanidade. Neste mundo doente, onde vemos as lindas Giseles super top modelos transformarem-se em milionários outdoors do que todos devem almejar, sem nada saberem sobre a vida real e sofrida da população, Michael, em seu embonecado e desfigurado corpo, mostrou a verdade. A verdade sobre uma civilização que vende mentiras, pois, quem se aventurar a comprar o que ela manda e se portar como ela requer, irá se transformar numa sofrida e desumanizada pessoa.
TRINK: estamos imersos numa cultura que espera algo não humano de nós. Ela se apresenta como uma traficante de felicidade em pílulas.
Perguntas: se Michael foi famosíssimo, riquíssimo, artistíssimo e outros íssimos que devemos almejar, não deveria ele ser o supra-sumo da felicidade?
Michael foi obrigado a trabalhar desde criança. Não teve a necessária vida infantil nem o insubstituível e acolhedor lar. Exploração infantil, moral deturpada, escravização pelo dinheiro, maldade e falta de amor definem seu pai, talvez outros familiares e muitos outros lixos humanos que dele se aproximaram apenas para sugá-lo com o propósito de conquistarem seus desejos de gente pequena.
TRINK: ser pai e ser mãe implica em se ter a capacidade de amar. E em amar. Implica em olhar para o filho e ajudá-lo a ser ele próprio, a ser humano, amável e feliz. Um filho não é propriedade dos pais e nem solução para seus problemas, inclusive financeiros. Ser filho de pais que não são assim é uma enorme e talvez fatal provação.
Perguntas: se não temos amor, amigos, família e humanidade, temos o quê? A genialidade, a fortuna e os prazeres substituem essas necessidades humanas?
Muitos críticos afirmam que Michael foi genial apenas em uma época e, depois, repetiu-se. Sim, é verdade, mas ter ido até onde ele foi na área artística é algo que a pessoa comum, ou quase a totalidade de nós, jamais poderá fazer, cada um em sua área de atuação, é claro.
TRINK: os artistas genuínos criam uma arte inesquecível apenas durante uma época de suas vidas. Depois, é comum eles tornarem-se meros intérpretes de si mesmos. Se existem exceções, elas são poucas.
Perguntas: de onde vem esta percepção artística que faz o artista criar coisas que todos se maravilham? Por que ela acontece apenas em alguns momentos? Isso até parece uma porta que permite uma visão estendida, mas que não permanece sempre aberta.
O que é certo é que Michael Jackson foi um artista. O que é certo é que ele fez uma arte que está escrita na história. O que não é garantido é a veracidade dos atos que lhe atribuem, como o da pedofilia. Acho que isso tudo cheira a mentira. Os pedófilos, segundo uma amiga psicóloga, têm outro perfil. São adultos e querem destruir e usurpar a infância. Eles não constroem parques para atraí-las, mas, pelo contrário, escondem-se no papel de pessoas comuns. Michael parecia mais alguém cheio de problemas e meio infantilizado do que um homem dissimulado à espreita de crianças inocentes. Os pedófilos se ocultam no estereótipo da pessoa séria e confiável, como o dos padres. Muitos que o conheceram disseram que ele era mais puro do que o comum das pessoas. Não me surpreenderia se alguém o tivesse chantageado após ter criado esse boato. Alguém deve ter roubado muito dinheiro dele com essa história.
Mas, nada sei além do fato de que ele foi um artista que ajudou a mostrar a verdadeira face de uma sociedade falsa. A face de um mundo onde muitos costurados e dopados andam por aí achando que estão bem. Ele cedeu sua arte e aparência para desmascarar esta sociedade que é uma mistura dele, de belíssimas top models e de crianças subnutridas logo antes da morte. Se Michael parece com algo monstruoso, é porque este algo pode remeter ao que nós somos, mas não temos coragem de apresentar abertamente. Se Michael atraiu tantos fãs, é porque ele mostrou algo falso que muitos não suportam mais e porque ele, apesar disso, era bom. Desta forma, ele apresentou uma esperança de que uma sociedade podre pode ter bons representantes e que, com o tempo, estes predominem e transformem toda a comunidade global em um ambiente saudável e verdadeiro.
Vai com Deus Michael Jackson. Tua música, tua imagem e teu sofrimento representam, de forma transparente, nosso mundo. Obrigado por nos desmascarar.
Julho 6, 2009 às 1:38 am
una despedida muy sensible de tu parte, luciano.
Julho 7, 2009 às 12:33 am
Hola Silvia!
Hace poco charlava con una amiga y ella me dijo que mi opinión sobre nuestro asunto era muy sensible. De repente me veo así. Creo que soy así.
Y tus fotos son colores locas y artísticas de un mundo urbano que se eleva arriba la ciudad. Y más.
Amigos, as fotos dela estão aqui
http://www.flickr.com/photos/lasilvi
Eu podia ter divulgado??
Beso.
Julho 6, 2009 às 5:29 pm
Ótima homenagem. Apenas uma correção: “que se sobressai”. A palavra “sobressair” não necessita do “se”.
Julho 7, 2009 às 12:21 am
Obrigado Washington.
Lamentavelmente, a língua falada restringe e a escrita mais ainda, mas precisamos delas. Quanto a sua correção, acho que não está certa. Como poderia ser “aquele tipo de pessoa que sobressai e escreve seu nome”? Fica meio estranho isso. Aproveitei para perguntar sobre esta construção em português para uma professora desta língua e ela me disse que eu escrevi corretamente.
Seja como for, preocupo-me se a idéia que eu quis transmitir foi corretamente compreendida. Creio que sim, considerando o retorno da professora e de outro leitor.
Um abraço.
Julho 9, 2009 às 11:45 pm
uma homenagem linda,linda
Julho 10, 2009 às 5:39 pm
Era o mínimo que eu poderia ter feito em homenagem a este grande e único artista que, com seu exemplo de vida sofrida, nos mostrou muitas verdades.
Um abraço Brunna!
Julho 10, 2009 às 3:16 am
Linda homenagem.
Concordo plenamente quando falou sobre a “amargura do espírito”.
Muitas vezes o problema é interno e apostamos tudo que temos no externo, visando extirpar a dor. E não é por aí. Mudamos, mudamos e mudamos o físico e continuamos insatisfeitos… A matriz ainda está lá. Um problema, pois, surge a infeliz tendência à auto-destruição.
Enfim, vamos esperar somente que ele esteja em paz, seja onde for.
Abraço!
Julho 10, 2009 às 5:37 pm
Caro Erick,
Pena que a maioria não tenha sua lucidez. As pessoas estão discutindo se Michael morreu ou não. E sobre sua vida, seus pertences e coisas assim apenas como mais um passatempo para ocupar vidas movidas a sensações externas. Michael foi uma pessoa com problemas de origem interna. Seus fãs e curiosos são pessoas que, como muitos, tendem a buscar fora (e nos lugares errados) o que está perto e dentro de nós.
O que eu gostaria é que todos entendessem que ele teve tudo o que seria possível do mundo material e, apesar disso, foi bastante infeliz. E que pensassem no porquê disso. E que levassem esse conhecimento para suas próprias vidas. Tento isso escrevendo crônicas, assim como você suas poesias. Aliás, parabéns pelo seu “The Doors of Perception”.
Grande abraço!
Julho 11, 2009 às 11:45 am
Michael Jackson sempre gostei de vc desde o tempo dos Jackson Five.ABC,Ben e outros sucessos.O que me alegra nisso tudo é poder ver vc na Ressureição aqui mesmo na Terra,em João 5:28,29 se fala desta ressureição.Quão bom vai ser te ouvir de novo aqui na Terra,Michael jackson.
Julho 15, 2009 às 12:15 am
Não me contem se descobrirem a causa da morte do Sr. Jackson
Michael havia deixado de ser pessoa humana tal como somos. Fazia tempo que se tornara mito. Não era mais sujeito da História. Era personagem de muitas estórias (aproveito a diferença conceitual aprendida com o amigo Rubem Alves). Mitos não têm eventos de vida explicáveis. Mitos servem para povoar nosso imaginário do jeito que os desejamos. Conhecer causas de morte só se aplica a seres biológicos, documentados no campo da Natureza. Tem de haver coleta de dados, discussão sobre nexos e conclusões à luz da Lógica. É assunto da Ciência. Mitos não existem para serem entendidos no jogo acadêmico das correlações causa-efeito.
Deste modo, a Medicina nada tem a falar sobre a morte de nosso Michael. Porque as Ciências Médicas não detêm métodos para desvelar significações de fenômenos existentes nas tramas simbólicas da cultura e do psiquismo humanos. Igualmente, não precisamos das interpretações dos ‘psis’ sobre este cantor cinqüentão, aparentemente fixado em traumas edipianos. Agradecemos pela boa intenção de suas eruditas falas e deixem nosso Michael sossegado (há especialistas que se põem a falar, mais pelas próprias demandas narcísicas do que para partilhar vivências com o povo).
Mitos são espantosas e deliciosas narrativas lendárias. Crenças que servem para lidarmos com nossas angústias existenciais – individuais ou coletivas. Mitos têm função estruturante nas vidas das pessoas e da humanidade. Para horror dos positivistas, não há entendimento sobre mitos na factualidade. Pelo contrário, é a livre imaginação que nos permite compreendê-los. Coisas para o estranho e profundo inconsciente freudiano e para a oculta e estrutural linguagem lévi-straussiana. Se os cientistas divulgarem as causas que tiraram a vida do corpo do Sr. Jackson, perderemos com isso. Então teremos ‘uma’ explicação. E perderemos o fascínio de termos ‘todas’ as explicações. Não poderemos mais projetar nossas muitas e inconfessáveis fantasias nele. Não o queremos descrito em ocorrências concatenadas. Basta que apenas médicos legistas e autoridades policiais saibam do sucedido sobre tal morte humana. Para o mundo, o Michael deve continuar sendo imaginado como inventado.
Já pensaram como ficarão frustrados os amantes do suicídio se comprovarem que ele morreu de causa natural, de uma doença? E como ficarão desconcertados os usuários de substâncias se souberem que ele não terminou a vida com overdoses? E que fato paralisante para repórteres não haver indícios de que ele tenha bolinado genitais de meninos! Que sem-gracice para a mente não poder haver brincadeiras com nossas imagens corporais, se o rosto dele tivesse uma definição comum! Que vulgar se a cor de sua pele parecesse sempre a mesma! Gostava mesmo de sorvetes? Como conseguia dançar daquele modo num corpo humano como estudado por anatomistas e fisiologistas? Foi abusado sexualmente pelo pai ou não? Teve casamentos com mulheres mantendo-se assexuado, homossexualizado, com episódios heterossexualizados, pedofilizado na carne, pedofilizado só na mente? Teria sido um brocha ou tinha viris ereções? Fazia sexo mesmo ou só sublimava? Bilionário ou arruinado? E se o considerarem um coitado, sendo mito, por conseqüência coitados somos nós…
Aconselho jamais procurarem confirmar essas suposições. Não ousem desvendar os mistérios que lhe atribuem. Não é posição emocional, do tipo de negação psicanalítica; nem posição política, do tipo alienação ideológica. É posição filosófica de salvação humana. É preciso que todas as coisas faladas sobre Michael nunca tenham acontecido, em nenhum lugar. Para que possam continuar acontecendo sempre, em todo lugar. O antigo mundo greco-romano era abundante em criações mitológicas. Em nossa sociedade urbano-industrial, das repetitivas tardes dominicais em shopping-centers, os mitos estão escassos. Portanto, abaixo as propostas de des-mitificações! Precisamos de mitos. Eles permitem expressarmos verdades da alma que não podem ser ditas de outra maneira. We are the world. Michael está vivo. Sirvam-se.
Julho 17, 2009 às 5:13 pm
Cara Egberto,
Tens razão, Michael pode melhor ser visto como um mito e não como uma pessoa. Mas, isso para os outros, pois os mitos são produtos da imaginação e necessidades de todos. Estas pessoas que têm algo especial costumam dar o combustível necessário para o surgimento do mito.
Mas, não importa quem, quando e como, todos nós, cada um com suas características e em seu estágio de desenvolvimento, somos pessoas presas a regras. Tais regras nos obrigam a respirar, a confraternizar, a viver e a evoluir. O mito é uma invenção, uma fantasia e, provavelmente, uma necessidade psicológica. Mas, cada pessoa, em todos os instantes de sua vida, jamais deixa de ser uma pessoa que segue e seguirá, sempre, as regras. Não há nenhuma excessão. Respira, sente, vive e evolui.
Aquela “pessoas” que são taxadas de mitos geralmente transmitem muito aos outros e, não raro, pagam um preço. No fim, nunca deixam de seguir as mesmas regras a que todos precisam seguir. Michael Jackson teve que, em todos os instantes de sua vida, respirar, sentir, viver e evoluir.
O livre arbítrio é quase utópico. Ele não existe em relação às regras que precisamos cumprir.
Julho 16, 2009 às 1:31 pm
Luciano, eu que agradeço suas palavras. A capacidade que você têm de despertar as pessoas através das letras, mesclando temáticas improváveis e fazendo-nos chegar a conclusões maravilhosas. Admiro sua habilidade, e sinto forte empatia!
Comecei a acompanhar alguns escritos seus, e lhe garanto: continuarei acompanhando.
Abraços, congratulações!
Erick.
Julho 17, 2009 às 5:26 pm
Obrigado pelas palavras que me servem de puro incentivo. Minha intenção sempre foi poder ajudar, de minha maneira, a vermos de forma mais clara as coisas. Não sou o dono da verdade, pois também tenho uma visão turva e incompleta, mas acho que muitos que me cercam estão mais cegos ainda. Crêem em conceitos efêmeros como se verdades absolutas fossem.
Erick, vou ler mais as suas poesias. Notei, pelas que li até agora, que existe uma semelhança de visão entre elas e a que tento expor aqui nos meus textos. Acho que vou colocar seu blog como indicação de leitura aqui no TRINK.
Para os interessados nas poesias do Erick, leia-as aqui
http://erickcavalcanti.blogspot.com/
Abraço.
Outubro 5, 2009 às 3:18 pm
Luciano
Sabe que eu amei tudo que escreveste sobre MJ. Esse ano eu morri mais um pouquinho: enterrei muitas esperanças de adolescente, de jovem, de momentos alegres que vivi, embalada pelas músicas dele. Ontem assisti um show dele no Multishow: maravilhoso! Ele dançou o tempo todo, um espetáculo composto, produzido, dirigido e estrelado por ele.
MJ não foi somente o Rei do POP, foi o showman mais completo e complexo da história.
Outubro 5, 2009 às 6:13 pm
Oi Nádia.
Pois este foi o MJ, um grande artista que levou uma enorme quantidade de emoções a tanta gente. Fica difícil falar sobre ele. Este é o papel da arte e daquele a que podemos chamar de artista: fazer-nos sentir e ver mais longe do que poderíamos sem ele. Pela arte nos elevamos. Mas (sempre tem um mas) isso não é fácil para os artistas. Muitos querem ser como eles sem entenderem que tudo tem um preço e um compromisso. Ver mais custa mais. MJ foi um exemplo completo, até da dor.
Beijo.