Vida de prazeres
Como é bom sentir prazer! Não há nada como ele para nos sentirmos vivos. Nada como ele para sermos felizes. E como ser feliz é o nosso grande objetivo de vida, o que pode ser mais importante do que a busca do prazer? Vivemos para isso. Nós merecemos!
Apesar de esta ser uma afirmação bastante simplória e facilmente questionável, vivemos num mundo onde muitos pensam assim, possivelmente por terem sido induzidos a isso.
Vejamos o exemplo da feliz vida de Euterpo conforme ele próprio me relatou.
“Não há nada melhor do que mulheres. Falando diretamente: gosto de transar com elas. Cada uma tem seu sabor, mas todas são deliciosas. O que aprendi é que a mulher ideal são todas e eu sempre me dediquei a conquistar as que me interessaram. E conquistar, para mim, é levar pra cama. Por mais que tenham me dito coisas sobre relacionamentos, nunca consegui ver neles nada que fosse melhor do que o sexo. E no sexo, nada melhor do que variar quando ele chega ao seu limite. Sou um cara simples e prático. Sei ouvir as mulheres, sei ser gentil, sei falar a elas o que elas precisam ouvir para fazer o que ambos queremos. E para vocês que acham que sou superficial, só tenho a dizer que sou assim há décadas e me sinto muito feliz. Já ouvi esta conversa sobre superficialidade muitas vezes e acho que os que me falaram isso são gente que não come ninguém – ou apenas sua esposa – e que adorariam estar na minha pele.
Para aqueles que querem mais algum conselho, eu o dou, e de graça. Se você não consegue sentir prazer mesmo tendo mulheres, então durma mais. Acredite, a simples falta de sono termina com todas as chances de se aproveitar a vida. Se o mal estar continuar, então tome algo. Hoje temos remédios que não acabam mais. Podemos acabar com as depressões e angústias com uns comprimidos. E fim! Ficamos bem, a indústria farmacêutica fica bem, os médicos ficam bem. Todos felizes. Não é uma maravilha? Mas, não exagere, pois as drogas têm contra-indicações. Não são como as mulheres que podem ser trocadas. As drogas não são assim. Elas entram em você e não saem daí com facilidade.
Para os que acham que as drogas podem ser ilícitas, lembrem-se de que pode haver problemas com a polícia. Assim, não recomendo este caminho, pois o que precisamos é de prazer e bem-estar e isso você não terá com a polícia. Se é para buscar métodos ilícitos, considere que um anestesista possui muito mais conhecimentos e muitíssimos mais recursos do que um traficante. Perto dele, este é um amador. Mas, repito, não perca tempo com problemas que irão acabar lhe afastando do prazer almejado. E para os que acham que o uso de drogas artificiais não é um caminho aceitável e não são preguiçosos, recomendo o uso de drogas naturais autoproduzidas. Bug jump, para-quedismo e velocidade são algumas formas de ajudá-lo a produzir adrenalina, endorfina e outras inas. Só recomendo que você não exagere. Não se vicie. É incrível a quantidade de viciados que perambulam por aí. Todos movidos por algum remédio ou fazendo coisas que lhes dê alguma emoção. Pegue leve com substâncias, naturais ou não. Com o tempo, elas lhe farão mal e não produzirão mais os efeitos desejados. Lembre-se: só exagere com as mulheres.
E quanto ao dinheiro, fonte de prazer para alguns, digo-lhes que sua única serventia é a de comprar coisas. Ele costuma dar muita dor de cabeça se for um fim em si. O dinheiro não está aqui para lhe servir, mas para aprisioná-lo, assim como as drogas. Logo, desgaste-se o mínimo com ele e use-o apenas para comprar o necessário. E lembre-se: a melhor coisa que se pode comprar com o dinheiro é, claro, mulheres.
Enfim, sigo esta receita simples há décadas e sinto-me cada vez melhor. Tantos anos de prazeres me fizeram muito bem e muito feliz. A cada dia que faço aquilo que me dá prazer imediato, minha vida vai se tornando mais e mais feliz”.
Essa é uma história de vida totalmente plausível se seguirmos à risca os valores que nossa sociedade não cansa de nos pregar sobre as posses, a ascensão social e a consequente esplendorosa vida de prazeres. Mas se, de alguma forma, sentimos alguma estranheza nesta vida que ele nos descreveu, então onde está o erro da visão que a sociedade nos vende?
Antes de prosseguir e de me tomarem por um mentiro, eu confesso: menti. Jamais conheci este Euterpo. Nunca vi ninguém que tenha se dedicado aos prazeres como prioridade da vida e, com o tempo, tenha ficado cada vez melhor e mais feliz. Nunca ouvi falar de alguém assim através de outras pessoas. Nunca conheci um personagem de ficção que tenha atingido a felicidade através desse caminho. Nem na ficção, não é incrível? Pelo contrário, aqueles que tiveram tudo o que lhes desse prazer, incluindo o sexo, frustaram-se com o tempo. Eles acabaram adoecendo pelos excessos e, em casos mais extremos, morrendo. E todos, sem exceção, sentiram-se vazios.
Disto conclui-se, com relativa facilidade, que o ser humano tem necessidades superiores a da simples busca de prazer e felicidade. Precisamos nos sentir acompanhados de outras pessoas num nível pessoal e espiritual. Precisamos de amor. Obviamente o contato físico por si não é suficiente. Não somos apenas animais para buscarmos só isso. E podemos concluir também que a felicidade não é o objetivo final da vida humana. Ela é desejável, é claro, mas estamos aqui para algo mais do que perseguí-la. Precisamos crescer, evoluir e amadurecer. E, por nossa natureza, não há como fazermos isso sem nos unirmos pessoalmente com nossos semelhantes, pois não existimos integralmente de forma isolada.
O prazer e a dor servem para fazer com que nos movimentemos e para nos ajudar a valorizar as coisas que experimentamos. O que provoca dor tenderá a ser evitado por nós durante a vida e o que nos dá prazer gerará efeito contrário. Não são fins em si, mas meios. Assim, vejamos o exemplo do sexo, talvez a maior fonte de prazer. O sexo nos dá prazer, mas ele não é um propósito final, como é muito enfatizado em nossa sociedade. Se assim fosse, bastaria fazermos muito sexo com diversas pessoas para nos sentirmos completos, realizados e felizes. Mas isso não é o que acontece. A realidade é que a relação sexual pode ser incrível e completa com poucas pessoas e um mero ato com muitas por que, de fato, o sexo é um recurso físico para uma ação muito além da corpórea. Através dele, nos unimos mais com outra pessoa, uma grande necessidade e busca de todos nós. Esta união é espiritual e é permeada pelo amor. O físico apenas a acompanha e, não por acaso, da união espiritual podemos abrir caminho para uma nova pessoa existir neste mundo.
Mas, estamos nos conduzindo erroneamente. Deveríamos enfatizar nosso propósito real de viver, aprender e amadurecer. Deveríamos tratar de nossa união espiritual uns com os outros e da prática do amor. Nesse processo, deveríamos colocar o prazer em seu correto papel, não como um fim em si. E, com esta perspectiva, conduzirmos e priorizarmos a educação. Amar, educar, alimentar e propiciar condições saudáveis a todos é o que devemos fazer.
Mas, um bilhão tem fome. Mas, fazemos armas. Crianças podem brincar com armas? Adultos fabricam armas?
Entenda, invertemos a ordem das coisas e, assim, nos educamos numa direção errada. Nesse processo educacional, somos diariamente bombardeados com propagandas de todo tipo de produtos à venda que evocam o prazer. Propagandas usam da sexualidade indiscriminadamente, inclusive infantil. Sim, muitas delas, disfarçadamente, usam da pedofilia como recurso para vender. Estamos à mercê de um marketing que nos mente descaradamente atribuindo a idéia de bem-estar e de sermos melhores só por possuirmos algo que está à venda. Estamos deliberadamente nos prejudicando apenas para vendermos coisas a nós mesmos. Isso é de uma estupidez sem tamanho. Inúmeras dificuldades pessoais e sociais são criadas por nós mesmos, para nós mesmos, por que precisamos vender. Vender coisas, para obter dinheiro, transformou-se em nosso objetivo maior, tentando, inutilmente, passar à frente de viver e amadurecer através da oportunidade da vida. Bom, como isso é impossível, só iremos nos prejudicar. Resta saber se tal prejuízo será até um certo limite ou até o fim.
Agosto 16, 2009 às 6:15 pm
Excelente, adorei! Principalmente quando fala que devemos priorizar a educação… especialmente as novas gerações presisam urgentemente disso!!!
bjuss!!
Agosto 17, 2009 às 4:05 pm
Caroline,
A educação é a base de tudo. E educação não é apenas a aquisição de conhecimento, mas a transmissão de amor, afeto, respeito e valores de vida elevados. Hoje, e há muito, estamos sendo muito educados pelo mercado e por péssimos exemplos de pessoas incorretas que, por ações criminosas, “se dão bem na vida”. Muitos de nós já estão com uma visão e desenvolvimento pessoal muito deturpados. Mas, … nem todos!
Mesmo no meio desta quase selvageria, as novas gerações deveriam saber sobre quem eram e o que diziam algumas grandes pessoas, como Jesus, Buda e Confúcio para, a partir daí, compararem os exemplos que têm em suas vidas com eles. Mas muitos jovens não sabem nada…
Um abraço.