Cães, ração e crenças

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O cão é um animal carnívoro. Isso não é uma opinião e nem algo que possa ser discutido. É simplesmente uma verdade contra a qual não temos poder algum. E mesmo entre as raças geneticamente modificadas, a presença dos dentes caninos, próprios dos animais carnívoros, permaneceu. Apesar disso, insistimos que a alimentação dos cães domésticos deve ser baseada em ração.

Mas, e daí? Com tanta coisa importante acontecendo no mundo, por que deveríamos nos preocupar com isso? Por dois motivos: um dos cães e um nosso. E o nosso está relacionado a todos os desnecessários problemas que criamos para nós mesmos.

O problema dos cães, e de qualquer animal de estimação carnívoro, é que, apesar de a ração supostamente lhes fornecer todos os nutrientes necessários, ela não passa de um biscoito que nada tem a ver com carne crua e ossos, sua necessidade natural. Com o tempo, essa alimentação cria uma série de problemas de saúde ao animal e, consequentemente, às finanças de seu dono.

O nosso problema é que nós passamos a acreditar que a ração é o alimento natural destes animais. Em outras palavras, passamos a crer em algo que é falso. Como nossa capacidade de crer é muito poderosa – e define diretamente os valores de nossas vidas -  sofremos  toda sorte de consequências negativas ao acreditar no falso. Isso é seríssimo e é uma das origens dos problemas que criamos. Infelizmente, pouca ou nenhuma consciência o cidadão comum tem disso e, para piorar, um forte sistema publicitário e doutrinário lhe é imposto para tirar proveito de sua falta de discernimento entre o real e o ilusório.

A crença e a imaginação, que andam de mãos dadas, são uma capacidade nossa possivelmente associada à consciência e à inteligência. Elas nos distinguem dos outros animais, são utilíssimas e grandes responsáveis pela nossa sobrevivência. Sem elas não teríamos construído uma civilização. Mas, elas são uma faca de dois gumes e nós podemos ser induzidos a acreditar em coisas que nos são prejudiciais. A moldagem das crenças é simples, pois elas são alimentadas por informações externas e por repetições dos padrões impostos pelo grupo social em que se vive.

Através da fé podemos assumir como verdadeiros os maiores absurdos. Vamos exemplificar sucintamente, pois esta lista é demasiadamente grande até para uma enciclopédia.

  • Assim como cremos que os carnívoros devem comer ração, também achamos que refrigerantes, frituras, açúcar refinado e tantos outros alimentos artificiais fazem parte da dieta humana.
  • Muitos crêem que o sucesso medido em riquezas materiais e status social é o objetivo de suas vidas.
  • Cremos que as pessoas são exemplos e  modelos a serem seguidos só por serem famosas.
  • Cremos que pessoas com poder social, político ou econômico podem fazer qualquer coisa e isso está certo ou não se pode fazer nada a respeito.
  • Cremos que as regras sociais devem ser diferentes para pessoas de distintas classes sociais.
  • Cremos que podemos comprar trabalho com dinheiro, como se o valor dele pudesse ser mensurado financeiramente. Isto requer uma explicação, pois tal falsidade está tão arraigada na sociedade que a visão da realidade já é praticamente impossível. O trabalho vale pelas úteis realizações que dele resultam, pela satisfação e amadurecimento pessoal e por unir as pessoas em torno de um propósito comum. Mas, todos passaram a valorizá-lo através de uma abstrata mensuração financeira. E ninguém mais se dá conta ou pensa no assunto. Assim é a fé cega. Uma consequência desta crença é que muitos trabalham pelo dinheiro, ou até só por ele,  trocando suas preferências profissionais pessoais por profissões ou negócios mais rentáveis. Outra é que deixa-se de produzir o que não puder ser traduzido num negócio rentável. Outra é que passamos a comparar diferentes trabalhos e a fazê-lo de uma forma que beira a total estupidez. Como exemplo disso, consideramos normal que um juiz ganhe muitíssimo mais dinheiro, benefícios sociais e prestígio do que um educador de crianças. Cremos que o trabalho de um lixeiro é indigno e nada importante. Aceitamos a velha escravidão como uma maneira correta para nos organizarmos e distribuirmos a construção e o usufruto das coisas disfarçando-a através da pobreza financeira, das castas sociais e em outros formatos.
  • Cremos em religiões que possuem “a verdade”. Os cristãos acreditam que Jesus era filho de Deus. Os judeus acham isso um absurdo, pois como pode ser que o Deus único que não temos o direito e a capacidade de ver e cujo nome sequer podemos pronunciar possa ter um filho humano que veio viver entre nós? Blasfêmia. E ambas religiões possuem uma legião de seguidores que conhecem “a verdade” e, para isso, devem supor que os outros mentem. Algumas igrejas cristãs possuem um poderio político e econômico no mundo dos homens que nada tem a ver com o Jesus descrito nos evangelhos. Elas não obedecem ao próprio livro que dizem ser a base de sua doutrina no que se refere ao “dai a Cézar o que é de Cézar e a Deus o que é de Deus”. E existem tantas outras religiões. E tantas que já sucumbiram. Onde estão os adoradores de Júpiter? E aqueles que sacrificaram crianças para os deuses Incas?
  • Cremos que não existem leis do universo as quais estamos submetidos.
  • Cremos que somos livres. Não nos damos conta de que qualquer coisa que decidamos fazer está sempre dentro de um contexto das coisas possíveis a nós dentro deste universo. Não podemos parar de respirar. Não podemos não envelhecer e não morrer. Não podemos criar coisas que não existem, mas apenas reorganizar o que já existe na confecção de novas coisas. Não podemos deixar de ser quem somos. Não podemos não ser.
  • Cremos nos times de futebol para os quais torcemos a ponto de existirem vários pais que põem o símbolo de seu time nos anúncios de nascimento de seus filhos divulgados nos jornais.
  • Cremos que estaremos seguros se estivermos armados. Óbvia falsidade, mas quem sabe disso? Se assim fosse, hoje estaríamos vivendo em um mudo extremamente seguro, onde todos estariam protegidos da violência alheia.
  • Cremos que devemos tomar refrigerantes.
  • Cremos que podemos nos curar com remédios.

Enfim, crenças não faltam, sejam elas relacionadas a verdades ou falsidades. Nossa grande dificuldade é que, costumeiramente, não diferenciamos uma da outra. E, para piorar, a crença nos deixa cegos a tudo o que esteja em desacordo com ela.

Toda crença é defendida com razões supostamente lógicas ou corretas. E toda crença tem uma origem, geralmente o interesse de quem a impõe. Voltemos ao exemplo da alimentação que damos aos nossos cães domésticos. Para o fato de alimentarmos um carnívoro com ração temos como uma comum explicação a idéia de que o cão alimentado com ração produz fezes duras que podem ser facilmente recolhidas em sacos plásticos na rua. Mas, será? Na verdade as fezes de um cão que se alimenta de carnes e restos de comida variadas não difere muito daquela produzida pela ração. Nada que faça tanta diferença assim ao ser recolhida. Outra explicação é o custo inferior da ração. Isso também não é exatamente verdade. Vi uma ração por R$ 22,00 o quilo numa pet shop (loja com produtos para animais domésticos). Essa ração é caríssima. Existem mais baratas, é claro, mas também temos carnes menos nobres e com ossos a venda em mercados. Misturando carnes ruins com restos de comida podemos alimentar bem um cão com, possivelmente, menos custos do que com pura ração. Além disso, um cachorro que coma mais carne do que outras coisas é mais saudável. Disto concluímos que esta crença tem fundamentos discutíveis. Outras crenças também.

Continuando com este exemplo, vejamos algumas consequências imediatas deste tipo de alimentação que damos aos nossos estimados animais. Com o tempo, a alimentação não natural leva a doenças como a hipertensão, os problemas cardíacos, a obesidade e os derrames cerebrais, entre outros. Não por acaso, tais doenças são comuns entre os humanos. E menos acaso ainda é que é caro tratá-las e impossível curá-las sem drásticas mudanças de crenças e hábitos. Como se não bastasse, muitos crêem que eles fazem parte da família humana e como tal são tratados. Muitos até levam seus animais de estimação para dormir em suas camas. E as pulgas vão junto. Oportunamente surge daí um bizarro mercado com roupas, mobília, tratamentos psicoterápicos e outras coisas disponíveis para eles. É claro que tais crenças impostas às pessoas custam bem caro para suas finanças. Sorte do riquíssimo mercado que criamos com isso. Ah, teremos chegado aqui na origem de algumas falsas crenças sobre as necessidades de nossos bichinhos?

Obviedade primeira: existe um mercado multi-bilionário em torno dos animais de estimação alimentado com o dinheiro:

  • da produção de ração;
  • da cura das doenças provocadas por estes alimentos artificiais;
  • da fabricação de medicações e vacinas;
  • do comércio de raças artificiais;
  • do adestramento;
  • de hotéis;
  • da fabricação de produtos de higiene;
  • da fabricação de roupas (sim, roupas, por mais ridículo que seja);
  • da fabricação de móveis (camas, armários, etc).

Obviedade segunda: impomos a nós mesmos uma vida não natural bem mais prejudicial do que a que exigimos dos animais. Isso acontece devido ao uso mal intencionado de nossa capacidade de crer no que é falso. Nos entupimos de frituras, doces, hormônios e outras drogas. Ficamos sedentários. Nos obrigamos a um ritmo de vida com demasiado trabalho. Dormimos pouco. Criamos sociedades que valorizam as pessoas pela sua capacidade de acumular poder e riquezas. Nos submetemos a atrocidades como furar e cortar o corpo para nele pendurar adornos. Nos operamos para modificar as feições e puxar a pele para disfarçarmos a aparência da idade mais avançada. Respiramos fumaça. Ouvimos muito ruído. E a lista de coisas a que nos submetemos, bem maior do que a que impomos aos animais, quase não tem fim.

Obviedade terceira: como natural consequência da segunda obviedade, ficamos muito doentes. Um sexto da população passa fome e o resto, inclusive aqueles que possuem muito mais do que o necessário para viver confortavelmente, costumam estar emocionalmente doentes. Enquanto somos martirizados pela alta incidência de estresse psíquico  e físico, de hipertensão e AVCs (acidente vascular cerebral), de ataques cardíacos, de obesidade, de câncer e uma vasta lista de outros problemas, enriquecemos a indústria farmacológica e o negócio da doença. (Sim, o que chamamos de sistemas ou planos de saúde são, de fato, sistemas ou planos de doenças, pois apenas tratam das doenças já instaladas nas pessoas. Um sistema de saúde real seria um trabalho preventivo onde, através da educação, procurar-se-ia fazer as pessoas viverem de forma mais coerente com sua natureza.)

A forma não natural de tratar os animais e as doenças oriundas disso aplicam-se exatamente da mesma forma a nós mesmos. Possivelmente sejamos os bichos mais doentes do planeta. Não lembro de ter ouvido falar em algum animal selvagem obeso quando a presença de muita gordura não faz parte de sua natureza. Você consegue imaginar uma girafa bem gorda?

E o que nos falta? A visão da realidade e a intenção de vivermos segundo seus mandamentos.

É necessário que tenhamos consciência do que é real e do que é fantasia. A realidade é dona de nossa natureza, de nossas necessidades, do universo onde estamos e de nossos verdadeiros objetivos de vida. Nós não temos a opção de não seguirmos a realidade e de estarmos bem. Pelo contrário, se insistirmos em ir contra ela, sucumbiremos e ela, sem tomar conhecimento da extinta humanidade,  continuará sua trajetória pela eternidade. Não temos a liberdade e nem o poder de confrontá-la, mas, apenas, a chance de nos curvarmos a ela e de seguirmos o inevitável caminho da natureza. A falsidade apenas nos mostra um mundo fictício que, com o tempo, será perigosamente visto como real.

Para resumir, cremos em falsidades com a mesma facilidade que em verdades. E criamos sociedades que, deliberadamente, induzem suas populações a crerem no irreal apenas para cumprirem seus papéis dentro de um sistema doente.

Precisamos chegar a completude da crença, da imaginação, da maturidade e da sabedoria. Junto virá, como consequência, a boa intenção e a justiça.

2 Respostas para “Cães, ração e crenças”

  1. Francisco Minuzzi Diz:

    Gostei muito do artigo que veio a acrescentar novos conceitos ao meu conhecimento. Me preocupo muito com as falsidades de nossa sociedade moderna e procuro me precaver contra elas. Achei particularmente interessante os conceitos sobre a relação trabalho x dinheiro, que veio me trazer novas luzes sobre a máxima do hinduísmo, que ainda estou tentando entender, que diz que não se deve buscar o resultado de nosso trabalho, de nossas ações.

    • Luciano Pillar Diz:

      Caro Francisco, obrigado pela participação.

      Fico feliz em saber que este texto foi útil a você. Julgo ser importante que tenhamos alguma consciência a respeito do que é e do que não é verdadeiro no enorme conjunto de crenças das pessoas de nossa sociedade.

      Pelo que entendi, o hinduísmo diz que devemos trabalhar por que o trabalho é importante e útil em si e que não devemos nos movimentar só pelos resultados pessoais (ou egoístas) de sua execução. É isso? Se fazemos algo que sabemos com sinceridade e estamos dispostos a doar isso a todos, então estamos contribuindo para o crescimento geral. Haveria, de fato, motivo maior para trabalhar?

      Nós nos acostumamos a trabalhar pelo resultado, especialmente o financeiro. Mas, como pagar o trabalho com dinheiro? Essa foi a questão que eu trouxe aqui. Vejamos um exemplo: o caso deste artigo. Eu precisei trabalhar para produzí-lo. Fiquei feliz com isso e com a sensação de utilidade. Você o leu e ele lhe foi útil. Eu fiquei feliz em ajudá-lo e nós estamos aqui, nos conhecendo e nos comunicando a distância. E onde está o dinheiro neste processo? Eu não ganhei nenhum centavo. E você? E daí? O trabalho e suas consequências deixaram de acontecer?

      Colocando de outra forma, eu poderia ter recebido algum dinheiro por este trabalho. Mas, aí é que está, o que eu recebi foi o trabalho em si e a satisfação de sua criação. O dinheiro não seria um pagamento a ele por que o dinheiro não tem nenhuma relação com minha intenção, com meu trabalho e com o que você e outros obtiveram com esta leitura. O dinheiro seria, apenas, uma ajuda para que, com ele, eu pudesse fazer outras coisas. Eu poderia até usar o dinheiro para me preparar melhor e comprar recursos para melhorar meu trabalho, mas, ainda assim, o trabalho em si não teria nada a ver com o dinheiro.

      A questão é que nos acostumamos com a idéia que o dinheiro paga o trabalho. Como isso é falso, acaba gerando comportamentos errôneos. Vejamos um exemplo. A Gisele Bündchen ganha muito dinheiro. Ela provavelmente acredite que este dinheiro é um pagamento pela altíssima qualidade e valor de seu trabalho. Por isso, ela passa a crer que é alguém especial. E como toda a sociedade ao seu redor também crê nisso e a incentivam nesta crença, ela realmente fica imbuida de um sentimento de superioridade. Já um lixeiro ganha pouco pelo que faz. Então, ele julga que, por ter seu trabalho pouco remunerado, ele não é importante. O mesmo vale para um professor. Agora pense: qual trabalho vale mais, o do lixeiro, o do professor ou o de uma modelo? Qual beneficia mais a todos? Como seria um mundo sem modelos? E sem lixeiros? E sem professores?

      O valor do trabalho é o trabalho em si e não a falsa sensação de sua remuneração financeira.

      E se não houvesse dinheiro? Deixaríamos de trabalhar? Durante quase todo o tempo de nossa existência não havia dinheiro. Como evoluímos e construímos nestas eras que nos precederam e que permitiram nos preparar para chegar até aqui?

      Um grande abraço.

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