Um adeus ao tio Beto e uma lição de vida.

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Hoje, dia 26 de setembro de 2009, faleceu meu tio Beto. Neste exato momento deve estar iniciando seu enterro. Ele, que sempre foi uma pessoa muito intensa, se foi. Mesmo os mais vivos, alegres e brincalhões vão-se para sempre. Digo isso porque assim era meu tio Beto. Enfim, todos vão. Um dia eu irei. Você também morrerá. E todos os que hoje caminham neste mundo. Não demorará para toda a população ser substituída por novas pessoas. E depois, isso acontecerá novamente. E de novo e de novo e assim por diante até o dia em que ela se extinguirá. Não há nada que se possa fazer a respeito. A vida, pelo menos no formato físico tal e qual a conhecemos, terminará para todos.

Mas, antes da inevitável morte, estamos aqui num estado a que chamamos de vida. E estamos juntos. E o que somos nós? Por que sentimos tanto quando uma pessoa próxima parte? Quando penso nisso é o coração que me responde. Nos sentimentos parece residir a resposta sobre nossa natureza. O que percebo é que cada um que convive comigo passa, de alguma maneira, a viver em mim. Acredito que da mesma forma acontece com todos. Vivemos uns nos outros pelos sentimentos que transitam entre nós. Vivemos juntos, amigos. Vivemos unidos compartilhando de uma existência aqui neste mundo e nesta época.

Meu tio Beto não era perfeito. Ninguém é. Mas, sendo quem era, ele me causou uma grande impressão durante toda a minha infância, juventude e além. Para mim, em alguns sentidos,  ele foi um exemplo de vida. Ele era mais alegre e brincalhão do que eu. Muito mais. E era muito afetivo. Nas festas ou debates familiares ele e minha mãe se sobressaiam devido a seus espíritos inflamados e expansivos. Voz forte, usada profissionalmente como radialista e jornalista televisivo, opiniões que eram apresentadas de forma exaltada e o uso divertido e oportuno de palavrões faziam dele uma figura notória. Todas as crianças se encantavam porque este espírito era forte, mas imbuído  de uma natureza simples, direta e verdadeira, como as crianças. Duvido que haja alguém que possa contradizer o que aqui falei.

Tio Beto e minha tia Leonor, minha querida tia Nô, me deram um profundo e valioso exemplo: o do amor matrimonial e familiar. Estes tios foram as pessoas que me mostraram, mais do que ninguém, que um casal pode constituir um matrimônio amoroso por décadas. Através deles vi que é possível duas pessoas se encontrarem e se amarem por uma vida. Pelo que falava o tio, e com o perdão de minha possível indiscrição, era um amor completo. Não estou afirmando aqui que assim era realmente e em todos os momentos, mas apenas que foi isso o que eles me fizeram ver. A meus olhos, eles foram o exemplo maior, quase único, dos eternos namorados e amantes. Eu via neles a alegria por estarem juntos. Certa vez, depois de um já longo casamento, minha tia teve um problema de saúde e meu tio Beto me disse, com lágrimas sinceras em seus olhos: “o que vou fazer, esta mulher é minha vida!”. Ela é minha vida, disse-me. Ele falou tão profundamente que, este momento apenas, e nada mais, já bastou para me dar uma grande lição e ensinamento. Jamais me esquecerei. Este é o poder da verdade. O poder do amor. Esse tipo de coisa é que nos constrói e nos faz humanos. Este tipo de coisa é que nos dá a esperança necessária para prosseguir em nossa evolução, não importando os percalços pelos quais passamos. Obrigado tios.

Sobre a vida do tio Beto há muito mais a falar, mas me deterei apenas no já citado. Minha homenagem ao tio, e tema para consideração aqui, está baseada apenas no exemplo de amor entre um homem e uma mulher que meus tios proporcionaram.

Aproveitando este exemplo, proponho uma breve reflexão sobre o relacionamento amoroso de duas pessoas. Tal tipo de relação deve possibilitar a realização das forças sexuais, afetivas e espirituais. Deve, assim, conduzir à vivência do verdadeiro amor, o que é um maravilhoso e necessário caminho de evolução e complementação para ambos. O que me preocupa, ao ter me deparado com um exemplo vivo de relacionamento amoroso de quase uma vida inteira, é que isso é a exceção e não a regra. Tenho a impressão de que o comum é as pessoas terem uma atração sexual e, no máximo, erótica. A atração sexual é forte e criadora de vida, mas efêmera. A erótica é uma força que proporciona um vislumbre do amor ao apaixonado. Ela permite que nos importemos com o outro até mais do que conosco mesmo, mas ela também termina se não for um caminho para o verdadeiro amor. E, parece-me, muitos ficam por aí. Passam de parceiro em parceiro enquanto dura a atração erótica, mas jamais entregam-se ou buscam conhecer o outro o suficiente para o verdadeiro amor acontecer. O amor manifesta-se como um encontro espiritual e como uma conjunção. Pelo amor o outro assume uma importância até maior do que a da própria pessoa. É necessário conhecer o outro como ele é para amá-lo. Não basta tê-lo como um modelo para resolvermos nossas próprias deficiências. O amor manifesta-se quando duas pessoas maduras e livres conseguem ver uma a outra profundamente. Um homem e uma mulher precisam, pelas suas naturezas, unirem-se com estas três forças para se desenvolverem adequadamente. O ser humano precisa, especialmente no relacionamento matrimonial, de amor e de  proximidade espiritual.

Consideração feita, através do bom exemplo de meus tios, fica um grande ensinamento e a saudade. O tio se foi. Seu corpo morreu e seu espírito mudou de estado, mas seu exemplo permanecerá vivo enquanto todos nós que o conhecemos vivermos. E continuará vivo também depois, quando a energia amorosa que recebemos através dele for passando para mais e mais pessoas. E assim somos nós, seres humanos. Estamos juntos e unidos porque temos em nós a energia cola a que chamamos de amor. Graças a Deus.

Querido e inesquecível tio Beto, vai com Deus. Vai com Deus! Continua tua trajetória. Estaremos sempre contigo, todos nós que te conhecemos e que te amamos.

Francisco Roberto, obrigado por ter conquistado minha tia Leonor e ter se tornado meu tio!

5 Respostas para “Um adeus ao tio Beto e uma lição de vida.”

  1. Estes exemplos são de grande importância, principalmente no mundo atual em que vivemos o salve-se quem puder da ausência de sentimento pelo o próximo, pela pátria amada, pelo universo. Essa dádiva que nos é concedida para o nosso crescimento Espiritual, Moral, Intelectual e material sem apegos, com certeza, chegará o tempo de conscientização.
    Eu acredito na regeneração entre todos os habitantes do universo.

  2. Obrigado pelo período da sua existência entre nós TIO BETO, onde quer que estejas neste momento. Que seja de novos crescimentos espiritual.
    que estejas em paz.

    • Luciano Pillar Diz:

      Edvaldo,
      Obrigado pela demonstração de respeito pelo meu tio e por seus comentários. Também acredito na crescente conscientização de todos. Com o passar do tempo vamos todos aprendendo e evoluindo. É um processo demorado, do nosso ponto de vista, mas que está de acordo com o próprio caminho das coisas neste universo.

      Um abraço.

  3. qué curioso… apenas hoy, hace pocas horas, hablaba con mi pareja y él me preguntó, así de la nada… “qué pensás? cuál es el porcentaje de importancia que tiene el sexo en una pareja?”. después de meditar un minuto, contesté: “el sexo por sí mismo, no es suficiente para sostener una relación, hacen falta otras cosas que lo complementan y que resultan en conjunto, en una atracción duradera. por lo tanto, diría que en porcentaje, el sexo tiene un 50% de importancia”. muy lindo tu homenaje y… buen viaje, tío Beto!!

    • Luciano Pillar Diz:

      Silvia,
      Agradeço pelos votos de boa viagem ao tio Beto.
      O força sexual todos conhecemos, inclusive os animais. Ela é necessária, gostosíssima e é o caminho para produzir uma nova vida. Mas, ela dura pouco se for de existência única.
      A força erótica já nos deixa apaixonados. Ela nos permite vislumbrar o amor e ter o sexo realmente satisfatório. Pela força erótica temos vontade de reencontrar a pessoa com quem ela nos conectou. Queremos conhecê-la mais e mais. Queremos nos entregar a ela. Mas, esta força também termina. Se não nos abrimos para a entrega ao outro e se chegamos ao ponto de não querer conhecê-lo mais, o erotismo termina. Ele também não subsiste por si. Sua função é ser um caminho para o verdadeiro amor.
      A força do amor é nosso passo final. É o encontro mais profundo e espiritual entre as pessoas. Num relacionamento amoroso, quando se chega ao amor pode-se manter as outras duas forças e aí o relacionamento é completo. Mas, para realmente amar, precisamos de maturidade.

      Estes conceitos não são realmente meus, mas eu já os conhecia, digamos, instintivamente. Concordo com tal visão. Isso está em uma das 258 palestras de Eva Pierrakos e que define um método de autoconhecimento chamado Pathwork.

      Um beijo Sil.

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