Amigos, dando sequencia à parte 1 deste texto, que tratou mais sobre a ciência e está publicada aqui
http://trink.wordpress.com/2009/06/21/ciencia-espiritualidade-p1/ ,
vamos agora prosseguir com a segunda parte, focando mais na questão espiritual através da observação da natureza humana. Na próxima semana, a última parte também tratará da espiritualidade, mas, desta vez, à luz da evolução.
Nossa motivação inicial foi a questão da inclusão da espiritualidade nas pesquisas e no ensino dentro da universidade. Como todos sabemos, a universidade sempre utilizou-se mais da ciência como método de pesquisa, inclusive nas áreas humanas. Porém, como a realidade supera o método científico que inventamos, resulta que, para melhor compreendê-la, torna-se necessário estendermos nossa visão sobre ela. E aí entra a espiritualidade.
Mas, afinal, do que trata a espiritualidade? A definição não é tão simples, mas podemos considerar que ela trata de manifestações não materiais que percebemos em nós e no mundo onde estamos inseridos. Entre nós, fenômenos como a premonição, a intuição, a telepatia, a telecinese, nossa mente, os sonhos, lembranças de uma vida que não é a nossa e coisas assim estão no reino da espiritualidade.
Para nosso propósito vamos apenas evitar a confusão entre espiritualidade e religiosidade. Não pensaremos aqui em mitos ou fantasias, mas em manifestações observáveis de fatos não materiais e (ainda) não explicáveis. Assim, vamos olhar para a espiritualidade de forma natural e não fantasiosa e tentar entender por que a razão e a ciência, desprovidas de um amadurecimento espiritual, prejudicam-nos e aniquilam com o verdadeiro processo de educar.
Vamos tentar identificar a nossa necessidade da espiritualidade observando a nós mesmos.
O desequilíbrio humano.
Julgamos-nos evoluídos por termos inventado inúmeras coisas que nos auxiliam a viver melhor. Nossos conhecimentos científicos e filosóficos avançaram muito. Enfim, poderíamos estar vivendo muito bem. Mas não estamos! Se estivéssemos, não precisaríamos nos fazer algumas perguntas como o porquê de tanta fome e miséria no mundo. De fato, mais de um bilhão de pessoas não tem o que comer. E por que tantos suicídios? Por que tanta depressão, sentimentos de vidas vazias e solidão? Por que fabricamos tantas armas, investindo nisso uma fortuna financeira, enquanto um sexto da humanidade morre de fome e doenças na mais absoluta miséria? Por que usamos tantas drogas, lícitas ou não?
Entendendo o desequilíbrio humano: o desrespeito à natureza humana.
Somos humanos. Sendo assim, devemos saber o que é ser um humano e viver como criaturas deste reino. Qualquer tentativa de infringir a nossa natureza e os objetivos da existência humana não será benéfica para nós. Além disso, considere que não temos esta opção. Aparentemente temos um livre arbítrio que nos permite viver da forma como escolhermos, pois, diferentemente dos animais, não somos apenas presos aos instintos. Porém, atenção, isso é um engano. Assim como não podemos impedir nosso corpo físico de respirar, também não podemos evitar que esta parte de nós que nos diferencia dos animais siga sua natureza e seus propósitos. Então, repito, precisamos conhecer e aceitar nossa natureza humana e seguir o que lhe é natural. E, novamente repito e enfatizo: não temos opção! O não cumprimento disso é uma das duas principais causas do extremo desequilíbrio em que ainda se encontra a humanidade. A outra é a pouca evolução espiritual e emocional de grande parcela da população e o fato de que, dentre estes, estão muitos dos governantes da humanidade.
A natureza humana.
Em primeiro lugar, devemos entender que a visão cartesiana (de René Descartes) simplesmente não se aplica integralmente a nossa natureza (e nem a dos animais e vegetais). Somos algo mais do que a união de todas as partes físicas que nos compõem, ou seja, no nosso caso, o todo não pode ser compreendido exclusivamente através da análise de suas partes visíveis. Este algo que somos e que transcende uma máquina biológica não pode ser descartado de nossa existência, de nossos estudos e das regras sociais a que nos submetemos.
Mas, o que somos? Nosso corpo, apesar de complexíssimo, ainda parece ser um dispositivo que responde e se adapta a estímulos físico-químicos do meio onde está inserido. Mas, será que ele também não reage a um meio mais extenso do que o espaço tridimensional? E a mente? Como esta mente se conecta ao corpo? Seria possível que o corpo se forme e se molde para abrigar a mente?
Uma das visões sobre nós, comum em várias filosofias e perceptível há milênios por pessoas mais sensíveis, nos diz que temos vários corpos e não apenas o físico. Pessoalmente não descarto isso, pois já vi algo que pode estar relacionado a estes outros corpos.
Como exemplo, segundo a antroposofia de Rudolf Steiner (1861-1925), temos quatro corpos.
- O Corpo Físico, que temos em comum com o reino mineral, é o nosso corpo material que nos permite estar neste mundo.
- O Corpo Etérico (ou vital), que temos em comum com o reino vegetal, é o responsável pelas funções vitais que vemos se manifestarem no corpo físico, como o crescimento, a respiração e a reprodução. Este corpo encobre todo o corpo físico e apresenta-se, para aqueles que conseguem vê-lo, com o tamanho e a forma aproximados ao do corpo físico no ser humano e com tamanhos diferenciados do físico nos animais e, mais ainda, nos vegetais.
- O Corpo Astral, que temos em comum com o reino animal, é o responsável por nossos sentidos, movimentos, emoções, paixões e desejos. Este corpo encobre os corpos físico e etérico em sua totalidade, estendendo-se para além destes, e se apresenta no ser humano, para aqueles que conseguem vê-lo, com a forma de um ovo alongado e luminoso. Ele é a casa de nossa alma.
- O Corpo do Eu Superior Espiritual, encontrado apenas no reino humano, é a nossa autoconsciência, a nossa identidade pessoal. Poderíamos dizer que este corpo somos nós mesmos, aquele a quem nos referimos quando dizemos “eu”. A tarefa do Eu Superior é desenvolver-se, trabalhando e aperfeiçoando os outros corpos. Assim, o Eu Superior deve conduzir cada pessoa, através de seu esforço, para além dos processos meramente orgânicos (corpo etérico) e dos sensoriais (corpo astral). As pessoas mais evoluídas deixam-se conduzir menos pelo corpo astral, o supremo comandante dos animais, e são mais espirituais.
Todos estes corpos foram vistos e identificados por diferentes pessoas em várias culturas e épocas. Rudolf Steiner afirma que o corpo físico desenvolve órgãos sensoriais para perceber o que necessita em nossas vidas corriqueiras e que podemos desenvolver mais sentidos, incluindo os que nos permitem ver estes corpos, com treinamento adequado. Os espíritas reconhecem os médiuns como pessoas sensíveis a manifestações espirituais. As pessoas que tem olhos percebem a luz que não existe para os cegos. Da mesma forma, muito antes de nossa atual tecnologia, foram vistos e mapeados os nossos chacras, os meridianos e os seus inúmeros pontos energéticos. Há não muito tempo, nossa cultura ocidental simplesmente trataria com desdém os tratamentos de do-in ou acupuntura, que atuam sobre os pontos de nossos meridianos energéticos, mas, hoje em dia, por utilizarmos corriqueiramente destas técnicas terapêuticas, ficou evidente que tais pontos em nossos corpos realmente têm um impacto forte em nós. Mas, se estes locais não são terminações nervosas físicas, mas sim pontos de energia, do que estamos falando? Que tipo de energia é essa? Como duvidar se os efeitos são claros e comprovados? Sendo assim, como duvidar de que somos mais do que nossos corpos físicos? Podemos simplesmente negar a existência dos outros corpos? Para os que dizem que o cérebro físico é que gera todo o resto, ou nossa mente e individualidade, continua a questão do que é isto que o cérebro gera. Existe? Existe como? De que forma? Onde está nossa mente se não podemos vê-la, tocá-la ou medí-la? Como comprová-la cientificamente? O cérebro gera a mente ou ela é que molda o cérebro para habitá-lo e assim poder viver nesse mundo?
Com certeza há variações sobre o tema, mas todas mostram evidências do que todos nós sabemos: somos mais do que o corpo. Esse além físico é justamente o que chamamos de espiritual. Logo, nós todos temos, além da parte física, também a espiritual.
A natureza do universo.
Nós estamos no universo e, desta forma, somos feitos como ele. Nós somos, juntos com todo o resto, o universo. E este universo não é apenas físico e tridimensional, como já foi teorizado, equacionado e observado. Assim, nós mesmos não somos apenas tridimensionais, mas somos e existimos também em outras dimensões. Ora, se chamamos de espiritual aquela nossa parte não física e multidimensional, então o mesmo vale para o resto do universo que, de fato, não é isolado de nós e nem é outra coisa. Assim, o universo do qual fazemos parte abriga também, além de uma parte física, uma espiritual. Pierre Teilhard de Chardin, há 70 anos, concebeu uma hiperfísica que passaria e estudar o universo e seus fenômenos considerando não apenas sua parte física, mas também a espiritual.
Conclusão.
Compartilhamos com os animais os aspectos físicos, biológicos e sensoriais de nossas vidas. Mas, além da capacidade deles, temos uma consciência e uma mente com capacidade criativa, artística e de modificar o mundo que a cerca, inclusive os nossos próprios hábitos de vida. E ainda, além da capacidade deles, conhecemos, de um lado, o amor e a compaixão e, de outro, a maldade e o ódio.
Nós temos a capacidade de olhar para trás e vermos os animais. E de olhar para frente e vermos uma maior evolução do que a nossa. Ou seria razoável esperar que todo o universo existe apenas para que nós estejamos aqui naquilo que nós mesmos definimos como o topo evolutivo? Se assim fosse, qual seria o nosso propósito se não há mais para onde ir em termos de crescimento? Será que uma humanidade ainda tão injusta e com tantos atrasos seria o ápice da evolução? Essa possibilidade é tão pouco razoável que podemos tomá-la, com grande segurança, por falsa.
Outra forma que qualquer um de nós dispõe de verificar que há um futuro evolutivo é a de observar as próprias pessoas que vivem entre nós. Com certeza, todos devem conhecer algumas que, mesmo que apenas intuitivamente, nota-se que estão mais adiantadas. Vejamos alguns exemplos de personalidades conhecidas por todos. Não há quem possa contradizer a verdade de que Jesus, Buda, Confúcio e Francisco de Assis, entre outros, eram mais evoluídos do que o normal das pessoas. E, não por acaso, eram bons e ricos em compaixão. Já dentro do palco político brasileiro, por exemplo, todos sabemos dar inúmeros exemplos de vários conhecidos ladrões que agem assim justamente por serem pessoas menos evoluídas e ainda mais próximas do reino anterior ao nosso, o dos animais. Por essa razão, como ainda estão muito presas ao comando do corpo astral e de seus impulsos pelos desejos e luta pelo poder, costumam tornar-se presas fáceis para tais estímulos. Por isso, e mais algumas deficiências de caráter, possuem uma moral suficientemente rudimentar capaz de lhes permitir roubar e prejudicar toda uma população sem culpa.
Você consegue conceber Jesus ou Buda dedicando-se a roubar dos outros? Ou se esforçando para prejudicar as pessoas? Ou comprando um carro enorme apenas para mostrar superioridade em relação aos outros ou encobrir suas deficiências emocionais?
Você consegue ver em Adolf Hitler uma pessoa evoluída?
Ora, se atrás temos o mundo animal, o que temos à frente? O que há além do físico, já que aí está a nossa superioridade evolutiva em relação aos animais? Eis nosso lado espiritual que nos diferencia dos animais e, assim, indica o caminho da evolução. Uma lógica bem simples.
Logo, a educação deve incluir, necessariamente, a espiritualidade. Desde a educação infantil até o nível de PhD, a espiritualidade precisa estar sempre presente. De fato, a presença do espiritual, do afeto e do amor definem as diferenças entre educar e informar.
Referências:
René Descartes: http://pt.wikipedia.org/wiki/Descartes
Pierre Teilhard de Chardin: http://pt.wikipedia.org/wiki/Teilhard_de_Chardin
Rudolf Steiner:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Rudolf_Steiner
http://www.rsarchive.org/
http://www.rudolf-steiner.com/
Bibliografia:
- “O Fenômeno Humano”; 1938-1940; Teilhard de Chardin; Editora Cultrix; 1ª edição de 1990
- “A Educação da Criança Segundo a Ciência Espiritual”; 1909; Rudolf Steiner; Editora Antroposófica; 1ª edição de 1990
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