Cremos no que é verdadeiro?


Eu tinha uma lembrança. Ela era uma certeza inquestionável e absoluta, até que me deparei com uma prova incontestável de que era falsa. O que aconteceu comigo, durante e depois desse momento, me serviu de importante lição sobre mim, sobre os outros e sobre nossa sociedade.

O objeto de minha certeza era a antiga motocicleta Suzuki GT-380.

A minha falsa crença é que ela tinha um motor de dois cilindros. Sim, para a maioria isso pouco importa. Para mim também. Mas, ponha no lugar do motor dessa moto coisas que definem nossas vidas a partir de nossas crenças em relação a elas. As religiões, a família, os grupos sociais, os sistemas de governo e os posicionamentos políticos são apenas alguns exemplos.

A partir de nossas crenças acolhemos alguns e excluímos outros. Tratamos nosso planeta como objeto ou como lar. Respeitamos e aprendemos com quem é diferente de nós ou os ignoramos, excluímos e atacamos. Vemos os gêneros e raças humanas como uma diversidade que acrescenta ou que assusta. Vemos a arte como intuição, expressão profunda de nós mesmos e libertação ou como algo que intimida e deve ser combatido. Vemos os outros como sagrados companheiros que devem ser amados ou como competidores que nos diminuem. Nos vemos como o centro do universo ou como parte dele.

Nossas crenças definem em grande parte quem somos. Falamos português e comemos vacas – quem pode – porque nascemos no Brasil. E se fôssemos indianos hinduístas, o que pensaríamos da nossa versão brasileira? Afinal, quem somos realmente, já que seríamos tão diferentes se tivéssemos nascido noutro país? De onde vêm, de fato, nossas crenças? São nossas mesmo?

O fim de uma crença

Vou descrever o processo da destruição de uma crença pelo qual passei. Sempre gostei das motos e quando era menino eu adorava e estudava o assunto. Eu lembrava da antiga Suzuki GT-380 como tendo um motor de dois cilindros – para quem não entende o que é isso, não importa, pois não é esse o tema. Depois de muito tempo, encontrei uma delas numa exposição de carros e motos. Uma GT-380 de 1976 totalmente recondicionada e… com motor de três cilindros! Fiquei boquiaberto.

Diante da evidência, comecei negando. “Impossível“, pensei. Se fosse uma foto eu diria que era alterada por algum editor de imagens como o photoshop. Mas, era a própria moto! Era real e estava diante de mim. Resistindo, pensei que poderiam ter dois motores diferentes pra mesma moto. Desisti dessa tentativa desesperada e aceitei; são três cilindros. E fim! Segui-se um desânimo.

Logo depois, esqueci da moto e observei meu processo. Eu tinha uma certeza. Absoluta certeza. Inquestionável. Mas, sem dúvida, era falsa. Por décadas foi verdadeira no mundo de minha imaginação. Décadas de uma crença aniquilada no tempo do instante que eu olhei pra aquele motor. Menos de um segundo. Aceitei o novo fato e prossegui.

Uma breve reflexão

Quantas falsas crenças eu tenho?“, pensei naquele momento e me assustei com isso, pois achei que devem ser mais do que imagino. “E quantas pessoas que ao se depararem com alguma evidência, se não da falsidade, ao menos da questionabilidade de alguma crença sua, são capazes de dar o braço a torcer? Quantas, ao menos, conseguiriam ver uma prova da falsidade de alguma crença sua?“, continuei pensando. “Quantas teriam a coragem de manter suas crenças fora do grupo que compartilha delas? E na presença de algum grupo que crê em coisas diferentes e até antagônicas?“, continuei. “É fácil ser ousado no seu meio, onde ninguém questiona as crenças do grupo e, pelo contrário, as reforça.“, concluí.

Exemplos de falsas crenças não faltam, mas não vou citar nenhuma muito atual para evitar aqui um inútil enfrentamento com tantos que não estão num momento de se observarem e questionarem. Vou apenas relembrar um personagem milenar que, com suas palavras e vida coerentes, nos deixou alguma reflexão sobre as crenças. Falo de alguém que é um personagem para alguns, pessoa comum para outros, gênio para outros ainda e expressão de Deus para milhões: Jesus. Seja como for, não há dúvidas de que ele questionou enfaticamente as crenças dos grupos com os quais esteve envolvido. E nos deixou ideias que não se vincularam a interesses de ninguém, mas apenas daquele, segundo ele, que o enviou. Uma delas é o maior e mais sábio conselho que já ouvi até hoje: “Amai-vos uns aos outros”. Hoje, dois mil anos depois, ainda sabemos deste que simplesmente não se curvou às crenças colocadas para as massas. A partir desse único exemplo suponho ser importante se observar as próprias crenças, especialmente aqueles que dizem seguir esse Mestre sem, de fato, viverem o que ele pregou.

Crenças, crenças. E quantas não passam de tolas crenças?

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O Tinder e o aplicativo astronômico


Sexo, paquera, aventura, namoro. Quem não quer? Hoje em dia, com a infinidade de grupos, serviços e aplicativos disponíveis na Internet, até os mais tímidos e reservados tem vez. Com tantos buscando, como não acontecer? Ninguém mais pode dizer que não encontrou algum parceiro.

Céu

E o amor? Existe algum aplicativo para localizarmos o amor de nossas vidas? Sim, existe. Falo por experiência própria. Uma vez o maior e mais antigo aplicativo, que conhecemos por céu, me sinalizou que eu encontraria minha mulher. Não consegui fazer essa leitura naquele momento, mas, no tempo dele, em alguns meses nos encontramos. Depois foi conosco. O aplicativo céu a que me refiro é o que está sobre nossas cabeças e no qual rodam diariamente o Sol, a Lua, os planetas e as estrelas. Sua única exigência é que estejamos atentos a ele e que saibamos ler seus sinais.

Como usei o céu? Foi assim. No dia 28 de janeiro de 2012 vi a Lua, majestosa, entre Vênus e Júpiter.

Uma indescritível beleza e poder – que causa graça tentar comparar com os celulares – me arrebatou dos meus afazeres e me fez intuitivamente saber que alguma coisa aconteceria. Algo viria a mim e me demandaria uma decisão. Em um tempo menor do que um relógio pode medir eu soube disso. Sem demora pesquisei no software astronômico Stellarium a evolução desse movimento. Descobri que os planetas trocariam de posição no céu e uma configuração semelhante se apresentaria no dia 25 de março de 2012. Mais incrível ainda é que a Lua cruzaria entre eles no dia seguinte. Desenhei na minha agenda essa configuração do céu naquele dia. E esperei, pois certas coisas só acontecem no seu momento.

Quando chegou o dia 25 apareceu uma mulher na minha vida. Era ela, minha mulher. Não apenas um caso amoroso, uma diversão ou uma fantasia. Era ela! Nos reconhecemos diante de um rio sendo abençoados por ele, por estes astros em seu ocaso e pelas máximas expressões de que somos capazes; o amor e a arte. Arte? Sim, para completar o quadro presenciamos, do lugar elevado onde estávamos, o movimento inicial do show de Roger Waters, ex-integrante do Pink Floyd, que aconteceria num estádio de futebol diante do rio. Mágica!

No dia seguinte, um pouco antes do amanhecer e próximo às Plêiades, a Lua passou entre os planetas. Uma curiosidade é que o aglomerado das Plêiades é composto por estrelas muito jovens, com idade em torno de cem milhões de anos. Seria um sinal de algo que inicia? Um conjunto de estrelas é uma família? Estava consolidado o encontro.

O movimento completo deste céu está descrito em uma publicação antiga que está aqui.

Não tenho dúvidas de que existam várias pessoas com histórias semelhantes para contar. E nem de que tais “coincidências” ocorram mesmo para os que não estão conscientes delas. O problema é como perceber tais sinais se na maior parte do tempo estamos desatentos a eles. Quem consegue ver o céu numa cidade? Quem sabe reconhecer alguma estrela, localizar algum planeta, identificar seus movimentos e relacioná-los a ciclos de sua vida e do meio ambiente em que vive? E quem está interessado nisso, no meio de tantas distrações? Nem mesmo temos mais noites nas cidades eternamente iluminadas. Poucos ainda sabem identificar os movimentos dos ventos, das águas, dos animais e das plantas. Nos tornamos alienígenas em nosso próprio planeta.

Onde estamos

Desatentos, distantes e desconectados nos tornamos preguiçosos que se rendem ao mais fácil. Neste mundo facilitado, criamos uma grande e útil ferramenta que também é uma armadilha mortal. Falo do celular movido pela Internet. Infelizmente, a conexão a este dispositivo é acompanhada por um forte efeito colateral: a desconexão da rede maior a qual nomeamos de mundo, vida, universo ou o Todo. Ligados no smartphone e desligados do céu, do vento, das águas, da vida, da Lua e do Sol. Conectados à rede artificial e desconectados da natural que nos dá e suporta a vida. E isso é mortal sim, pois com toda nossa tecnologia e desconectados da natureza vamos, a passos largos e rápidos, destruindo-a e, assim, aniquilando a nós mesmos. Isso é mais uma observação do que uma crítica. Não se trata de desistir da Internet e de toda nossa tecnologia, mas sim de não abandonar uma coisa em detrimento de outra. Nem oito nem oitenta. Se estamos conectados ao mundo real que nos sustenta e do qual fazemos parte, podemos usar com vantagens os recursos tecnológicos disponíveis. Caso contrário, seremos crianças brincando com fogo.

Tinder e aplicativos semelhantes

“Toda criatura tem uma capa, um invólucro que o separa do mundo.
Estas são suas fronteiras.
O homem cria modelos pra compreender o universo e é aí que o universo se perde.”
Mia Couto

O mais fácil e rápido seduz. Paquera, aventura e sexo já. Celular na mão, perfil informado, filtros acionados, localização registrada, busca iniciada. Olhos baixos, fixos no aparelho. Aqui e ali surgem pessoas. Perfis que coincidem, pessoas que estão nas proximidades, possibilidades que nascem num piscar de olhos. Elas vão aparecendo como produtos. Somos mercadorias sexuais, assim como já éramos do “mercado” de trabalho. E isso é ruim? Talvez. Mas, existem vantagens. Queremos que haja.

Na tela vão passando os possíveis parceiros. E nós nas outras telas. É um jogo. Somos todos cartas em muitos baralhos, em muitos jogos simultâneos. Entre elas uma gigantesca rede de eletromagnetismo, satélites, fibras óticas e protocolos de comunicação que conectam algoritmos encriptados em programas de computador escritos nas mais diversas linguagens rodando de forma compartilhada em diversas máquinas que, finalmente, dão vida e forma à nuvem. O mundo inventado pelos cientistas da TI e implementado pelos nerds. “They rule”. Tudo isso para prover o encontro dos pombinhos que outrora dependiam apenas de suas próprias capacidades de interação e conquista. Agora todos podem se sentir desejados. Todos podem flertar e ser correspondidos. Todos tem chances de concretizar um encontro amoroso real. Vários encontros. Curiosamente, caso alguns desses encontros resultem em procriação, segundo o discurso daqueles que pregam o darwinismo social, não estaríamos presenciando um antidarwinismo, uma meritocracia ao revés? Que mundo antagônico. Quantos discursos que não passam de palavras ao vento pronunciadas por aqueles que ignoram que não existem palavras que não transformem o mundo. Mas, é bom. Aventura e conquista é bom. Faz o coração bater, traz sensação de vida. Sexo é bom. É o que dizem.

Ainda assim, para aqueles que não se viciarem no jogo em si e não tomarem os próprios aplicativos e suas demandas por objetivo final, existe a possibilidade de se encontrar alguém de uma forma mais profunda. Neste caso, provavelmente o aplicativo Internet teria a função de ajudar a reunir quem possivelmente não se encontraria de outra forma e o aplicativo maior estaria coordenando tudo, por trás dos bastidores terrenos, para unir o que é verdadeiro e necessário. Uma possibilidade.

Será que eu teria encontrado minha mulher num Tinder?

Seja como for, saber que a encontrei pelos sinais do céu é algo que me agrada. Os belíssimos movimentos da Lua cruzando Vênus e Júpiter enquanto estes dançavam no céu ao som de Pink Floyd foi algo mais especial que o caminho dos algoritmos tinderianos.

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