O que nos dizem nossas diferenças


Alguns temem muito as diferenças entre as pessoas. Curioso é que esses alguns só podem temer essas diferenças por causa das diferenças. Sim, se não houvesse a mais imediata delas, a divisão das pessoas em homens e mulheres – e posteriormente as variações – , esses não existiriam. E, depois de existirem, se não houvessem todas as outras diferenças de aptidões, áreas de atuação produtiva, crenças e raças, entre tantas outras, esses alguns não viveriam na civilização atual da qual dependem, a qual os moldou e da qual, muito provavelmente, não abririam mão. Então, por que tantos temem as diferenças entre os seus? Por que muitos buscam caminhos da exclusão, não raro através da violência, daqueles que julgam diferentes?

Vamos restringir o tema às diferenças de gênero, na esperança de que essas reflexões possam servir para quaisquer intolerâncias, aproveitando o gancho de uma enorme manifestação que aconteceu ontem, dia 29/09/2018, no Brasil a partir da justa revolta das mulheres que se sentiram ofendidas com as declarações do presidenciável Bolsonaro a respeito delas.

Os homens respeitam, cuidam e amam as mulheres. Enfrentam, junto com elas, os desafios da vida. Muitos meninos, mesmo aqueles que envelheceram antes de se tornarem homens, as atacam utilizando-se da sua maior força física que, historicamente, foi seu maior recurso para implementar um sistema patriarcal. Suponho que a razão principal seja o medo. O medo que, quando domina aquele que não cresceu ainda o suficiente para reconhecê-lo e enfrentá-lo, aprendendo as lições que ele traz, normalmente leva à violência. O inconsciente, quando assustado, reage ou fugindo ou atacando. E o que foge, e todo tipo de covarde, consegue passar ao ataque quando influenciado e protegido por uma multidão. Isso acontece antes de qualquer reflexão, pois como dito antes, essas pessoas ainda não atingiram o nível da consciência, do olhar para si e da coragem necessária para isso. Veja bem, isso não é um julgamento e nem afirmação sobre o certo e o errado. É apenas o momento de cada um.

Por que alguns meninos não toleram as mulheres livres e fortes e, por causa disso, precisam submetê-las e puni-las? Suponho – e apenas isso – que é porque eles mesmos se sentem submetidos por elas. Um menino tende a querer parecer homem mostrando-se forte e poderoso. Como não é homem, não se sente seguro e, assim, apega-se a essa demonstração de poder. Mas, já de início, parece que o maior feito e o maior poder de realização possível na nossa espécie se dá através do ato sexual, pois essa é a única forma de se trazer outro ser humano a esse mundo e não há criação maior disponível para nós do que essa. Mas o sexo é apenas o início. A gestação é o grande ato sagrado e ela é privilégio das mulheres. O maior feito possível ao ser humano cabe às mulheres.

Alguns meninos não ficam muito felizes em verem que, perto disso, não passam de meninos. O máximo que podem almejar é serem homens e, mesmo assim, por maior que sejam seus feitos, jamais atingirão o ápice da gestação de um filho. Os meninos que se tornarem homens a partir de seu esforço, e com a ajuda conquistada de outros homens e mulheres, aprenderão que seu papel também é sagrado e grandioso e que está intimamente ligado às mulheres e a toda sagrada natureza na qual está inserido. Um homem não nasce feito. A mãe só pode gerar um menino. Um homem se faz, e isso parte dele.

Mas, nem tudo são flores. Mulheres não são deusas iluminadas, São seres humanos. E muitas delas também não se tornaram mulheres. Ainda são meninas, mesmo que velhas e mães. Isso pode ser um problema, pois o outro grande poder também é delas. Falo aqui da função maternal no início da vida do bebê. Nessa relação simbiótica a criança continua sua formação numa fase em que ela não se vê um ser distinto da mãe. Aqui o bebê está sendo formado na sua essência ainda. Tudo o que ele recebe da mãe, da forma como recebe, ou mesmo a ausência do que ele precisa para se desenvolver, fica gravado para sempre nele, no mais profundo inconsciente. É como se seu DNA ainda fosse moldado aqui, se é que não é. Uma mãe afetuosa, amorosa, que está realmente com ele com cuidado e alimentando-o não só com o leite físico, mas com todo o seu amor, dá as condições de desenvolvimento necessárias para um futuro adulto equilibrado, seguro, amoroso e capaz de se tornar um homem ou uma mulher de verdade. Qualquer falha aqui, como a falta da mãe ou situações de distanciamento, frieza e até crueldade de uma mãe precariamente presente, criam quadros de debilidade pessoal e emocional irreversíveis na criança que, no máximo, poderá se equilibrar no futuro com grandes custos pessoais. Existem muitos estudos sobre isso, inclusive sobre a vida intrauterina.

Então, além das predisposições pessoais e das histórias do povo e familiares que chegam ao bebê, todos estamos submetidos a nossa gestação e aos cuidados, especialmente iniciais, dados pela mãe. O pai, nesse processo, ajuda. Mas a mãe é que é uma com o bebê. Como terá sido essa vida inicial com a mãe desses que hoje submetem e maltratam as mulheres? Terão sofrido algum maltrato ou privação nesse momento crucial de suas vidas por parte da mãe? Esse poder que a mãe tem, além do da gestação, também é maior do que qualquer poder dos homens e isso deve ferir esses que se acham os grandes quando, de fato – e inconscientemente todos sabem –, não são. Os dois maiores poderes são, pelas leis da natureza às quais todos nos submetemos, das mulheres.

Na minha imaginação vejo o seguinte quadro. Ou melhor, parte de um quadro, pois a realidade possui muitas outras variáveis. Uma mãe concebe uma criança sem a querer. Quando a criança nasce ela não se sente bem com isso. A criança pode representar para ela uma prisão, uma repetição de algum sofrimento ou qualquer outra dor. A mãe fica fria e distante. Não amamenta, ou não o faz com amor e carinho. Pode amamentar com raiva até. A mãe maltrata. Deixa chorar sem atender. Abandona. Enfim, não supre e, no pior caso, é má. Sim, um quadro feio. Pesado. Mas, real em muitas situações. As mulheres não são fracas. Pelo contrário. Pelo exposto, detém os maiores poderes e são pessoas com seus problemas. As mais poderosas com problemas podem programar monstros. Não há inocências aqui. O que acontece com a criança e com o futuro adulto nessas circunstâncias? Nesse quadro, muitos dos meninos velhos que aí estão podem odiar as mulheres. Uma forma comum é tratá-las como objetos. E muitas mulheres também aceitam e parecem precisar dessa posição, pois se apresentam como objetos a serem possuídas por homens socialmente fortes – geralmente meninos velhos – e apresentam sua “captura” como uma conquista. Veja quantos meninos ricos e famosos possuem séquitos de seguidoras que se exibem orgulhosamente nesse papel. Estamos num ciclo fechado de causas e consequências entre nós mesmos onde tudo o que é feito, bom ou mau, retorna para ajustes.

O momento é crítico. Grandes transições acontecem no nosso ecossistema e na estrutura de desenvolvimento e organização da humanidade. Devemos entender que todos são culpados e todos são capazes de corrigir o caminho. E que isso começa em cada um de nós. A rota da recuperação começa, e termina, com o perdão e o amor. Simples assim.

Qual o perigo? A ressonância dos discursos de ódio nas pessoas que ainda estão cegas e inconscientes de si mesmas. Esses discursos acionam suas raivas não compreendidas e as levam a agir antes de pensar. E eles funcionam. Tenho visto, como no exemplo do presidenciável Bolsonaro, exemplos bizarros disso. Pobres, negros, mulheres e homossexuais que o defendem porque ele vai mudar o Brasil de verdade e vai fazer uma faxina no ambiente político do Brasil. Seguem discursos vazios, cegamente guiados pelos seus fantasmas desconhecidos, sem se darem o tempo de pesquisar sobre quem é esse candidato à presidência, sobre o que fez em seus cargos anteriores e em sua vida. Seguem apenas a raiva pessoal, a pólvora interna acendida pela chama de um velho menino que, talvez, tenha passado por alguns destes sofrimentos anteriores. Me coloquei no papel desses seus seguidores que dormem e percebi que é estar num lugar onde alguém me diz que não gosta de mim, que me odeia até, e eu agradeço e ofereço minha ajuda. Patético. Triste. Perigoso.

A rota da recuperação começa, e termina, com o perdão e o amor.

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Casa ou ninho?


Pequenas diferenças na forma como cada um vê as coisas podem trazer grandes diferenças em suas vidas. A casa em que vive, por exemplo, de quem é? Ou ainda é apenas um ninho? Ou nem isso? O conceito de casa pode ser estendido para tudo, como o lugar de trabalho, o condomínio, a cidade ou país e, ainda, a Terra e o universo. Pode ser apenas o quarto onde se habita. Ou as ruas da cidade. Ou o próprio corpo. Toda pessoa deve se perguntar sobre o que é dela e o que é empréstimo ou apropriação indevida.

Muitos animais são recebidos na vida pelas mães, as vezes também pelos pais, e inicialmente acolhidos num ninho. Ali podem crescer até terem as condições mínimas para sobreviverem no mundo externo por si só. O ser humano é esse tipo de criatura. Nasce num ninho que, de início, é a mãe. E pode ficar só nisso, mas, geralmente o ninho é um lugar construído por seus progenitores. É comum que seja a casa deles.

Utilizando o princípio da correspondência hermético que diz “Assim acima como abaixo; assim abaixo como acima“, podemos estender essa associação do filhote com o ninho para cima, como a cidade e o planeta, ou abaixo, como o seu quarto ou seu corpo. A criança vive no seu ninho que é a casa dos pais. Com o tempo, ela pode ter um quarto cedido pelos pais dentro dessa casa. Esse quarto agora é um compartimento do ninho onde ela poderá exercer alguma decisões suas e aprender a cuidar dele e assumir as responsabilidades relacionadas a estas decisões e ações. Nesse ninho próprio aprenderá que toda decisão e ação tem consequências. Com o tempo, se a criança conseguir realmente se apropriar e cuidar do local, o que acontecerá provavelmente na pré-adolescência, esse seu quarto, ainda ninho, poderá ir se tornando uma casa para ela. Não é casa ainda, mas é um tipo de estágio onde parece ser casa.

O tempo sempre passa e o adolescente tornar-se-á um jovem e, em condições normais de desenvolvimento pessoal, sentirá uma necessidade interna de se apropriar mais e mais de sua própria vida, o que gerará, entre outras, a necessidade de ter sua própria casa. Com ou sem a ajuda dos pais ele caminhará para isso. Tudo inicia numa vontade interior que passa a ser uma necessidade que se torna uma decisão e que gera movimento. Este, na nossa cultura, requer a obtenção de dinheiro. Com seu próprio esforço ele avança nessa direção e, um dia, muda-se para sua casa. Aí sim, é sua casa e não mais apenas um ninho. Ele chegou até a casa, ele a arrumou, ele passará a mantê-la. Isso torna esse espaço sua casa. Um ninho não serve para quem cresce como pessoa, pois ele é a casa dos pais e próprio para crianças. Essa é uma visão que creio ser bem real. Essa também é a experiência pessoal deste que vos escreve essas linhas.

Olhando para coisas maiores, como a cidade, o país e o mundo todo, um indivíduo pode vê-las sempre como ninhos enquanto não se apropriar de sua responsabilidade para com esses ambientes e não se colocar como ativo na sua manutenção e sua criação a partir de sua visão sob as regras vigentes. Em certas situações, até as regras podem ser aprimoradas a partir de sua visão e ação. A Terra, sob um olhar, é e sempre será um ninho, pois ela nos foi dada e dela só sairemos fisicamente quando e se desenvolvermos tecnologia para isso, mas, mesmo assim, ainda estaremos sempre dentro do ninho universo. Como não temos como fazer um planeta, estaremos sempre dentro desse ninho. Mas, assim como o adolescente vai transformando seu quarto em sua casa até crescer mais, todo indivíduo pode ir tornando o ninho Terra em sua casa pela mesma conscientização, apropriação, responsabilidade e cuidado criativo.

Olhando para as coisas menores todos temos um corpo que, assim como a Terra, nos foi dado. Através dele teremos uma vida aqui, tal e qual a conhecemos. Nesse sentido, esse corpo é um ninho também e, da mesma forma, cada um pode transformá-lo em sua casa pela tomada de consciência do seu lugar e papel no corpo através de sua apropriação pelo respeito, responsabilidade e cuidado.

Problemas surgem – e se tornam patologias perigosas – quando a criança só cresce fisicamente, pois, se for saudável, esse é um processo automático que lhe foi dado de presente pelo corpo. Assim existem situações, que desafortunadamente não são raras, de pessoas com mais de quarenta anos de idade ainda vivendo dentro dos ninhos que são as casas de seus pais. Algumas sequer transformaram seus quartos em suas casas. Seus corpos cresceram automaticamente e elas tiveram dificuldades na transição para a vida adulta. O pior é que esta deficiência pessoal não as impede de se colocarem profissionalmente, empresarialmente ou politicamente no mundo e nem de conseguirem ocupar alguns cargos onde tomarão decisões que afetarão as vidas de muitos. Assim, o que esperar do mundo em que vivemos onde boa parte do comando está nas mãos de crianças medrosas que não conseguiram sequer sair de seus ninhos?

É necessário se honrar os ninhos, o que inicia com gratidão sincera. É necessário reverenciá-los. É necessário se sair deles e se construir as próprias casas. Feito isso, é necessário se criar ninhos para os outros e ajudá-los a os abandonarem também.

Quem quer um mundo melhor que saia do ninho. Isso começa em si mesmo. E isso é apenas o início.

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