A Grande Obra na Oficina Cerâmica Francisco Brennand


A Oficina Cerâmica Francisco Brennand, em Recife, PE, possui um acervo de umas 2.000 esculturas e pinturas do artista que dá nome a ela. Toda essa produção deu origem a um vasto e belíssimo museu encravado numa reserva florestal de sua propriedade. Inesperadamente, aos meus olhos esse espantoso museu ressaltou o valor de uma obra que não faz parte de seu acervo. Registre-se que não há nenhum desmerecimento ao Sr. Francisco aqui. Ele, aos 91 anos de idade e ainda produtivo, nos dá um estupendo exemplo do que pode fazer o ser humano que tem um sonho e o realiza com foco e muito trabalho. É inspirador.

Os grandes artistas são capazes de expandir nossa visão e incrementar nossa percepção das possibilidades. Eles nos relembram de que somos mais do que aparentamos, já que todos temos a mesma origem segundo descobertas da ciência e muitas mitologias. Uma destas, a de Adão e Eva, foi assim representada por Francisco.

Fui entrando no museu e inspirando-me através de suas obras.

Entrando e saindo, mas sempre me expandindo.

E seguindo.

Até que me deparei com isso.

É arte? Ou não? Seja como for, não é uma obra de Francisco Brennand, mas, possivelmente pela abertura de percepção com a qual me brindou esse grande artista, eu estava em condições de ver a grandeza dessa obra. Sim, considerei-a neste momento – e continuo vendo assim – uma grande Obra de Arte.

Por si só ela se modifica. Ela cresce. Ela transforma a si e ao ambiente, inclusive o ar deste planeta adaptando-o a nossa existência. Ela tem um aroma maravilhoso, uma criação de suas pequenas e lindíssimas flores vermelhas que, nesse momento, eram poucas mas já suficientes para perfumar nossas vidas. O perfume das flores, parte desta obra, parece ativar algo dentro dos espectadores que, assim, não seriam também obra? A obra está nos dois e nas suas relações. Mais do que genial.

Essa obra gera sementes e dá a luz a novas obras iguais. Elas vem fazendo isso a muito mais tempo do que a vida deste grande escultor quase centenário. Possivelmente façam isso a mais tempo do que existe o ser humano. Como poderia não me encantar com ela? Mais do que arte, não seria isso um milagre?

Se as 2.000 esculturas e pinturas foram feitas por um artista, o Sr. Brennand, quem foi o projetista e artesão desta obra viva? Se não há projeto, seria tudo produto do acaso? Se é isso, então só não tiro o chapéu para ele porque não uso um. Acaso ou não, o fato é que existe uma improvável e inacreditavelmente complexa organização que permitiu a existência interdependente de infinitos átomos, moléculas, coisas, mundos, estrelas, universo, vidas, mentes, almas e espíritos. Isso sem contar o que ainda nem conhecemos. E nós somos parte e fruto disso. Então, se na origem não existe nenhum projeto, pessoalmente sinto necessidade de agradecer e reverenciar esse acaso incompreensivelmente inteligente, capaz e poderoso. Quando penso que nós mesmos, uma de suas obras de arte, chegamos até a nos tornar autoconscientes, a observar as próprias obras e o museu onde todas estão – em infinitesimal instância nosso planeta e num âmbito maior o que chamamos de universo – e a criar novas coisas usando partes dessa obra, como o computador no qual escrevo, preciso realmente admirar o acaso.

Esse acaso é muito para ser chamado assim e parece mais apropriado ser reverenciado, e não apenas chamado, por Grande Mistério.

Perto do Grande Mistério, os feitos humanos são diminutos. São meras reorganizações daquilo que Ele criou e nos proporcionou. Ele cria, nós alteramos. Ele faz as coisas e as Leis que as regem, nós as investigamos. Mas, somos capazes de criar também no nível a que nos cabe. Assim, são importantes nossas obras. Elas são parte daquilo que Ele relegou as suas próprias obras criarem.

Saindo do museu, o Grande Mistério me mostra mais uma de suas inúmeras peripécias em um de seus infinitos mundos. Muito obrigado Sagrado Grande Mistério!

“Dentro de limitações, o Grande Mistério nos permite termos visões e a capacidade de criarmos a partir do que ele nos fornece. Todo o resto é o que ele não permite e a isso chamamos de impossível. Neste reino não podemos experimentar nada nem sequer em imaginação.”
Luciano Pillar

Referências

1) http://www.brennand.com.br/

2) https://pt.wikipedia.org/wiki/Francisco_Brennand

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A utilidade do inútil: Nuccio Ordine na UFCSPA


O que é inútil? Depende. Inútil para um empresário e investidor pode ser uma árvore na amazônia. Para algum presidente, senador ou deputado brasileiro pode ser o sistema de educação. Para um extremista do que chamamos de direita pode ser a filosofia ou a arte que levem a questionar. Entretanto, quem já viveu num mundo sem árvores? E sem educação? Sem literatura e música? Seria possível estarmos aqui na ausência de qualquer uma destas “inutilidades”? Isso é tão improvável que dificilmente alguém possa sequer imaginar um mundo assim.

O que é útil? Depende. Para os que governam o mundo tem sido o lucro financeiro. Para muitos que vivem para manter a visão destes governantes – que se torna a sua também – e viver de suas migalhas, útil é exterminar toda manifestação que questione e enfraqueça esse modelo. Entretanto, como manter o mundo funcionando através dessa forma de organização? Como prosseguir com esse modelo de utilidade se em apenas poucos séculos, mais especialmente nas últimas décadas, ele já esgota as reservas do planeta que nos sustentam, além de produzir fome para mais de um bilhão de pessoas, miséria generalizada, poluição e alterações no ecossistema que nos destruirão? Onde e como viverão até mesmo os próprios governantes, no atual padrão de suas exorbitantes necessidades, se não existir mais um mundo saudável e escravos capazes de os manterem?

Esse tema foi muito bem explorado no livro “L´Utilità Dell´Inutile“, best-seller traduzido em 26 países, entre eles o Brasil em 2016, com o título “A utilidade do inútil”. Seu autor é o consagrado professor italiano Nuccio Ordine que, a partir desta publicação, tornou-se uma referência mundial na defesa da cultura e da educação como pilares de sustentação das sociedades. Ele esteve nos dias 4 e 5 de setembro de 2017 na UFCSPA nos brindando com uma conferência sobre este tema no II Encontro de Educação e Humanidades nas Ciências da Saúde: A utilidade dos saberes inúteis.

Para reforçar a relevância do encontro e do tema escolhido, numa iniciativa da Prof.ª Dra. Ana Boff de Godoy da UFCSPA, Nuccio recebeu o primeiro título de professor honoris causa concedido por esta universidade. A reitora da UFCSPA, Lucia Pelanda, manifesta-se através do facebook: “Como o nosso professor Honoris causa disse, tudo o que nos torna pessoas melhores é útil. Por isso, faz parte do nosso DNA de universidade da saúde ter um departamento de Humanidades pensante e atuante“.

Vamos a algumas considerações sobre o livro e o evento na UFCSPA.

Por que o livro “A utilidade do inútil” se tornou um best-seller em tantos países? Por necessidade. Mais, por uma questão de sobrevivência. Como vivemos numa organização econômica, social e política que defende o lucro financeiro rápido acima de tudo tornou-se prioritariamente útil o que leva a isso, sem se medir as consequências. Além disso, e para piorar, tal modelo só se sustenta com crescimento. A estabilidade não o mantém, conforme descrito por Adam Smith através do que ele chamou de “estado estacionário“. A consequência dessa visão somada à tecnologia atual – bastante recente – e a atual enorme população fez deste, de longe, o mais ineficiente e perigoso sistema, já que em pouquíssimo tempo nos levará à aniquilação. Há alguém que possa, mesmo com muita imaginação, descrever nossa civilização vivendo disso por mais mil anos? Quinhentos? Cem? É tanta ineficiência que manter isso a qualquer custo só pode estar relacionado à insanidade. Ninguém, nem nenhuma civilização, que se organize apenas ao acaso poderia criar uma situação tão caótica e catastrófica. Se seguíssemos vivendo nas cavernas sobreviveríamos. Patético!

Sendo assim, o fato do livro “A utilidade do inútil” ser um best-seller é sinal de que devemos – ou deveríamos – nos preocupar. Se não estivéssemos em perigo, esse livro seria – e é – apenas um relato de obviedades que seria esquecido. Provavelmente não teria sido escrito, ao menos não por um homem inteligente como Nuccio Ordine. Mas, não, ele é um best-seller. Por que? Para nos chamar de volta à realidade. A realidade que inclui, e muito, o que foi classificado como inútil. O inútil que pode nos dar a chance de nos salvarmos.

Vamos olhar para o que foi chamado de inútil através do retorno à realidade. A realidade é algo que nos permite existir e desenvolver. O mercado financeiro é uma abstração filosófica, econômica e matemática para das valor às coisas e as trocas delas entre nós. É uma abstração. Não é a realidade. Esta é nossa provedora de vida. Ela nos dá a biosfera terrestre, com ar, água e alimentos. Nos dá nossos corpos. Nos dá tudo. Ela comandava, comanda e continuará comandando. Ir contra ela afeta a nós e não a ela. Se continuarmos a enfrentá-la pereceremos e ela continuará. Do ponto de vista dela não passamos de um instante.

A outra parte da realidade é o que somos. Se fôssemos apenas como nossos irmãos animais, pelo menos no curto período de tempo que os observamos, poderíamos dizer que a biosfera que nos permite existir seria suficiente. Mas, nós temos a tal da mente. E a alma. A necessidade de observar, entender, criar, fazer arte e essas coisas. Essa nossa capacidade nos permite não só estar na realidade, mas também vê-la por nós mesmos. Nos permite evoluir para algo que ainda não podemos entender. Então, isso que nos faz humanos também nos permite diferenciar a realidade que nos mantém dos modelos abstratos que criamos para nomeá-la e definí-la com o propósito de entendê-la através da razão. Como e quando deixamos de diferenciar a realidade de nossos modelos abstratos? Como passamos a viver num mundo onírico?

Para deixarmos de fazer essa diferenciação temos que eliminar essas coisas da alma e da mente, como a arte, a intuição e a razão. Temos que apagar ou reescrever as memórias, criando uma história fictícia ou história nenhuma. Temos que esquecer de alguns atores importantes que trazem alguma luz neste palco da vida. Música, línguas, pedagogia, literatura, filosofia e antropologia, entre outros, devem ser tornados saberes inúteis. Inúteis e perigosos.

Então, essa nossa essência que foi chamada de inútil pelos que vivem na abstração econômica é nossa salvação. Isso faz deste livro, de seu autor e deste evento da UFCSPA muito importantes. Tanto, que já é uma questão de sobrevivência. É pouco?

II Encontro de Educação e Humanidades nas Ciências da Saúde: A utilidade dos saberes inúteis

A simples organização e realização deste evento, pelas razões expostas, numa universidade de ciências da saúde já é um ótimo sinal para os que se interessam pela sobrevivência, convivência pacífica, inclusão social e desenvolvimento pessoal e social. Para os que tem medo disso, pois vivem na abstração do mercado, espera-se que, em algum momento, lembrem-se de sua sobrevivência. E a de seus filhos e descendentes, caso não sejam sociopatas e consigam se importar.

Está de parabéns a reitora Lucia Pelanda, médica cardiologista e pessoa muito humana, de visão bastante abrangente e não contaminada pelo puro utilitarismo financeiro. Também estão de parabéns as pessoas do Departamento de Humanidades da UFCSPA.

O mesmo não podemos dizer de nosso governo brasileiro. Este, que deveria ser o principal incentivador da formação do povo, com vistas a termos no Brasil uma nação próspera e saudável, está a serviço de outros interesses. Traidor do Brasil e de seu povo, ele joga contra e está desmontando o sistema público de educação com corte maciço de verbas. Por isso, foi necessário se cobrar ingresso de R$ 30,00 por pessoa para este evento. Por ser universidade pública deveria ser gratuito. Esse valor não é pouco para quem não tem.

A audiência foi menor do que o desejável. O pior é que faltaram alunos no evento. Por que? Uma razão é a cobrança de ingresso, mas não deve ser só isso. Seria possível haver uma repulsa dentro da própria universidade às humanidades e especificamente a essa visão do útil e do inútil? Será que os futuros profissionais da saúde estão sendo educados para serem pessoas menos ligadas às pessoas do que a uma posição social e financeira? Se for, mais importante ainda se torna o papel do Departamento de Humanidades  desta universidade.

O tema de resgatar a humanidade dita “inútil” foi muito apropriado. A condução do evento, as mesas e conferências foram muito bem conduzidas. Bravo!

Nuccio Ordine

Em sua conferência ele nos deixou alguns presentes, a começar pelo exemplo de sua própria vida. Pessoa de origem humilde em uma pequena cidade italiana da Calábria desprovida de bibliotecas e nem nada que o levasse a se interessar por cultura geral da humanidade, disse que só chegou onde chegou devido aos seus professores quando ele era criança. Eles incentivaram-no a descobrir seu caminho e a ler. Eles deram o exemplo e o afeto que uma criança busca num adulto e num mestre. Nuccio destacou que, em qualquer sociedade desenvolvida, o professor das crianças é pessoa da maior importância. Nada além do óbvio.

E aqui, o que foi feito com a educação infantil nas últimas décadas? No que resultou? O que acontece com o povo brasileiro no presente, em termos de violência, ignorância, baixa capacidade de união e defesa dos seus interesses e da nação? Como ficou a capacidade de exercer a democracia pelo direito do voto consciente? Será que não há relação direta disso com a baixa qualidade da nossa educação infantil e com a pouca esperança que é dada às crianças? O que podemos esperar para esse país no futuro? Não há acasos aqui.

Algumas colocações do Sr. Ordine:

  • a função da universidade é formar seres humanos livres e não dar ou vender diplomas;

  • nos Estados Unidos há um movimento de advogados e magistrados que incentiva esta classe a buscar na literatura formas de se adquirir experiência humana mais abrangente;

  • uma universidade conduzida como empresa cortará conhecimentos que não sejam rentáveis no curto prazo e, em uns cem anos, teremos poucos conhecedores em algumas áreas. Citou o exemplo da arqueologia e ilustrou com o que faremos com descobertas futuras nessa área;

  • as universidades buscam serem rápidas, mas o verdadeiro saber, conforme Nietzsche, requer lentidão, meditação e silêncio;

  • a raíz da palavra patrimônio refere-se ao que o pai deixa para o filho e hoje isso está relacionado à questão financeira;

  • sem cultura e arte somos como peixes que não sabem o que é a água.

Christine McCourt

Consegui assistir também a conferência de encerramento de Christine McCourt onde ela mostra sua extensa pesquisa sobre o parto em hospitais, em clínicas especializadas e em casa na Inglaterra comparando-os entre si e com conhecimentos antropológicos sobre outras culturas. Toda informação e resultado estatístico das suas pesquisas deixam claro que pensamos e cremos da forma pela qual fomos induzidos por interesses que não são necessariamente aqueles voltados à natureza e ao bem-estar da mãe e do bebê. O tema é longo e não é foco aqui, mas sim o fato de que estamos presos num esquema onde os atores comerciais já estão bem colocados e não possuem interesse de mudanças no quadro atual. Sim, atores comerciais. Foi uma pena ver tão poucos alunos na plateia.

Fechamento

Foi uma alegria ver, logo depois da conferência de Christine McCourt, a Prof.ª Dra. Aline Vanin, da UFCSPA, numa roda de discussão com seus alunos que estiveram presentes. No outro dia, muitas manifestações deles no facebook, todas positivas, entusiásticas e afetivas para com sua professora. É muito interessante se ver como os alunos precisam de professores e de mestres, que, além de conhecimentos específicos da área de estudos, lhes dêem exemplos a partir de suas vidas e condutas, lhes transmitam amor, apoio e a sabedoria que somos pessoas e vivemos e trabalhamos para pessoas, que os ajudem a se sentirem incluídos num grupo a partir daquilo que são e que lhes dêem esperança.

Podem ter ido poucos alunos nesta conferência, mas os que foram aproveitaram. Onde há resistência, sempre existe esperança.

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