Amor no ônibus


Naquele momento eu amei todos os passageiros do ônibus. Essa afirmação representa com exatidão o que aconteceu. Literalmente. Logo depois desse acontecimento, concluí que isso é natural. Estranho? Não exatamente. Deixemos as conjecturas e julgamentos de lado e vamos aos fatos.

 

Era um final de tarde de um dia de semana no centro de Porto Alegre. Horário de término de expediente de trabalho para milhares de pessoas que retornavam as suas casas. Eu era uma delas. Entrei no ônibus, sentei junto a uma janela e olhei para a rua enquanto outros passageiros embarcavam. Ao final, nosso transporte se moveu.

Olhando ainda para fora, por alguma razão que desconheço todas as coisas começaram a ficar sem o sentido usual. As ruas perderam a importância, assim como os carros, prédios, casas e viadutos pelos quais passávamos. Da mesma forma aconteceu com o ônibus onde estávamos, o lugar de onde eu vinha e aquele para onde ia. Enfim, toda a cidade, e a razão de meu percurso nela, perdeu o sentido de ser. Não me senti mal, mas apenas fora de tudo o que estava ao meu redor.

Quando voltei meu olhar para dentro do ônibus vi os outros passageiros, todos sentados e olhando para frente. De repente, eles começaram a ficar iguais ao meu olhar. Fisicamente iguais, mas com uma luminosidade fraca em torno de cada um. Nesse momento percebi que haviam milhões de pessoas na mesma cidade que eu e bilhões no mesmo planeta naquele momento. Mais outra multidão que já viveu em outras épocas. E, dentre todas elas, justamente essas poucas estavam ali comigo no ônibus.

Foi aí que algo em meu estado normal mudou de forma mais profunda. Comecei a me sentir feliz por estar ali com elas. Essa sensação foi se intensificando até que senti amor por cada uma. Um amor muito profundo e desinteressado. Esse amor era totalmente perceptível em si mesmo, assim como sentimos calor e até nos queimamos quando tocamos o fogo. O amor em si, e não descrições poéticas de suas consequências.

E então percebi todos parados. Mais do que imóveis, parados mesmo. Todos estavam no nosso dia a dia e, da forma como eu podia ver no momento, eu os sentia imóveis, dormentes e agindo no piloto automático. Pareciam sonâmbulos. Ainda durante essa percepção entendi que era assim que eu estava há pouco. Que é assim como costumo estar.

Reflexões

Mais tarde, de volta a minha vida comum – e por razão desconhecida -, lembrei-me do estado de embriaguez alcoólico. Acrescento a esse estado todos os provenientes do uso de substâncias químicas com regularidade, como os antidepressivos e outras drogas. A partir de minha normalidade, me vi nesse estado inebriante como um indivíduo de certa forma desativado. Fico lento, incerto, pouco ou nada perceptivo ao milagre da vida. Dormente. Menos do que meu normal. Da mesma forma vi esse estado que consideramos normal a partir daquele em que amei os outros sem distinção. Vi o estado comum como um tipo de cegueira e inconsciência se comparado às nossas possibilidades. Lamentavelmente a embriaguez alcoólica termina, salvo em casos de dependência, mas essa embriaguez da vida não. Não sem esforço. E é provável que muitos nem conheçam nada além disso. Não por experiência própria.

Também refleti sobre as situações em que me senti em um estado maior e mais amplo do que esse a que denominamos de comum. Identifiquei os momentos de contemplação da natureza, da vida e desse Grande Mistério. Os momentos de oração e de pensamentos construtivos e amorosos. Os momentos de amor. Os momentos de fazer amor com amor; a única forma, de fato, possível. Os momentos de contato com a arte.

Sobre esse estado em que amei os passageiros do ônibus arrisco a afirmar que a maioria das pessoas não o tomará a sério. Muitos poderão até fazer piada a respeito. E outros ainda entenderão e até acreditarão, mas esquecerão rapidamente e de forma definitiva esse texto. Arrisco também uma possível explicação na possibilidade de que isso pode estar distante demais de suas realidades e é comum não vermos ou esquecermos o que vai contra nossos conceitos. Por outro lado, como eu vivenciei claramente esse amor inusitado, creio que é garantido que outros já o sentiram também e alguns, talvez, com mais regularidade do que eu.

Seja como for, fatos são fatos e acho importante adaptarmos de alguma forma nossas crenças a eles.

Referências

Essa experiência também está descrita em um post de 2011 aqui em TRINK chamado “Amor e paixão“.

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Cremos no que é verdadeiro?


Eu tinha uma lembrança. Ela era uma certeza inquestionável e absoluta, até que me deparei com uma prova incontestável de que era falsa. O que aconteceu comigo, durante e depois desse momento, me serviu de importante lição sobre mim, sobre os outros e sobre nossa sociedade.

O objeto de minha certeza era a antiga motocicleta Suzuki GT-380.

A minha falsa crença é que ela tinha um motor de dois cilindros. Sim, para a maioria isso pouco importa. Para mim também. Mas, ponha no lugar do motor dessa moto coisas que definem nossas vidas a partir de nossas crenças em relação a elas. As religiões, a família, os grupos sociais, os sistemas de governo e os posicionamentos políticos são apenas alguns exemplos.

A partir de nossas crenças acolhemos alguns e excluímos outros. Tratamos nosso planeta como objeto ou como lar. Respeitamos e aprendemos com quem é diferente de nós ou os ignoramos, excluímos e atacamos. Vemos os gêneros e raças humanas como uma diversidade que acrescenta ou que assusta. Vemos a arte como intuição, expressão profunda de nós mesmos e libertação ou como algo que intimida e deve ser combatido. Vemos os outros como sagrados companheiros que devem ser amados ou como competidores que nos diminuem. Nos vemos como o centro do universo ou como parte dele.

Nossas crenças definem em grande parte quem somos. Falamos português e comemos vacas – quem pode – porque nascemos no Brasil. E se fôssemos indianos hinduístas, o que pensaríamos da nossa versão brasileira? Afinal, quem somos realmente, já que seríamos tão diferentes se tivéssemos nascido noutro país? De onde vêm, de fato, nossas crenças? São nossas mesmo?

O fim de uma crença

Vou descrever o processo da destruição de uma crença pelo qual passei. Sempre gostei das motos e quando era menino eu adorava e estudava o assunto. Eu lembrava da antiga Suzuki GT-380 como tendo um motor de dois cilindros – para quem não entende o que é isso, não importa, pois não é esse o tema. Depois de muito tempo, encontrei uma delas numa exposição de carros e motos. Uma GT-380 de 1976 totalmente recondicionada e… com motor de três cilindros! Fiquei boquiaberto.

Diante da evidência, comecei negando. “Impossível“, pensei. Se fosse uma foto eu diria que era alterada por algum editor de imagens como o photoshop. Mas, era a própria moto! Era real e estava diante de mim. Resistindo, pensei que poderiam ter dois motores diferentes pra mesma moto. Desisti dessa tentativa desesperada e aceitei; são três cilindros. E fim! Segui-se um desânimo.

Logo depois, esqueci da moto e observei meu processo. Eu tinha uma certeza. Absoluta certeza. Inquestionável. Mas, sem dúvida, era falsa. Por décadas foi verdadeira no mundo de minha imaginação. Décadas de uma crença aniquilada no tempo do instante que eu olhei pra aquele motor. Menos de um segundo. Aceitei o novo fato e prossegui.

Uma breve reflexão

Quantas falsas crenças eu tenho?“, pensei naquele momento e me assustei com isso, pois achei que devem ser mais do que imagino. “E quantas pessoas que ao se depararem com alguma evidência, se não da falsidade, ao menos da questionabilidade de alguma crença sua, são capazes de dar o braço a torcer? Quantas, ao menos, conseguiriam ver uma prova da falsidade de alguma crença sua?“, continuei pensando. “Quantas teriam a coragem de manter suas crenças fora do grupo que compartilha delas? E na presença de algum grupo que crê em coisas diferentes e até antagônicas?“, continuei. “É fácil ser ousado no seu meio, onde ninguém questiona as crenças do grupo e, pelo contrário, as reforça.“, concluí.

Exemplos de falsas crenças não faltam, mas não vou citar nenhuma muito atual para evitar aqui um inútil enfrentamento com tantos que não estão num momento de se observarem e questionarem. Vou apenas relembrar um personagem milenar que, com suas palavras e vida coerentes, nos deixou alguma reflexão sobre as crenças. Falo de alguém que é um personagem para alguns, pessoa comum para outros, gênio para outros ainda e expressão de Deus para milhões: Jesus. Seja como for, não há dúvidas de que ele questionou enfaticamente as crenças dos grupos com os quais esteve envolvido. E nos deixou ideias que não se vincularam a interesses de ninguém, mas apenas daquele, segundo ele, que o enviou. Uma delas é o maior e mais sábio conselho que já ouvi até hoje: “Amai-vos uns aos outros”. Hoje, dois mil anos depois, ainda sabemos deste que simplesmente não se curvou às crenças colocadas para as massas. A partir desse único exemplo suponho ser importante se observar as próprias crenças, especialmente aqueles que dizem seguir esse Mestre sem, de fato, viverem o que ele pregou.

Crenças, crenças. E quantas não passam de tolas crenças?

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