O renascimento da humanidade


Se um dia nossa civilização entrar em colapso, como ela poderia renascer depois? Será possível que os sobreviventes levem consigo algum aprendizado que lhes permitia criar uma humanidade melhor no nosso porvir? Acredito que sim.

Se “o que está embaixo é igual ao que está em cima e o que está em cima é igual ao que está embaixo“¹, conforme vislumbrou Hermes Trismegisto, então podemos olhar para esta transição de nossa civilização como algo semelhante ao nascimento de uma pessoa.

Estabilidade temporária

Em uma situação normal, o feto vive uma confortável jornada de formação e crescimento boiando num líquido quentinho em comunhão amorosa com a mãe. Talvez a humanidade já tenha passado por um momento assim. Mitos sobre um paraíso perdido não faltam e são comuns em muitas – talvez a maioria – culturas e tradições. Mas, sempre existe movimento.

O movimento nos leva a situações que tendem a se tornar mais incômodas, pois, como melhorar o paraíso? Entretanto, mesmo vivendo uma situação ruim, o normal é que queiramos ficar onde estamos. Talvez porque o medo da mudança supere o desconforto presente. Talvez por não vermos – ou nem lembrarmos – todo o quadro, mas apenas vislumbrarmos as situações momentâneas. Seja como for, um dia a mudança se impõe e o medo de prosseguir torna-se irrelevante.

O estável conforto do feto termina devido ao seu próprio crescimento. A estabilidade da humanidade também termina, neste momento por ter-se tornado não autossustentável na Terra.

Preparo para a morte

O feto precisa saber abandonar tudo. Precisa aprender a enfrentar o sofrimento, a se unir em amor com a mãe para juntos enfrentarem um ritual que é só deles. Precisa ter coragem, que será usada, lapidada, fortalecida e incrementada no ritual de nascimento. Todo este aprendizado lhe servirá na sua iminente nova vida.

A humanidade deve identificar quais são seus inimigos e qual é sua verdadeira batalha, pois, ao contrário do feto, está desconectada e esquecida das únicas leis que sempre comandaram e comandam tudo, as Leis da Natureza. Precisa se tornar consciente das razões que a levaram a se tornar não autossustentável e tão perigosa à vida na Terra. Também precisa sentir arrependimento e pedir perdão à Gaia, nossa mãe planeta Terra, aos outros seres e, da forma que é possível a cada um devido as suas crenças, ao Criador.

Preparados ou não, o tempo da mudança chega e não há nada que possa ser feito.

Morte

O feto cresceu muito e, por isso, sua casa o submete à extrema pressão. Dor. Muita dor. Um monstro o esmigalha. Muito medo. Mas, chega uma hora em que o medo de prosseguir finalmente é superado pelo insuportável presente. Ele vai, mesmo não querendo, pois a sua casa agora o espreme, o esmigalha. O monstro o abocanha e o empurra para um lugar onde não parece haver nada além de um buraquinho escuro. Uma pequena caverna, mais apertada ainda. O monstro, implacável, o empurra pra ali com força, irresistível força. Esmigalhado e ele vai entrando. Tão apertado, mas tão apertado que sua cabeça cede, muda de formato sob a força de tamanha compressão. Os olhos, até o presente ainda de duvidosa serventia, parecem que vão saltar para fora das cavidades onde até há pouco estavam confortavelmente instalados. Nessa hora crítica, além do monstro, também o amor da mãe o impulsiona. A mãe, junto do feto-quase-bebê é cúmplice no ritual do nascimento. Ela, que também está atravessando seu ritual. Uma só luta. Um só amor impulsionando o feto-quase-bebê para a morte necessária ao seu renascimento em outra vida.

A humanidade também cresceu fisicamente. Tornou-se mais de sete bilhões de pessoas. Mas, não se contentou com isso. Também cresceu em necessidades para cada um dos indivíduos que participam de uma coisa que ela mesma denominou de mercado. Ou uma parte dela, os donos do tal mercado. Outra parte ficou esquecida. Virou miserável, escrava, cobaia e a imagem da inferioridade para sustentar as psiques doentes dos que precisam justificar sua suposta grandeza pisando nos que foram tornados menores.

Para a Terra, nossa mãe Gaia, sobraram algumas consequências deste delírio da humanidade. O lixo plástico que está nos oceanos e na terra, o lixo atômico e a radiação de mesma origem liberada através de acidentes como o de Fukushima, o desmatamento em larga escala, as contaminações ambientais de nossas indústrias tanto pelo que geram como pelos acidentes – estes muitas vezes impunes na proporção devida, como a da barragem de Fundão, da mineradora Samarco, em Mariana, MG. E agora, cá estamos mergulhados e afogados em agrotóxicos, abusos de medicações, alimentos transgênicos em testes em nós mesmos, excesso de ondas eletromagnéticas e outras contaminações que circulam no nosso sangue. Não podemos esquecer das inúmeras extinções de seres vivos que provocamos, da contaminação do ar e do aquecimento global e… E a lista não tem fim.

Se estivéssemos focados em resolver esses problemas, ainda assim provavelmente já seria tarde. Mas, não só não estamos, como continuamos produzindo-os em larga escala. E rápido. Parece que esquecemos que nossa mãe Gaia, sozinha, é muito mais forte do que todos os nossos governos e todos os poderosos-donos-de-tudo juntos. Além disso, ela não depende de nós e a recíproca não é verdadeira. E esquecemos que não sabemos sequer fazer uma pequena biosfera autossustentável onde vivermos e nem fazer viagens espaciais e colonização de outros planetas para nos salvarmos.

Sendo assim, parece não haver dúvida que chegará a hora crítica em que a mãe Gaia finalizará a forma atual de nossa civilização. Ela simplesmente não fará nada, apenas deixará toda nossa contaminação aqui atuando sobre nós mesmos e os outros seres até que a nossa situação chegue a um sofrido limite. Ou, quem sabe, em algum momento ela possa finalizar nosso tormento exterminado-nos mais rapidamente. Pequenos movimentos seus, como os maiores furacões e terremotos jamais registrados na história conhecida, podem facilmente apressar o fim daqueles que, há anos doentes, famintos, contaminados e loucos, ainda perambulariam por aqui. Pequenos movimentos da Terra, que não lhe afetam absolutamente em nada, podem superar muito o efeito do conhecido meteoro que caiu aqui há 65 milhões de anos e exterminou os dinossauros. Como ficaríamos nós perante isso? Nós, que sequer conseguimos conter o minúsculo desastre atômico de Fukushima que sucumbiu a uma ondinha, faremos o que diante de movimentos maiores de Gaia?

Essa mãe também impulsionará sua filha humanidade para a morte necessária ao seu renascimento em outra vida.

Renascimento

“Em verdade, em verdade te digo que, se alguém não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus.”
Bíblia Sagrada. João 3, 3.

O feto morre. Com isso, vence e renasce como um bebê. Luz, espaço ilimitado, ar. O ar entra rasgando e dói. Depois faz cócegas e nutre. A mãe é quente por fora também. O abraço e o acolhimento são mágicos. Um novo ser, um novo mundo, uma nova vida. Inconscientemente internalizada nele está a sabedoria adquirida no ritual do nascimento, da batalha travada, da luta junto com a mãe, do risco, da entrega, da confiança, da morte, do renascimento. A energia e o conhecimento da vitória.

Na humanidade, alguns sobreviverão. Diferentes. Mudados. Outro corpo, outra vida, outro mundo. Nos Registros Akáshicos a história de mais uma civilização que sucumbe. Todo seu conhecimento e sabedoria. De posse deste saber, teremos a chance de estarmos alguns passos adiante dos sapiens de hoje.

Mãe Gaia, como sempre, acolherá, proverá, perdoará, ensinará e tornar-se-á novamente limpa com o tempo.

Referências

1) TRISMEGISTUS, Hermes. The Emerald Tablet of Hermes. 1.ed. IAP, 2009. E-Book.

2) GROF, Stanislav. Além do Cérebro: Nascimento, Morte e Transcendência em Psicoterapia. Trad. Wanda de Oliveira Roselli. Mc Graw Hill, 1987.

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O renascimento de TRINK


TRINK renasce hoje! Sim, é isso mesmo, TRINK está de volta! E para marcar bem o momento, nada melhor do que abordar a questão do renascimento.

Antes de prosseguirmos, aproveito para justificar a parada de TRINK declarando que algo em mim morreu em 2013, e TRINK foi junto. Entretanto, no mesmo instante esse movimento abriu portas que me levaram a novos caminhos nesses quatro anos. Sim, quatro anos de provações, descobertas e superações que me permitiram trazer TRINK de volta à vida.

Renascimento? Como assim, renascimento?

Isso é o que estamos sempre fazendo. Nós e tudo o mais que nos cerca. Nossas células morrem. E renascem. Nossa infância e juventude morrem para renascerem como parte de uma pessoa mais madura. As pessoas que conhecemos um dia se vão, e novas surgem. Nossos planos morrem quando renascem transformando-se em realizações, frustrações ou são simplesmente esquecidos, situação esta em que permanecem como uma força que mina nossa autoestima. Nossos sonhos morrem quando renascem transformando-se em algo que nos eleva, algo real, ou quando são abandonados, matando um pedaço de nós, de nossa alma. A maior parte de nossa família morreu antes de nós para que pudéssemos estar aqui. Da mesma forma muitos povos cederam seu espaço, geralmente através de alguma ação brutal, para que nós estejamos aqui hoje. Civilizações morreram e, de alguma forma, seus registros de memória ficaram impregnados no seu porvir, em nós. Nosso planeta não existiu sempre. Algo morreu antes dele nascer e, por causa disso, ele nos permitiu estar aqui. Um dia ele morrerá, num futuro humanamente longínquo, tanto que de nós provavelmente não restará nada, nem lembranças – pelo menos em termos físicos, nos formatos com os quais nossa limitada ciência trata hoje.

Um dia uma parte minha morreu e ela, por sua vez, levou TRINK. Através desta morte eu me senti incapaz de dizer algo útil, incapaz de me expressar de forma satisfatória e sincera através das palavras. Então, por coerência, parei. Preciso ser sincero. Preciso estar presente. Ou me calar. Você já perdeu algo? Algo que o parasse em alguma caminhada, em alguma realização, em algum sentimento? Já perdeu algum sonho na jornada desta vida?

Renascer é nascer de novo. É o início de uma nova situação a partir do término de outra. O que morreu subsiste como registros, na forma de memórias e aprendizados, e assim torna-se parte integrante da nova situação que nasce. Esse movimento é uma lei em nosso universo e se repete indefinidamente em tudo o que observamos.

“O movimento do Tao nasce dos opostos.”
Tao Te Ching

Quando algo em mim morreu em 2013, e me impediu de andar como estava andando, entendi que era em mim mesmo que eu devia buscar o porquê. Intuí que algo precisava sair e eu, de alguma forma, estava impedindo. Entendi que não são os outros, o mundo, a política, as injustiças ou seja lá o que for a que eu poderia atribuir a culpa. A razão devia estar em mim. Isso motivou uma busca pessoal e esta me mostrou trancas para as quais tive que procurar pelas chaves. A busca me levou a um patamar mínimo de condições para realizar o renascimento de TRINK.

A busca se tornou o algo a compartilhar. E o objetivo se apresentou como aquilo que podemos e precisamos ser para superar a infância e criar um mundo melhor.

A busca trouxe um sonho ao início de sua realização. A volta de TRINK é o passo inicial e os próximos estão sendo criados e serão compartilhados mais adiante.

O que vem por aí?

Nas próximas publicações vamos aprofundar essa questão do renascimento. Vamos olhar para nossa civilização e de seu processo nesse movimento, pois é provável que, da forma como está organizada, ela está rumando para um fim e este, por sua vez, levará a uma mudança. Deste processo faz parte o movimento de renascimento pessoal, pois não poderemos ter um mundo diferente, mais justo e autossustentável se, antes, nós não nos modificarmos. Afinal, quem faz esta civilização?

Aguarde!

Uma mensagem final.

TRINK foi feito por e para vocês, caros leitores. Alguns estão nessa jornada comigo há dezenove anos, desde o início de ~A Revista~. Muitos estão há muitos anos. Gratidão a todos.

TRINK terá agora uma regularidade de duas publicações mensais que deverão chegar a vocês no domingo pela manhã. Domingo sim, domingo não.

Luciano Pillar, editor e escritor de TRINK.

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