O Tinder e o aplicativo astronômico


Sexo, paquera, aventura, namoro. Quem não quer? Hoje em dia, com a infinidade de grupos, serviços e aplicativos disponíveis na Internet, até os mais tímidos e reservados tem vez. Com tantos buscando, como não acontecer? Ninguém mais pode dizer que não encontrou algum parceiro.

Céu

E o amor? Existe algum aplicativo para localizarmos o amor de nossas vidas? Sim, existe. Falo por experiência própria. Uma vez o maior e mais antigo aplicativo, que conhecemos por céu, me sinalizou que eu encontraria minha mulher. Não consegui fazer essa leitura naquele momento, mas, no tempo dele, em alguns meses nos encontramos. Depois foi conosco. O aplicativo céu a que me refiro é o que está sobre nossas cabeças e no qual rodam diariamente o Sol, a Lua, os planetas e as estrelas. Sua única exigência é que estejamos atentos a ele e que saibamos ler seus sinais.

Como usei o céu? Foi assim. No dia 28 de janeiro de 2012 vi a Lua, majestosa, entre Vênus e Júpiter.

Uma indescritível beleza e poder – que causa graça tentar comparar com os celulares – me arrebatou dos meus afazeres e me fez intuitivamente saber que alguma coisa aconteceria. Algo viria a mim e me demandaria uma decisão. Em um tempo menor do que um relógio pode medir eu soube disso. Sem demora pesquisei no software astronômico Stellarium a evolução desse movimento. Descobri que os planetas trocariam de posição no céu e uma configuração semelhante se apresentaria no dia 25 de março de 2012. Mais incrível ainda é que a Lua cruzaria entre eles no dia seguinte. Desenhei na minha agenda essa configuração do céu naquele dia. E esperei, pois certas coisas só acontecem no seu momento.

Quando chegou o dia 25 apareceu uma mulher na minha vida. Era ela, minha mulher. Não apenas um caso amoroso, uma diversão ou uma fantasia. Era ela! Nos reconhecemos diante de um rio sendo abençoados por ele, por estes astros em seu ocaso e pelas máximas expressões de que somos capazes; o amor e a arte. Arte? Sim, para completar o quadro presenciamos, do lugar elevado onde estávamos, o movimento inicial do show de Roger Waters, ex-integrante do Pink Floyd, que aconteceria num estádio de futebol diante do rio. Mágica!

No dia seguinte, um pouco antes do amanhecer e próximo às Plêiades, a Lua passou entre os planetas. Uma curiosidade é que o aglomerado das Plêiades é composto por estrelas muito jovens, com idade em torno de cem milhões de anos. Seria um sinal de algo que inicia? Um conjunto de estrelas é uma família? Estava consolidado o encontro.

O movimento completo deste céu está descrito em uma publicação antiga que está aqui.

Não tenho dúvidas de que existam várias pessoas com histórias semelhantes para contar. E nem de que tais “coincidências” ocorram mesmo para os que não estão conscientes delas. O problema é como perceber tais sinais se na maior parte do tempo estamos desatentos a eles. Quem consegue ver o céu numa cidade? Quem sabe reconhecer alguma estrela, localizar algum planeta, identificar seus movimentos e relacioná-los a ciclos de sua vida e do meio ambiente em que vive? E quem está interessado nisso, no meio de tantas distrações? Nem mesmo temos mais noites nas cidades eternamente iluminadas. Poucos ainda sabem identificar os movimentos dos ventos, das águas, dos animais e das plantas. Nos tornamos alienígenas em nosso próprio planeta.

Onde estamos

Desatentos, distantes e desconectados nos tornamos preguiçosos que se rendem ao mais fácil. Neste mundo facilitado, criamos uma grande e útil ferramenta que também é uma armadilha mortal. Falo do celular movido pela Internet. Infelizmente, a conexão a este dispositivo é acompanhada por um forte efeito colateral: a desconexão da rede maior a qual nomeamos de mundo, vida, universo ou o Todo. Ligados no smartphone e desligados do céu, do vento, das águas, da vida, da Lua e do Sol. Conectados à rede artificial e desconectados da natural que nos dá e suporta a vida. E isso é mortal sim, pois com toda nossa tecnologia e desconectados da natureza vamos, a passos largos e rápidos, destruindo-a e, assim, aniquilando a nós mesmos. Isso é mais uma observação do que uma crítica. Não se trata de desistir da Internet e de toda nossa tecnologia, mas sim de não abandonar uma coisa em detrimento de outra. Nem oito nem oitenta. Se estamos conectados ao mundo real que nos sustenta e do qual fazemos parte, podemos usar com vantagens os recursos tecnológicos disponíveis. Caso contrário, seremos crianças brincando com fogo.

Tinder e aplicativos semelhantes

“Toda criatura tem uma capa, um invólucro que o separa do mundo.
Estas são suas fronteiras.
O homem cria modelos pra compreender o universo e é aí que o universo se perde.”
Mia Couto

O mais fácil e rápido seduz. Paquera, aventura e sexo já. Celular na mão, perfil informado, filtros acionados, localização registrada, busca iniciada. Olhos baixos, fixos no aparelho. Aqui e ali surgem pessoas. Perfis que coincidem, pessoas que estão nas proximidades, possibilidades que nascem num piscar de olhos. Elas vão aparecendo como produtos. Somos mercadorias sexuais, assim como já éramos do “mercado” de trabalho. E isso é ruim? Talvez. Mas, existem vantagens. Queremos que haja.

Na tela vão passando os possíveis parceiros. E nós nas outras telas. É um jogo. Somos todos cartas em muitos baralhos, em muitos jogos simultâneos. Entre elas uma gigantesca rede de eletromagnetismo, satélites, fibras óticas e protocolos de comunicação que conectam algoritmos encriptados em programas de computador escritos nas mais diversas linguagens rodando de forma compartilhada em diversas máquinas que, finalmente, dão vida e forma à nuvem. O mundo inventado pelos cientistas da TI e implementado pelos nerds. “They rule”. Tudo isso para prover o encontro dos pombinhos que outrora dependiam apenas de suas próprias capacidades de interação e conquista. Agora todos podem se sentir desejados. Todos podem flertar e ser correspondidos. Todos tem chances de concretizar um encontro amoroso real. Vários encontros. Curiosamente, caso alguns desses encontros resultem em procriação, segundo o discurso daqueles que pregam o darwinismo social, não estaríamos presenciando um antidarwinismo, uma meritocracia ao revés? Que mundo antagônico. Quantos discursos que não passam de palavras ao vento pronunciadas por aqueles que ignoram que não existem palavras que não transformem o mundo. Mas, é bom. Aventura e conquista é bom. Faz o coração bater, traz sensação de vida. Sexo é bom. É o que dizem.

Ainda assim, para aqueles que não se viciarem no jogo em si e não tomarem os próprios aplicativos e suas demandas por objetivo final, existe a possibilidade de se encontrar alguém de uma forma mais profunda. Neste caso, provavelmente o aplicativo Internet teria a função de ajudar a reunir quem possivelmente não se encontraria de outra forma e o aplicativo maior estaria coordenando tudo, por trás dos bastidores terrenos, para unir o que é verdadeiro e necessário. Uma possibilidade.

Será que eu teria encontrado minha mulher num Tinder?

Seja como for, saber que a encontrei pelos sinais do céu é algo que me agrada. Os belíssimos movimentos da Lua cruzando Vênus e Júpiter enquanto estes dançavam no céu ao som de Pink Floyd foi algo mais especial que o caminho dos algoritmos tinderianos.

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Sobre Luciano Pillar

Brasileiro de Porto Alegre, RS. Segundo um leitor: "Capaz de despertar as pessoas através das letras, mesclando temáticas improváveis e fazendo-as chegar a conclusões maravilhosas". Veja mais aqui.
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