Lições na morte de uma criança


“Ele teve parada cardíaca” – foi a primeira coisa que ouvimos quando entramos na emergência de um hospital infantil. Algum tempo depois, enquanto esperávamos pelo atendimento de nossa filha, sai um homem pela porta onde as crianças entram para serem atendidas. Sai aos prantos. Atravessa a sala de espera e sai do hospital. “Ele faleceu” – eu e todos entendemos na mesma hora.

Fora do hospital, mas bem na frente de onde estávamos, pois era o térreo, todos vimos aquele jovem e forte homem desabar. Desabar. Seu choro, seus gritos e seu clamor pelo filho morto eram muito profundos, muito fortes. Contagiou a todos. Familiares chegaram e se juntaram a ele. Levantei os olhos que fitavam o nada no chão do hospital e eles se depararam com os de uma mãe que ali estava, como eu, esperando pelo atendimento de sua filha. Como os meus olhos, os dela nadavam em lágrimas.

Silêncio. Respeito.

Todos ali, em total quietude, em respeito, em dor. Ao fundo, os prantos cortantes de um pai. Um pai que nunca mais irá ver seu filho. Não o verá crescer, não o levará ao parque, não o ensinará a andar de bicicleta, não entrará no mar com ele para brincar nas ondas, não verá ele ter uma namorada, não verá ele se formar, não verá.

Silêncio.

A mãe saiu pela mesma porta. Calada. Uma dor tão grande que nem um choro poderia expressar. Nem uma palavra. Nem uma música. Nem uma poesia. Nem um olhar. Nem nada. A dor de uma mãe. A dor de um amor que ficou sem um de seus lados. A dor do maior e mais sagrado amor; o amor de mãe, incondicional.

Silêncio.

Ela saiu do hospital e se juntou à família.

Eu entrei na dor. Depois saí do hospital e entrei no carro que – por acaso? – estava bem ao lado da família. Fiz isso por causa do ar-condicionado, pois eu estava com pouca roupa e passava frio.

Fechado no carro, me senti junto ao pai que urrava, à mãe que chorava quieta e aos familiares que os sustentavam abraçados, com uma ou outra mão sobre suas cabeças, ajoelhados diante deles, enfim, como podiam. Minhas palavras não são suficientes. No carro eu entrei na dor. E entrei no amor. Não tentava entender aquela situação usando o recurso de me imaginar naquele lugar com um filho meu tendo partido, mas entrei na própria dor deles. E no amor deles. Fazia tempo que eu não chorava tanto. Fazia tempo que não orava tanto, de meu jeito, não religioso, mas muito respeitoso, muito profundo, muito verdadeiro. Eu, sozinho no carro, pedia força, coragem, proteção, conforto e entendimento para eles. Sim, entendimento para que pudessem, através da dor que estava sendo marcada a ferro em brasa em seus corações, crescerem e amadurecerem mais de alguma forma. O amor é indestrutível. O filho, inesquecível.

Orando, chorando e sentindo eu vi, através deles, a esperança. Quando algo muito forte e profundo acontece, nossas máscaras abruptamente caem e, despidos e surpresos, voltamos a nos apresentar como verdadeiramente somos. E esses que somos tem algo em comum em todos nós e a isso chamamos de “humano”. Quando nos referimos a uma ação ou sentimento como humano estamos relembrando o que é ser humano. Estamos recordando que somos sensíveis, amorosos, empáticos, misericordiosos e que podemos fazer qualquer coisa pelo outro.

Mais do que a dor, e maior do que ela, o que eu vi ali era o amor que unia aquela família. Era o pai e a mãe que, tenho certeza, dariam suas vidas pela do filho. Era eu mesmo, que sem conhecê-los, estava com eles e, de alguma forma, movimentava algo maior por eles, por mim, por meus filhos e os filhos dos outros, por você e pelo mundo, simplesmente pela qualidade e profundidade de meus sentimentos pelo bem e pela vida.

Mais do que a dor, e maior do que ela, era o amor que movia outros pais e pessoas que estavam ali. Destas, só minha mulher e filha eu conhecia, mas eu sentia que, de fato, eu conhecia a todos do jeito que realmente conhecemos alguém: em amor.

Entrei no hospital de novo e vi o rapaz que atendia os que ali chegavam com uma lágrima nos olhos.

Lá fora o pai questionava em alta voz, entre as lágrimas: “Como vou voltar para minha casa?”. Ali dentro, nós com ele. E, nesse momento, lembrei de outro pai de crianças maravilhosas e que, porque quis ou porque é só o que ele consegue, as abandonou. Ali eu entendi, da forma mais profunda e muito além de minha parte racional, que este era o que estava na pior situação de todos. Este era o que estava na maior dor. Este, que abandonou e que sequer chora, que sequer se importa e sequer lembra dos filhos, é o que mais requer nossa misericórdia e orações. Este que, por nem saber de sua situação, mais distante está de sair dela. Sozinho, provavelmente medicado e chapado, é fraco diante de algo tão grande e devastador em sua vida que nem mesmo um filho consegue movê-lo. Este está morto e aquele que urrava de dor no hospital, vivo. Só os vivos sentem. Mas mesmo o que está mortalmente anestesiado, por mais distante de tudo o que esteja, em algum lugar de sua alma chora.

Lamentavelmente, muitos destes que estão mortos governam países e empresas. Muitos lidam com as vidas das pessoas. Talvez se apeguem ao poder e ao controle sobre os outros para se sentirem vivos e, dessa forma, perversamente prejudicam a tantos para expressarem o ódio e a inveja que sentem daqueles que estão realmente vivos.

Cada vive um papel num dado momento. É isso. Há que aceitar e se ter misericórdia. E há que se lutar para não permitir que os mortos governem. Eles merecem a vida que têm, mas os vivos não precisam se submeter àqueles que estão mais atrasados em seu desenvolvimento

Para mim ficou a esperança, pois presenciei o amor triunfando na dor e a misericórdia que dele emana. Essa esperança me permite crer que a humanidade possa sair de seus buracos e triunfar.

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Renascendo para criar um mundo melhor


Nossa civilização vive uma enorme e rápida transição. O que virá logo adiante no tempo não é do conhecimento de ninguém, mas é certo que não será igual ao que é hoje ou era antes. A questão, caso tenhamos interesse em viver num mundo melhor, é se cada um de nós está pronto para construir esse mundo. Você está pronto? Você se considera melhor do que esse mundo? Merece viver num paraíso? Caso as respostas sejam negativas, torna-se necessário a cada um passar por uma transformação e renascer como uma nova pessoa que seja modelo para o mundo que desejamos criar para nós e nossos descendentes.

Estas são perguntas que me faço há tempos e tenho me empenhado em respondê-las. Afinal, se não posso entender e melhorar a mim mesmo, como poderia cobrar isso de alguém? Como poderia reclamar por não viver numa civilização mais pacífica, justa, harmônica e próspera? Infelizmente já reclamei muito disso e noto o quão comum é que outras pessoas façam o mesmo. Comecei a mudar quando percebi que eu exigia que o mundo me desse o que eu supunha necessitar antes de eu dar o que tenho para construí-lo. Também me pegaram algumas perguntas que me fiz, como “Se essa civilização tivesse sido construída apenas por pessoas como eu, será que ela seria melhor? Se não, ao menos seria aceitável?”. Acredito que todos, especialmente os descontentes, devem se fazer seriamente esses questionamentos.

Ao observar fatos da história passada e presente da humanidade é possível constatarmos que eles tendem a se repetir. Não importa qual o conflito, com o tempo ele acaba se repetindo. Imaginemos um caso hipotético dentre os inúmeros relacionados à intolerância de alguns grupos em relação a outros. Os governantes do mundo são homofóbicos e, através de seu momentâneo poder, exterminam todos os homossexuais. Todos. A partir desse momento é garantido que, com o tempo – e provavelmente não muito-, surgirão novos homossexuais. Neste caso, surgirão de onde? Dos próprios homofóbicos, a partir de seus ventres ou eles mesmos assumindo esse papel. Mais um tempo passará e todos os governantes que fizeram esse movimento morrerão, nem que seja pelo decurso de prazo das suas vidas. E tudo voltará a ser como antes. E assim sucessivamente. Então, qual a questão aqui? Onde está aquilo que devemos combater? O que significa, realmente, combater?

Todo combate tem alvos claros e alguma chance de vitória. Retomando o exemplo dado, se considerarmos que a vitória é todos os homofóbicos desse mundo se sentirem bem após a eliminação dos homossexuais que lhes causam desconforto, colocando estes no lugar do alvo, então a chance desta vitória é nula. Além disso, matar pessoas, apesar de possível, não é um direito que nos cabe e isso gera uma série de outras consequências. Mesmo ignorantes sobre isso, somente um tolo pode supor que elas não se voltarão a ele, mais cedo ou mais tarde, para os necessários, inevitáveis e caros ajustes. Sendo assim, como eles poderiam identificar qual seu combate e alvo? Uma sugestão é que eles se voltem para dentro de si mesmos.

Estendamos esta sugestão para nós todos. Ao nos voltarmos na mesma direção, ali encontraremos algumas portas fechadas. E suas chaves. Esse caminho exige mais coragem do que o simples ataque externo a alvos errados movidos pela raiva e pelo ódio. Tais ataques, de fato, visam apenas extravasar esses sentimentos e aquele que é a causa e razão de tudo, o medo. Nada mais. O caminho daquele que tem a coragem e a honestidade de voltar-se para si mesmo, de colocar-se com honestidade diante de um espelho, produz mais entendimento e resultados. Ele torna possível a vitória. E põe o que nos perturba no lugar daquilo que vem para nos chamar a atenção para algo que precisamos mudar ou curar em nós mesmos. Esse caminho ainda possibilita àquele que o trilhar resolver questões suas que provavelmente impedem sua caminhada plena. E que impedem sua felicidade e realização. Ele permite, assim, se dar um passo adiante. E se todos derem passos adiante, um mundo melhor, mais justo, feliz, produtivo, autossustentável e com respeitoso lugar para todos naturalmente surgirá. Nós todos somos o mundo no qual vivemos.

Como é possível investigarmos e melhorarmos a nós mesmos? Este é assunto para uma próxima publicação.

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